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E Se As Cidades Fossem Grandes Museus?

*Destaque-Home | Cultura Digital | LUGARCULT | Patrimônio | Urbanidade 17/07/17 - 10h Leonardo Cassio

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Um dos principais desafios de uma metrópole é conseguir apresentar aos turistas tudo o que tem a oferecer e, ao mesmo tempo, criar uma relação de pertencimento e valoração entre o patrimônio e os habitantes. Pense no seguinte, caso seja morador de uma grande metrópole: você já foi aos principais museus, espaços de shows, parques e outros lugares dedicados à natureza ou em qualquer local considerado ponto turístico? É algo muito comum os habitantes de certas cidades conhecerem muito menos os principais locais dedicados ao turismo e à cultura do que, por exemplo, um parente que vem uma vez por ano visitá-los. Mais do que isso: para muitas pessoas há um falso senso de pertencimento entre ela e o local onde habita, local este que serve, em muitos casos, apenas como lugar de trabalho, dormitório e para diversão “segregada”, que ocorre em shoppings, cinemas, condomínios e bares, onde o público é, digamos, pré-selecionado.

E dá uma alegria danada quando uma possível solução para minimizar os problemas citados, com ações de placemaking (veja vídeo sobre placemaking aqui), economia criativa(assista aqui) e cultura digital (assista aqui) vêm de um município pequeno. O projeto “Caminhos da Memória – A Cidade Como Museu / O Sujeito Como Patrimônio”, do Museu da Mantiqueira, é um dos mais belos cases de valoração de uma cidade, focando justamente no que há de melhor nela: seus habitantes.

O Museu da Mantiqueira (MuMan) é um espaço virtual que entende a cidade como um museu a céu aberto. Tem como objetivo estudar o mantiqueirense, seus modos de ser e estar na Serra da Mantiqueira, seu patrimônio cultural. A Serra da Mantiqueira é um espaço geológico que se estende por Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo e um dos municípios pertencentes a ela é São Bento do Sapucaí/ SP, onde fica a sede administrativa do MuMan, que realiza uma série de ações e projetos criativos.

O audioguia “Caminho da Memória – A Cidade Como Museu / O Sujeito Como Patrimônio” coloca a cidade de São Bento do Sapucaí como um museu a céu aberto. Baixando um app em seu celular ou outro dispositivo eletrônico, você é conduzido por um passeio a diversos pontos a partir da praça central General Marcondes Salgado. 18 áudios compõem o roteiro, que apresenta pontos históricos, como a casa onde nasceu Plínio Salgado, político integralista, espaços de convivência, como a Sorveteria Frutas ao Mel, que tem sorvetes orgânicos com sabores exóticos, e lugares culturais e artísticos, como o Blues Bar.

O principal mérito do roteiro é apresentar, de forma igualitária, lugares distintos, como a Fonte da Igreja Matriz e um bar, o do Promessa, que há anos tem uma receita passada de pai para filho. Os áudios são bem roteirizados e explicativos e encorajam as pessoas a conhecer os pormenores de cada lugar, sendo que durante o trajeto há pontuações sobre outras curiosidades, além da descrição dos 18 locais selecionados. O mais divertido é o encorajamento dado aos ouvintes para falar com as pessoas da cidade, sendo que 25 delas prestaram depoimentos de histórias orais para compor o projeto (clique aqui para ler sobre todas, ressaltando que há uma chance de alguém ter falecido).

A ação de incentivar os turistas a conversar com os habitantes de São Bento e de pegar depoimentos de figuras interessantes da cidade, que tem uma história rica, reforça os laços de pertencimento histórico-cultural dos munícipes com o lugar. O projeto, de uma maneira eficiente, valoriza ao mesmo tempo o patrimônio natural, histórico e imaterial, focando nas pessoas, os principais agentes de uma cidade. Pense na lógica de uma grande cidade e perceba como a relação entre as pessoas e a relação entre as pessoas e as cidades está quase extinta.

O projeto foi concebido durante os anos de 2014 e 2016 em 5 etapas: diagnóstico, quando houve o levantamento dos patrimônios; a realização de um evento, o Mantiqueira Cultural, que promoveu integração de diversos agentes interessantes ao projeto; a pesquisa do acervo, dividida entre a parte documental e das entrevistas orais e gravação dos depoimentos; a ampliação do Programa Mantiqueira Viva, também do MuMan, que cruza ações de cultura digital, economia criativa e de preservação do patrimônio material e imaterial e, por fim, ações socioeducativas que refletem a educação patrimonial contida no Audioguia. Vale frisar que o projeto em si é uma ação de acessibilidade para pessoas com deficiência visual.

Além do app, há o site do projeto, em que você pode acessar o roteiro, ver dos minidocumentários resultantes do levantamento de informações, sendo um sobre brincadeiras e outro sobre romaria; duas exposições virtuais e informações gerais sobre o MuMan. O museu tem perfis no Facebook, Youtube, Instagram e Soundcloud, em que ficam os roteiros dos Caminhos da Memória.

É um projeto modelo e fico imaginando ele aplicado em cidades grandes, com os devidos cuidados. Os roteiros de São Paulo (clique aqui para conhecer) ficariam incríveis, por exemplo. Acesse o site para tomar contato com esse excelente projeto, que concorreu a um prêmio internacional e, quando for à São Bento do Sapucaí, não se esqueça de usá-lo!

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