Fechar Menu [x]
Novos Posts

Centro de Referência do Futebol Brasileiro – Museu do Futebol

Cultura Digital | ENTREVISTAS | Leonardo Cássio | Multicultural | Patrimônio 03/02/15 - 09h Leonardo Cassio

Centro-de-Referencia-do-Futebol-Brasileiro

No dia 5 de janeiro, a Cult Cultura iniciou suas publicações de 2015 com uma entrevista sobre o projeto virtual Estação Educativo, pertencente ao Museu da Língua Portuguesa, aparelho ligado ao Sistema Estadual de Museus (Sisem), da Secretaria de Estado da Cultura.

O Museu do Futebol, aparelho cultural também ligado ao Sisem, possui, igualmente ao Museu da Língua Portuguesa, um projeto virtual de destaque: O Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB).

Com pouco mais de um ano, o CRFB é referência por ser a primeira biblioteca/ midiateca pública sobre o esporte no Brasil e por apresentar uma curva de crescimento respeitável com números robustos que atestam seu sucesso. A seguir, uma entrevista com Daniela Alfonsi, Diretora de Conteúdo do Museu do Futebol, sobre a plataforma virtual:

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] O Museu do Futebol é um dos principais aparelhos culturais do Brasil. Instalado em um bem público, patrimônio histórico e arquitetônico do Brasil, o Estádio do Pacaembu, o museu trata sobre um esporte que é tema hegemônico há mais de um século no país. Quais as principais dificuldades, do ponto de vista curatorial, ao se tratar de um tema tão importante para os brasileiros?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] Aqui no Museu do Futebol, nós brincamos que o nosso tema é um dos principais aliados, mas também nosso maior rival! Isto é, o fato de o futebol ser um assunto muito popular e bastante querido pelo público é uma de nossas principais forças ao pensar e propor um processo curatorial, pois sabemos que aquilo que vamos pesquisar e expor encontrará múltiplos sentidos e significados junto aos visitantes; o futebol é um tema que encontra facilmente a sua repercussão e sua ressonância com o público. Por outro lado, isso faz desse público um especialista, um crítico potencial: nos aponta falhas, imprecisões ou questiona os critérios – o futebol é um tema inesgotável e as escolhas do Museu estarão sempre aquém do saber popular. Isso porque o futebol mobiliza os afetos, as paixões, e sempre haverá o torcedor-visitante que se sentirá injustiçado ou preterido por não encontrar o seu time, jogador ou história preferida no Museu.

Para fugir dessa armadilha, o conceito curatorial gerador do Museu, criado por Leonel Kaz, curador e ex-diretor da instituição, ampliou o campo de atuação: futebol, no Brasil, é mais que um jogo, um esporte. É parte da formação cultural e social do brasileiro no século XX. Visitar o Museu é compreender o porquê disso, é entrar numa experiência narrativa, sensorial que te remete à nossa própria história. Não só à “grande história”, dos eventos políticos e esportivos, mas às histórias cotidianas, a uma micro-história que encontra sentido ao se ligar com a história de vida de cada visitante. As mais de 1.600 fotografias e 5 horas de vídeos que foram selecionados para compor a exposição principal permitem esse acesso. Por isso, o Museu do Futebol é acessível a boleiros e não boleiros, a todas as faixas etárias, brasileiros e estrangeiros.

Assim, as exposições temporárias que fizemos também seguem esse conceito. O interessante é usar o futebol para falar sobre história, cultura, arte. É atrair o público que se interessa por futebol para dialogar sobre outros temas e vice-versa, fazer com que o público que não gosta de futebol compreenda como esse esporte ampliou os seus significados e tornou-se um patrimônio brasileiro.

Claro que há cuidados e sutilezas que aprendemos ao longo desses anos ao se propor uma curadoria sobre o tema do Museu. Seja no uso das cores, para que a mensagem de uma mostra não represente indiretamente qualquer preferência clubística, seja na precisão das informações, acionando, para isso, uma rede de especialistas que colaboram com o Museu. Aprendemos, a partir do futebol e das paixões que ele mobiliza, a fazer da curadoria um processo criativo compartilhado com muitas pessoas e acessível a todos.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] O Museu do Futebol usa intensivamente a tecnologia e a interatividade em suas exposições de longa duração e nas temporárias, tendo, inclusive, uma exposição apenas virtual. A tecnologia é hoje uma ferramenta indispensável na elaboração de políticas e planos museológicos?
Centro-de-Referência-do-Futebol-Brasileiro-por-Monica-Saraiva[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] Sim, e não apenas na área museológica… Se olharmos ao nosso redor, nossas formas diárias de comunicação, trabalho e entretenimento estão cada vez mais mediadas por aparatos tecnológicos. Um museu, por ser uma instituição que se pretende porosa ao seu público e antenada às linguagens contemporâneas, não pode se fechar a esses recursos. O mais importante é saber que a tecnologia nunca será um fim em si mesmo; ela é um dos meios possíveis de traduzir linguagens, produzir novas mensagens e sentidos sobre aquilo que se pretende comunicar em uma exposição a partir de um acervo e de um conteúdo. O Museu do Futebol, assim como o Museu da Língua Portuguesa, equipamentos da Secretaria de Estado da Cultura idealizados em parceria com a Fundação Roberto Marinho, foram pioneiros ao montar suas exposições principais amplamente amparadas em recursos tecnológicos e acervos digitais. Mas essa repercussão desse novo modelo de museu não estaria em pé, até hoje, e com a aprovação e receptividade de público, se o Museu do Futebol e o Museu da Língua Portuguesa não tivessem, por trás de toda “tecnologia”, um conteúdo e uma pesquisa bastante consolidados. Como museus urdidos no século XXI, não poderíamos estar fechados às linguagens contemporâneas, e podemos dizer que as novas tecnologias digitais vieram pra ficar, basta ver os novos equipamentos e as exposições que vêm sendo realizadas nos últimos anos.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] Um dos principais projetos dentro da instituição é Centro de Referência do Futebol Brasileiro, uma plataforma virtual e biblioteca com uma base de dados riquíssima sobre o futebol. Como surgiu a ideia de criá-lo?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] O Centro é um projeto que nasceu junto com o Museu do Futebol, é fruto da escolha curatorial inicial de não abrigar internamente coleções materiais pré-existentes. Sabíamos que a exposição não traria esses artefatos e não queríamos que essa escolha fechasse as portas da instituição para as coleções. Contudo, não dispomos de infraestrutura para, no contexto atual – é possível que isso se transforme no futuro –, coletar a abrigar o que chamamos de acervo material. Qual a saída? Apostamos na ideia de referenciamento: interessa ao Museu mapear as coleções, saber quem as detém, onde elas estão e como é o acesso a elas. Esse foi o norte do projeto do Centro de Referência: formar uma rede de informações sobre o futebol e suas expressões materiais e imateriais. Nesse processo de implantação, abrimos o leque do referenciamento e buscamos não apenas as coleções de objetos, mas o entendimento das práticas, dos saberes, dos personagens.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] Como foi o processo de coleta do material? Havia um acervo disponível? É possível alguém enviar acervo próprio para compor a biblioteca e midiateca?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] Fomos beber na fonte originária dos museus: as expedições etnográficas! Fazendo as devidas mediações, trouxemos a ideia de que era preciso ir a campo e conhecer o futebol de perto, nas suas múltiplas expressões. Para isso, contamos com a base metodológica da etnografia urbana, bastante discutida no Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo (USP), que assinou o convênio para a implantação do CRFB, firmado com a FINEP e em parceria com a POIESIS – organização social de cultura.

Centro-de-Referência-do-Futebol-Brasileiro-por-Aira-BonfimHavia a restrição de não realizar a coleta de objetos, uma vez que não adotamos essa política. Mas era preciso entender quais eram esses objetos – troféus, uniformes, documentos, fotografias e toda a sorte de quinquilharias que vocês podem imaginar – como eles eram guardados, se o acesso a eles era público ou restrito, quem eram seus proprietários, como eles foram agrupados e, sobretudo, os sentidos que lhes eram dados por aqueles que os mantinham. Ao buscar compreender esses processos, vimos que a pesquisa levava aos próprios locais da prática do esporte: os campos, clubes, quadras, e seus “anexos”, fundamentais nas práticas de lazer: os bares, botecos, restaurantes, centros de convivência. Assim, a pesquisa empreendida pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro do Museu do Futebol acabou criando um conceito de referência aplicado ao universo do futebol e traduziu isso ao sistema de banco de dados a partir de quatro eixos: os locais e instituições (clubes profissionais e amadores, campos, estádios, bares, etc); as personalidades (jogadores, profissionais do esporte, torcedores, colecionadores, pesquisadores, jornalistas); os eventos (campeonatos, jogos e outras atividades correlatas) e os acervos, as coleções propriamente ditas. Esses quatro eixos estão intrinsecamente relacionados e suas relações são o grande resultado da pesquisa: os cruzamentos das informações, as recorrências que íamos encontrando ao longo do processo de mapeamento ofereceu uma complexa rede de práticas e acervos sobre futebol, tornada pública por meio do CRFB.

Atualmente, aceitamos doações de livros, periódicos e arquivos digitais audiovisuais. Oferecemos também nossos recursos para digitalizar documentos e fotografias, com a contrapartida de ficar com o Museu, para ser compartilhado publicamente, a reprodução digital.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] Com pouco mais de um ano de existência, o CRFB tem atingido seus objetivos relacionados ao aprimoramento de troca de experiência com diversos agentes, ao aprimoramento de processos de salvaguarda do patrimônio intangível e à democratização e ampliação do acervo?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] É pouco tempo para avaliar tal impacto, uma vez que esses processos podem levar gerações para se consolidarem. Basta pensar que o Brasil só foi abrir um museu inteiramente dedicado ao futebol no início do século XXI… Alguns fatos nos indicam que talvez essa política formada no Museu do Futebol, por meio do seu CRFB, esteja no caminho certo. Por exemplo, há um time de várzea na zona leste de São Paulo, o Negritude Futebol Clube, cuja dirigente, Cristina, compreendeu o sentido de os pesquisadores do Museu do Futebol passarem por ali. A história dela e das pessoas que formaram e mantém, até hoje, o time, eram tão relevantes para o Museu quanto a história de outros times, profissionais ou amadores. Nós oferecíamos uma pequena cartilha com dicas básicas de como conservar os objetos e documentos. Isso despertou em Cristina a gana de procurar por fotos e documentos antigos do clube, criado nos anos 1970 quando da formação das COHABs no bairro de Artur Alvim. Ela levou isso a sério, enquadrou documentos, montou um verdadeiro museu na sede do time. Isso motiva as pessoas a conhecerem e se reconhecerem na história daquele time – que se relaciona às histórias das famílias daquele bairro e com a história da própria cidade. Uma das pesquisadoras do Museu, Aira Bonfim, acompanha os eventos do Negritude há mais de três anos, quando a pesquisa do CRFB começou. Aira é convidada de honra nos eventos e isso é o reconhecimento, para o Museu do Futebol, de que conseguimos acessar, um pouco, esse complexo universo das pessoas que vivem e praticam o futebol.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] De forma paralela e complementar ao CRFB há outros projetos de pesquisa, como o “Territórios do Torcer”, “Modos de Torcer na Copa” e “Futebol da Gente”. Explane um pouco sobre o que são os três projetos e seus resultados.
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] O CRFB é a área, o núcleo do Museu do Futebol responsável por elaborar e executar projetos de pesquisa e documentação. Como o CRFB é um dos pilares do Museu, antes mesmo de viabilizar a sua estrutura de atendimento ao público (biblioteca e o acervo on-line), a equipe desenvolvia os projetos de pesquisa. Em 2014, realizamos os três projetos citados na sua pergunta.

“Territórios do Torcer” é um projeto em parceria com o Centro de Pesquisa e Documentação em História do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, que obteve financiamento da FAPESP. É o segundo projeto que realizamos em parceria com a FGV e aporte da FAPESP. O objetivo é formar um acervo de entrevistas de História Oral, gravadas em vídeo, com torcedores fundadores das torcidas organizadas de São Paulo. A expectativa é criar pelo menos 80 horas de gravações. Durante essas gravações, pedimos aos entrevistados que tragam fotografias e documentos que possamos digitalizar e incorporar ao acervo do CRFB. Outra frente do mesmo projeto é uma pesquisa quantitativa realizada com torcedores, na porta dos estádios, que visa traçar o perfil socioeconômico do torcedor, seus deslocamentos na cidade e formas de adesão às torcidas.

“Futebol da Gente” foi um projeto realizado com recursos de patrocínio ao Museu via Lei Rouanet. O CRFB tem acumulado um rico acervo de entrevistas com jogadores e, com o projeto acima citado, fundadores e líderes de torcidas. Mas nós sempre pensávamos em registrar, para o acervo, histórias do dia-a-dia de pessoas que gostam de futebol, mas que não atuaram, necessariamente, dentro dos gramados. Com isso, surgiu o projeto “Futebol da Gente”: durante 3 sessões temáticas – Mulheres, Torcedores e Infância – os visitantes que passavam pelo Museu eram convidados a gravar suas histórias. Foram mais de 300 participantes. Os produtos iniciais desse acervo são 3 documentários (o primeiro já foi lançado, os outros dois têm previsão de lançamento para fevereiro e março), distribuídos a todos os participantes, além de veiculado na internet (clique aqui para assistir). Os documentários, contudo, são recortes do acervo, que permitirá novos usos, em exposições e ações educativas futuras.

Por fim, o projeto “Modos de Torcer na Copa” acompanhou, durante os jogos do mundial, grupos de torcedores estrangeiros em São Paulo. A ideia foi registrar como o torcedor estrangeiro vive e acompanha um jogo, fora dos estádios. Nós conhecemos muito o modo brasileiro de torcer, com as pinturas nas ruas, bandeirinhas, o churrasco, a camisa amarela. Mas, e os outros? Foi uma pesquisa bastante pontual, mas que rendeu pistas bem interessantes para compreender como outras sociedades se relacionam com o futebol e a Copa do Mundo. Por exemplo: vimos que, entre os colombianos, não há o uso de camisas daquela seleção com o nome de jogadores, como é comum entre nós. As camisas são, digamos, “neutras”. Ao notar esse fato e perguntar aos próprios colombianos, a resposta foi: é primeiro preciso saber quem será o destaque da Copa que vai merecer levar o nome nessa camisa.

Todo esse material produzido, vídeos, fotos, textos, são referenciados no banco de dados do Museu e aberto a consulta pública. Poderá ser usado em ações do próprio Museu, mas o objetivo principal é ampliar e diversificar as fontes de informação e pesquisa sobre futebol, incentivando que haja mais pesquisas, livros, exposições, documentários circulando por aí.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] Uma das questões mais importantes dos planos museais são as ações fora do museu, ações extramuros. O CRFB tem um programa educativo chamado Caravana do Museu do Futebol, que atendeu a região do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Fale um pouco sobre essa ação.
Centro-de-Referência-do-Futebol-Brasileiro-por-Aira-Bonfim-2[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] O CRFB nasceu com o desejo de referenciar acervos e práticas em todo o território brasileiro. Começamos a pesquisa na cidade de São Paulo, por conta dos limites que temos, seja financeiro, seja de pessoal. Assim, em 2014, fizemos um projeto piloto de ação extramuros, também na cidade de São Paulo, para testar nossa capacidade de articular a população em torno da coleta de acervos sobre o esporte. São experimentos: a metodologia do CRFB, a equipe, a recepção do público, tudo isso é muito novo. É preciso experimentar e criar as ações a partir da prática do que dá ou não certo, antes de conseguir ir mais longe.

A “Caravana”, realizada dentro de um evento maior chamado “Estéticas das Periferias”, organizado pela ONG Ação Educativa, teve um duplo percurso: levar interessados que moram no centro da capital a conhecerem o futebol de várzea praticado em um bairro da periferia na zona sul (Capão Redondo) – para isso um ônibus foi disponibilizado para o trajeto de ida e volta – e, lá no Capão, as pessoas poderiam conhecer um pouco das atividades educativas e de pesquisa do Museu. Por isso, nossos educadores e pesquisadores passaram o dia no bairro, contando histórias sobre futebol, mostrando parte do acervo do Museu e solicitando aos interessados que levassem à nossa equipe suas fotos e arquivos pessoais sobre o esporte.

A ação foi muito positiva, mas avaliamos que o trabalho de coleta e digitalização de acervos, por exemplo, deve proceder de outros modos. Esperamos avançar nesse quesito a partir de 2015.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] Há outras ações extramuros em curso?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] Em 2015, esperamos repetir a “Caravana”, em parceria com o evento “Estéticas das Periferias”, mas estamos reavaliando o formato de modo a atrair mais gente e trabalhar melhor a pesquisa por acervos.

Outra novidade é a exposição itinerante do Museu do Futebol, “Tour Paulista”, programado para levar o Museu e o seu Centro de Referência a algumas cidades do interior de São Paulo. Iniciaremos a produção ainda nesse primeiro semestre, mas o projeto ainda necessita de mais aportes de patrocínio para ser viabilizado por completo.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] Em http://dados.museudofutebol.org.br/2d está disponível uma verdadeira enciclopédia sobre o futebol, com informações atuais e históricas sobre instituições, personalidades e eventos. Como foi o processo de concepção desta plataforma e os principais desafios?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] O banco de dados é uma peça fundamental para o conceito do CRFB. É por meio dele que as pessoas têm acesso a toda a pesquisa que realizamos. Por isso, o banco deveria ser capaz de traduzir a complexidade do projeto e cruzar referências materiais, imateriais, que fossem do Museu ou de outras instituições. Optamos por trabalhar com um software existente no mercado – o Sistemas Integrados da Base7 – e adaptá-lo ao que gostaríamos de ter no projeto. O processo levou 3 anos, os desenvolvedores apostaram muito na nossa ideia e tornaram possível muitas adaptações que pedíamos. O trabalho pode ser, grosso modo, dividido em duas etapas. A primeira foi a construção da interface administrativa, de trabalho de catalogação. Para esta, nós ousamos incluir, no mesmo sistema, a catalogação de tipologias de acervos que geralmente encontram-se organizados sob sistemas diferentes nos demais museus e arquivos. Ou seja, livros, periódicos, iconografia e o acervo “imaterial” estão reunidos em um único sistema, que teve de se adaptar a especificidades de cada natureza de objeto, mas manteve concentradas as informações comuns.

A segunda etapa foi de desenvolver a interface de pesquisa pública. Esta deveria ser atraente não apenas aos pesquisadores habituées em bancos de dados, mas ao público geral, amante do futebol. Também deveria representar que o acervo de referências ali publicado seria infinito. Daí surgiu a plataforma em 3D, com 3 túneis, cada um representando um dos eixos da pesquisa: pessoas, instituições e eventos. Ao puxar uma referência, imediatamente aponta na tela outras referências relacionadas. É uma maneira de indicar à pessoa que busca uma informação, que há assuntos relacionados que valem a pena conhecer na pesquisa.

E, para aqueles que procuram uma forma de pesquisa mais tradicional, há a plataforma 2D, cujo link você indicou na pergunta. É o mesmo conteúdo, a diferença é que a interface em 2D apresenta a possibilidade de busca direta por um item do acervo, além dos outros 3 eixos acima mencionados.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] O Museu do Futebol tem como missão preservar e difundir o patrimônio material e imaterial do esporte que é um fenômeno social e expressão cultural do Brasil. Há alguma instituição similar no mundo que serviu de modelo ou inspiração para o MF e o CRFB?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] O Museu do Futebol certamente foi único no mundo e hoje é citado amplamente quando da reformulação e construção de outros museus, sejam eles esportivos ou não. Quando o Museu foi inaugurado, em 2008, já havia na cidade de São Paulo exemplos dos memoriais de clubes (São Paulo e Corinthians), além dos memoriais de clubes em Buenos Aires, Barcelona e Madrid. Mas ainda não havia um museu que tratasse o futebol como um fenômeno complexo, parte da história nacional. Há museus “nacionais” do futebol nos países do Reino Unido, mas nosso museu aqui de São Paulo nasceu causando grande impacto.

Ao fazermos o projeto para o CRFB, sabíamos que seria também único no Brasil, não pela proposta em si, mas pela carência de locais e fontes de pesquisa sobre o futebol no Brasil. Acreditamos, ao pensar em um projeto como o CRFB, que a abertura e o diálogo com experiências diversas são mais importantes do que chamar para si um exclusivismo, que pode nos gerar muita miopia… Assim, quando formávamos a equipe de pesquisadores, catalogadores, estagiários, quando escrevíamos os roteiros, procedimentos, metodologia, buscamos exemplos de muitas instituições e projetos que tinham o foco no registro e tratamento do patrimônio intangível, no oferecimento de plataformas digitais e outros assuntos correlatos. O CRFB não teria esse conceito se não fossem os avanços dos pesquisadores brasileiros na área do registro do patrimônio imaterial no Brasil. No início do projeto fizemos muitas visitas técnicas para entender os processos de outros museus e arquivos, bibliotecas.

Então, respondendo à sua questão, sim, inovamos, pois somos os primeiros a tratar o futebol como um foco de pesquisa de referências patrimoniais. Mas isso só ocorreu por conta do diálogo e das parcerias com aqueles que nos apoiaram e incentivaram, como a Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo.

[Cult Cultura | Leonardo Cássio] O que esperar do MF e do CRFB em 2015? Há algum novo projeto, informação ou curiosidade que queira divulgar?
[Museu do Futebol | Daniela Alfonsi] 2015 será um ano muito importante para o Museu. Passada a Copa no Brasil, é o ano de inovarmos. Por isso, além da exposição itinerante pelo interior de São Paulo acima citada, iniciaremos uma campanha pela visibilidade do futebol feminino.

O tema é uma lacuna de nossa exposição, muito criticada pelo público. Por isso, preparamos, para o mês de maio, uma exposição diferente. É uma mostra dentro da exposição de longa duração do Museu. Ocuparemos algumas salas e faremos intervenções que vão retratar a participação das mulheres no nosso futebol, desde os primórdios do século XX. O objetivo é mostrar ao público que o futebol feminino é muito praticado, mas nada conhecido. Ou melhor, nada noticiado. A ausência de cobertura, no Brasil, dos eventos mundiais, campeonatos de clubes e fatos sobre a participação das mulheres nesse esporte é chocante. Acreditamos que o Museu pode ter um papel importante de trazer mais visibilidade para essa história e, quem sabe, ajudar a mudar o seu rumo.

Não faremos apenas a exposição, mas ações integradas: um ciclo de debates mensais, que terão início em março de 2015; ações educativas e jogos para os visitantes do Museu; um folder para quem quiser revisitar o Museu com esse novo acervo; campanhas para digitalização de acervos; entrevistas com ex-jogadoras e outras ações que vocês poderão acompanhar logo mais no site e no CRFB.

Tags: , , , , , ,

COMPARTILHE ESTE POST

COMPARTILHE

COMPARTILHE

Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

RELACIONADOS