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A Liberdade Criativa de Manuel Bandeira em Libertinagem

CultIndica | Leonardo Cássio | Literatura 15/04/16 - 10h Leonardo Cassio

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Livros de poemas não são fáceis de ler. É necessária, geralmente, uma pesquisa mínima sobre a vida, as influências e a obra já realizada de cada poeta para adentrar de forma mais consistente em um livro.

A primeira obra que li de Manuel Bandeira foi Libertinagem (1930), que reúne 38 poemas escritos entre os anos de 1924 e 1930. O nome é uma alusão à quebra de estilo de composição das métricas pré-determinadas na elaboração de poemas, que a Semana de 1922, com o Modernismo, buscavam romper.

Libertinagem é um livro tido como pilar da renovação da produção artística, por quebrar com padrões artísticos considerados ultrapassados. Bandeira apresenta vários elementos da brasilidade, compondo poemas como “Belém do Pará”, “Evocação do Recife”, “Mangue”, “Lenda Brasileira”, “Cunhatã”, entre outros. O conteúdo é muito pessoal e biográfico, como é o caso do interessante “Pneumotórax“, que fala de forma clara sobre a tuberculose, doença que o afetou ainda novo e que na época em que viveu era quase uma sentença de morte:

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.
…………………………………………………………………………………………….
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Além de “Pneumotórax”, faz parte do livro o famoso “Vou-Me Embora Pra Pasárgada“, que figura em algumas listas como um dos melhores poemas brasileiros já feitos, e mostra um ser capaz de fazer tudo aquilo que Bandeira não podia devido à doença.

Apesar de “Vou-Me Embora Pra Pasárgada” ser um marco, o poema que considero mais interessante deste livro é “Poética“, um manifesto à produção poética criativa independente de métricas.

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expe-
[diente protocolo e manifestação de apreço
[ao Sr. Diretor (…)

Prossegue em outro trecho:

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante (…)

Finaliza:

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Libertinagem é uma obra interessante artisticamente e historicamente. Quem está acostumado com sonetos e seus decassílabos vai estranhar um pouco, mas a graça é o rompimento mesmo, que é a ideia do livro. Leitura rápida, agradável, apesar de não ser fácil, que traz boas reflexões e importante para quem gosta de bons livros.

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