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O crowdfunding como uma saída viável e visionária para a cultura

Artes e Espetáculos | Cultura Digital | Kiko Rieser 15/08/13 - 07h Kiko Rieser

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É fato que a cultura brasileira está cada vez mais privatizada em sua gestão, embora quase sempre financiada por recursos públicos. O ator Carlos Canhameiro, da Cia Les Commediens Tropicales, evidenciou em uma publicação uma comparação de números assustadora: o musical “O rei leão” captou, através da Lei Rouanet (que permite renúncia fiscal de 100% do valor investido pelas empresas), 11,7 milhões de reais (dos R$ 14.626.511,79 aprovados pela lei), enquanto o orçamento deste ano do Prêmio Myriam Muniz de Teatro, único edital federal especializado na área, dispõe de 9,9 milhões para abarcar as 5 regiões brasileiras, tanto em montagens de peças inéditas quanto em circulações de espetáculos.

Dentro desse descompasso, os editais são disputadíssimos, chegando a ter mais “candidatos” por vaga do que vestibular para medicina da USP. Quem não é contemplado muitas vezes fica à mingua, se não corresponde às políticas de patrocínio das empresas, quase sempre muito similares e conhecidas, quando se trata de teatro: peças que tenham atores famosos em suas fichas técnicas, sejam do gênero comédia e não tratem de temas polêmicos.

A peça “Tem alguém que nos odeia”, de Michelle Ferreira, produzida por Ana Paula Grande e Bruna Anauate (também atrizes do espetáculo), vai exatamente na contramão desses requisitos. O drama representado por atrizes desconhecidas pelo grande público fala de um casal homossexual (o maior tabu de todos quando se trata de patrocínio) feminino que passa a sofrer ameaças anônimas quando se muda para um novo prédio. As produtoras aprovaram o projeto em leis de incentivo, mas não conseguiram recursos, bem como não foram contempladas com nenhum prêmio público. Pensaram, então, no Sesc, instituição que costuma apoiar as mais diversas vertentes artísticas, apostando sempre na inovação e na pesquisa. Dispondo do texto de Michelle, que obteve segundo lugar no importante Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia, a aposta era promissora. No entanto, os programadores queriam ver trechos do espetáculo já ensaiados e elas não quiseram se arriscar a começar o processo de montagem e investir dinheiro para, talvez, naufragar em seu intento. A solução encontrada por Ana Paula e Bruna foi o crowdfunding, sistema de financiamento coletivo bastante conhecido em muitos países (especialmente na Europa e nos EUA) e que vem ganhando força no Brasil nos últimos anos.

temalguem2Os sites mais famosos da área são o Catarse e o Vakinha e, ao pesquisá-los, as produtoras escolheram o primeiro, segundo elas, pelo fato de ter mais credibilidade, já que possui uma curadoria que filtra apenas projetos culturais ou sociais. No Vakinha, pelo contrário, é possível buscar o financiamento de qualquer bem, material ou imaterial, desde uma peça de teatro até uma TV de LED. O site escolhido traz mais credibilidade, mas também mais rigor e responsabilidades. Se o valor estipulado não for alcançado dentro do prazo, as doações voltam para quem as fez e o projeto é cancelado. Por isso, a assessoria do Catarse – bastante atenciosa e preparada, segundo as duas atrizes – instrui os produtores a fazer um orçamento e solicitar realmente o mínimo necessário para a boa realização da obra. Também não é recomendável pedir menos, pois a empresa afirma que a média de captação é de 110% dos valores solicitados. Bruna ratifica esse dado, dizendo que logo depois de atingida a cifra pedida, as doações praticamente cessaram. A lógica dos doadores, portanto, é dar exatamente aquilo de que cada proposta precisa para sair do papel. Também é passada pelo site a estatística de que a maioria dos casos que atingem 30% até a penúltima semana obtêm sucesso, pois grande parte dos apoiadores só doa nos últimos dias. Além disso, muitas pessoas passam a só acreditar no projeto depois que veem que houve doações significativas. Esta lógica é velha conhecida de quem faz teatro. Há espectadores que não conseguem admitir a possibilidade de uma peça ser boa mesmo que esteja com poucos espectadores na plateia. Alguns chegam a duvidar da qualidade de trabalhos que cobram um preço barato no ingresso, como se isso definisse a qualidade do que é apresentado.

Quando Ana Paula e Bruna apresentaram ao Catarse seu orçamento, de R$ 25.000,00, receberam uma resposta cautelosa, orientando a diminuir esse valor, já que as peças que trabalham com o site costumam obter de 5 a 8 mil reais. Elas, no entanto, insistiram que esse era o dinheiro necessário. Receberam todo o apoio da empresa e uma recomendação: “a partir de agora, vocês não vão poder descansar nenhum dia, pois o trabalho para atingir essa grana vai ter que ser intenso.” Elas não se intimidaram e foram à luta. O resultado esperado veio cedo, 10 dias antes de acabar o prazo. Foi tão recompensador, que, em conversa com a assessoria do site, as produtoras decidiram solicitar mais R$ 9.352,00 para estender a temporada para três meses, um mês além do previsto. Não atingiram tudo, mas, com novos esforços (diante da diminuição brusca quando a primeira vitória se deu) e agora com a exigência do valor mínimo já cumprida, conseguiram mais R$ 4.800,00, tornando-se um dos projetos de teatro mais bem sucedidos da plataforma, arrecadando R$ 29.800,00.

No Brasil, infelizmente, o crowdfunding, por estar no início de sua difusão, ainda fica muito refém de amigos e parentes da equipe que encabeça o projeto. No caso de “Tem alguém que nos odeia”, no entanto, os compartilhamentos feitos por esses primeiros apoiadores acabaram rendendo novos parceiros. Amigos de amigos ou de parentes entraram em contato com o projeto, acreditaram e investiram nele. Para estimular a divulgação, as produtoras, que são publicitárias de formação, criaram diversas campanhas de humor. Utilizaram alguns dos memes mais famosos da internet, criando paródias como “Keep calm and faz uma doação pro Tem alguém que nos odeia” ou dando novas falas para aqueles quadrinhos famosos que sempre começam com “O que queremos?”. Na versão delas, a resposta era “Montar uma peça de teatro”, continuando com “E como queremos?”, “Com uma doação no catarse.me!” Esse tipo de abordagem, segundo as duas, tinha muito mais resultado (medido pela quantidade de compartilhamentos e opções “curtir” do Facebook) do que campanhas sérias como “Em 2012, muitas pessoas morreram no Brasil vítimas de crimes de homofobia”.

Outra tática fundamental, para elas, era a forma de abordar diretamente os potenciais apoiadores. Nada de marcar fotos no Facebook ou convidar para eventos. Elas, junto ao diretor José Roberto Jardim, escreveram mais de 600 e-mails personalizados, exaltando a relação entre eles e o possível doador e mostrando o quanto essa pessoa era importante para o projeto. Eles também afirmam ser fundamental a qualidade das contrapartidas apresentadas (há um escalonamento das doações e contrapartidas detalhadas para cada valor – as deste projeto você pode encontrar em http://catarse.me/pt/temalguem). Segundo Bruna, é importante ser parcimonioso na valorização do próprio projeto, sem atingir os extremos da arrogância de colocar seu trabalho acima de qualquer coisa ou de implorar ajuda. A vergonha de pedir esse tipo de financiamento, inclusive, é para José Roberto a primeira barreira a ser rompida por quem deseja tentar o crowdfunding.

O sucesso desta empreitada não apenas enche de orgulho seus realizadores, como os faz crer que este seja o futuro do financiamento artístico. Uma volta aos mecenas que financiavam os artistas assim que o mercantilismo se consolidou, mas agora um mecenas coletivo, formado por múltiplas pessoas crentes no poder de transformação da cultura. Para as atrizes e o diretor, uma grande sensação de liberdade e independência.

Saiba mais sobre crowdfunding nas matérias: Vaquinha on-line, Crowdfunding une gerações em projeto promovido no Catarse, Crowdfunding no Brasil (vídeo), A grana do vizinho é mais verde

Tem Alguém que nos Odeia
Até 3 de outubro de 2013
Quartas e Quintas, às 21h
R$ 30,00 (Inteira) e R$ 15,00 (Meia-Entrada) – Mediante apresentação de comprovante

Teatro Augusta
Rua Augusta, 943 – Cerqueira César. São Paulo – SP
Sala Experimental: 35 Lugares

Ficha Técnica
Texto: Michelle Ferreira.
Direção: José Roberto Jardim.
Elenco: Ana Paula Grande e Bruna Anauate.
Iluminação: José Roberto Jardim.
Figurino: Bruna Anauate.
Cenário: Ana Paula Grande, Bruna Anauate e José Roberto Jardim.
Assessoria de Imprensa: Douglas Picchetti.
Produção: Le Cucá Produções.
Assistência de Produção e Contra-Regragem: Edson Cacimiro.
Gênero: Drama.
Duração: 90 Minutos.
Classificação: 14 anos.

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Kiko Rieser

Kiko Rieser

Diretor teatral e dramaturgo por paixão, tesão, obsessão. Produtor por falta de opção. Amante das rimas em "ão" e dos bares com ladrilhos verdes e garçons com gravata borboleta, onde ainda pode-se escrever um poema no guardanapo ou na bolacha do chopp. Um cara à moda antiga, com amor pelo futuro. Anacrônico a todos os tempos, contemporâneo de si e só, no desejo de se fundir à massa em solidão compartilhada.

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