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Watchmen – O Filme

Audiovisual | Literatura 16/09/09 - 04h Cult Cultura

No clássico livro do russo Fiodor Dostoievski, Crime e Castigo, o escritor levanta uma questão intrigante acerca da figura de Napoleão: é certo sacrificar a vida de pessoas em prol do bem de outras? A pergunta é capciosa, mas retrata o pensamento de Dostoievski, de que muitas vezes, para se realizar algo, pessoas matam pessoas e consideram isso um feito maior.

O que isso tem haver com Watchmen? Muita coisa. Eu já conhecia o conteúdo da HQ, apesar de não te lido a obra de Alan Moore ainda. Sabia sobre seu conteúdo político, social, filosófico, psicológico e existencial. Mas não conhecia com detalhe todo o teor contido nesse que é considerado uma das mais densas obras dos quadrinhos. Agora conheço. Na verdade, conheço a reprodução do livro para o cinema, já que é certo que muito do conteúdo da obra de Alan Moore acabou não chegando às telas.

Os amantes de Watchmen ficaram aflitos quando foi anunciada a transposição da HQ para o cinema. E não é para menos. Quantas obras que tinham potencial para se tornarem épicas e viraram motivo de chacota? Inúmeras. Mas acharam o cara certo: Zack Snyder, o mesmo de 300. Sim, o diretor maluco que acelera as cenas lentas de lutas, que constrói imagens visualmente irretocáveis, que respeita a obra dos grandes criadores, realizando filmes fiéis as obras originárias. O cara.

Watchmen não é um filme sobre super-heróis. É um filme que usa os super-heróis, da mesma forma que a Graphic Novel, como alegorias para ilustrar o cenário da Guerra Fria — luta bélica e tecnológica entre a extinta URSS e o cada vez mais poderoso EUA — e as consequências por ela deixadas. São pessoas normais, com algumas capacidades (com exceção do Dr. Manhattan, que se transformou numa forma de vida que controla toda a matéria existente) específicas, capazes de ajudar — como ajudaram — a humanidade. Mas como qualquer humano, alguns dos heróis confundiram seu objetivo principal de defender as pessoas, tornando-se verdadeiros déspotas. O próprio povo pediu a aniquilação dos heróis (daí surgiu a famosa frase: “Quem vigia os vigilantes?”) e estes acabaram saindo de cena. Mas precisaram voltar.

Uma série de assassinatos começou a ocorrer. As vítimas eram os heróis aposentados, os vigilantes, e Rorschach (vivido pelo excepcional Jackie Earle Haley) procurou seus antigos parceiros de luta para alertá-los e mobilizá-los a encontrar o tal assassino. Durante esse trajeto, muitas revelações são feitas, culminando na descoberta de um plano mirabolante, que deixa o grupo de heróis em uma encruzilhada sem precedentes. Sim, o futuro do planeta depende novamente do grupo que foi excomungado pelos próprios humanos. Cabe a eles decidir sobre acontecimentos que irão afetar a vida do planeta.

Lembre-se, não se trata de leviandade: estamos no contexto da Guerra Fria, com desastres nucleares em curso, caos instaurado nas sociedades. É válido salvar um mundo em que não se acredita? É válido usar violência para justificar a busca pela paz? Existe ética quando o assunto é paz? Aliás, existe ética em algum lugar? O filme é muito mais intenso do que aparenta ser e provavelmente, aos mais questionadores, será necessária mais de uma sessão para digeri-lo.

Os conflitos humanos estão presentes no filme, entre os heróis, que amam, sofrem, riem e choram como todas as pessoas. E a profundidade psicológica colocada em cada personagem é impressionante e o elenco não se faz de rogado e manda ver. Some-se a isso a plástica visual e os efeitos especiais, e temos uma obra-prima, o que de fato Watchmen é. Acredito que Batman – O Cavaleiro das Trevas é um dos poucos filmes que abandonaram o universo das HQs, se transformando em um trailer de suspense. Watchmen fez o mesmo, com a diferença de já ter nascido nas mãos de Alan Moore como uma obra visionária e perturbadora.

Assistam a esse filme e, ao término, questione-se sobre as questões postas em cheque. É um ótimo exercício, afinal, você sabe dizer quem vigia os vigilantes?

Veja o trailer:[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=E4blSrZvPhU]

Por Leonardo Cassio

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