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O Que A Patafísica Tem A Ver Com O Internetês?

Literatura 10/09/18 - 07h Cult Cultura

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Estamos na era em que mais se lê e escreve no mundo. Milhões de mensagens de texto são trocadas em aplicativos sociais, bem como a criação dos famosos “textões” tem se acalorado em tempos de debates virtuais incansáveis. Entretanto, muito se questiona sobre a qualidade destas leituras e escritas. A primeira crítica que surge é a falta de correção ortográfica. A segunda é a falta de interpretação de texto por parte dos leitores. Não são raros os casos em que o leitor faz perguntas sobre informações que estão claramente expostas no texto. Um post como “Promoção hoje às 13h na Rua Perdizes, tudo a R$ 4,99” recebe os comentários “Onde posso encontrar?”, “Que horas você abre?”, “Quanto custa?”.

Sobre a primeira crítica, quanto à ortografia correta, um debate se faz pertinente. Considerando que toda língua é um organismo vivo, e que ela deve sofrer mutações para suportar e acompanhar seu uso coloquial, sempre haverá críticas das gerações anteriores à forma utilizada pelas gerações mais novas. A defesa é a oxigenação da língua. Das mesmas críticas foram acusados modernistas como Mario de Andrade na Semana de Arte Moderna de 1922, por renomes cultos da época como Monteiro Lobato. O debate é acalorado, e sempre será. Em estudo sobre o texto na internet, Luana Inocêncio escreve para a ABCiber:

Marcada por rupturas linguísticas do cotidiano e da escrita formal, a comunicação no ciberespaço sempre apareceu como agente articulador da diferenciação e segregação nas comunidades que nele se organizam. Desde os anos 1980, nasce entre hackers e jogadores em fóruns especializados o L33t, linguagem que intercalava números, letras e outros sinais gráficos. Para evitar que as discussões fossem localizadas por ferramentas de busca, algumas letras eram substituídas por números com forma semelhante, como o 4 no lugar do A, o 3 no lugar do E, dentre outras reconhecidas por seus usuários, garantindo-lhe uma identidade de grupo.

Já a partir do ano 2000, surge no Brasil o chamado internetês, linguagem caracterizada pela abreviação de palavras e expressões com o objetivo de tornar a comunicação mais rápida e fácil nas conversas em chats, a exemplo do uso de “vc” em vez de você e de “pq” no lugar de porque. Entre outros linguajares, grafismos e dialetos, essas línguas construídas encontram na cibercultura o suporte perfeito para sua disseminação, misturando-se a outras várias formas de se comunicar.

Um desses novos “idiomas” é o tiopês, cuja lógica é escrever propositalmente errado e que tem sua origem ambientada na rede social Orkut em meados de 2006, quando um grupo de usuários passou a satirizar o modo equivocado e disléxico de escrever de um internauta principiante, imitando seus erros gramaticais. Inicialmente como uma piada interna compreendida só pelos indivíduos replicadores, essa nova gramática da internet logo se popularizou em algumas comunidades escritas nesse estilo.

Constituindo a base da maioria das gírias “escritas errado” que permeiam o ciberespaço, a exemplo de “comofas”, “brinks” e “galere”, essas manifestações parecem seguir a lógica de Deleuze (1998, p.4), ao propor “criemos palavras extraordinárias, com a condição de usá-las da maneira mais ordinária, e de fazer existir a entidade que elas designam do mesmo modo que o objeto mais comum”. O próprio nome “tiopês” vem da palavra “tipo”, escrita errada: “tiop”.

Considerada uma linguagem caricatural, tosca e bem-humorada, pode-se observar o tiopês como uma crítica ao analfabetismo funcional brasileiro, que é um dos maiores do mundo. Baseando-se na incorreção recorrente na escrita de muitos usuários da rede, essas simulações de erros de digitação, de ortografia e de construção nas frases tornam-se bordões replicáveis. Misturados, por vezes, a regionalismos ou expressões de grupos muito restritos de amigos, acabam se alastrando e sendo incorporadas às outras existentes nos fóruns de discussão.

Compreendemos aqui o meme como o cotidiano reinventado pelo humor, muitas vezes nonsense – característica marcante dos memes em geral – impregnado em sua retórica e estética. Já que tal fenômeno não tem identidade clara, traçamos como hipótese inicial a identificação da cultura participativa como retórica estética que desencadeia e propicia a produção de linguagens específicas na web relacionadas ao meme. A cultura participativa encontrou terreno fértil no ciberespaço, em especial na web 2.0. Essa participação caracteriza-se, como pontua Shirky (2011), por cidadãos conectados em círculos colaborativos que promovem o compartilhamento de ideias e projetos, a serem realizados com o coletivo. Nesse ambiente efervescente, os grupos reunidos percebem que querem mudar a maneira como se desenrolam os diálogos públicos e descobrem que possuem meios de fazê-lo.” 1

Ao analisarmos este debate quanto à correção ortográfica* e as novas formas que a língua adquire sob essa mutação de característica colaborativa e participativa na internet, é possível concluir que se inicia a criação de uma nova estética da língua, marcada por regras que tendem a romper e contradizer as normas de então. Essa nova estética do texto segue o que se pode chamar da estética da internet como um todo.

A grande relevância desta produção textual e demais produções na internet é o rompimento do esquema clássico da comunicação, onde existiam agentes claros e bem definidos, e apenas uma direção da comunicação: Emissor, meio, receptor. No ambiente da internet, os papeis de emissor e receptor estão sendo constantemente alterados, e a ordem da mensagem pode seguir diversas direções.

O resultado desta nova característica da comunicação é o efeito colaborativo e participativo da internet, sem nenhum tipo de crivo anterior à sua publicação. Esta constatação gera a estética da internet, produzida por todos, sem distinção de suas capacidades artísticas, estéticas, críticas, literárias ou técnicas de manipulação de softwares e, portanto, sem nenhum tipo de crivo prévio à sua publicação. A esta nova estética caótica, pode-se dar o nome de “Internet Ugly”.

Este mesmo Internet Ugly pode ser considerado um dos responsáveis também pela segunda grande crítica do conteúdo produzido na internet, a total falta de interpretação de texto. A quantidade de informação e o caos no qual ela está inserida tornam a interpretação ainda mais complexa. O Internet Ugly é debatido por Nick Douglas, na publicação Journal of Visual Culture:

The internet has long-term aesthetic trends, one of which is Internet Ugly, a previously unnamed style that runs through many separate pieces of online culture, but especially through memetic content. Internet Ugly can be created by amateurs without specific aesthetic intention, or by creators choosing it intentionally as a dialect. It spreads on the internet thanks to the medium’s unique bottomup collaborative architecture. Many memes (and many specific creators’ bodies of work) begin in Internet Ugly but evolve away from it. Long abandoned forms of Internet Ugly can reappear on new platforms or from referential creators. Internet Ugly embodies core values of many online creators and communities; therefore, understanding this aesthetic is crucial to any study of online culture.” 2

Livre tradução: [A internet tem tendências estéticas de longo prazo, uma das quais é o Internet Ugly, um estilo não identificado previamente, que percorre muitas peças separadas da cultura online, mas especialmente através de memes. O Internet Ugly pode ser criado por amadores sem intenção estética específica, ou por criadores que o escolham intencionalmente como um dialeto. Ele se espalha na internet graças à arquitetura colaborativa exclusiva do meio. Muitos memes (e muitos criadores de corpos de trabalho específicos) começam no Internet Ugly, mas se desenvolvem longe dele. Formas de Internet Ugly abandonadas há muito tempo podem reaparecer em novas plataformas ou por creators de referência. O Internet Ugly incorpora os principais valores de muitos creators e comunidades on-line; Portanto, entender essa estética é crucial para qualquer estudo da cultura online.]

A essa estética caótica do Internet Ugly aplicada ao texto, e seus novos dialetos que têm surgido, misturados, e remixados desde então, é o que chamo de contra-literatura moderna. Um fenômeno artístico colaborativo, sem que seus agentes tenham consciência de que são parte desta nova estética. Uma clara expressão da patafísica absurda e contraditória. A ciência das soluções imaginárias em sua mais bela e real definição. (Saiba mais sobre patafísica aqui).

Fontes:
1 – http://www.abciber.org.br/simposio2013/anais/pdf/Eixo_5_Entretenimento_Digital/26062arq08672042492.pdf
2 – http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/1470412914544516

*[Nota da Editora]: No canal do Youtube da Cult Cultura tem um vídeo sobre Preconceito Linguístico. Dá uma olhada aqui>>> 

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Por Guilherme Trucco, patafísico, fundador da Escola de Patafísica Aplicada, autor do livro “Cavalos selvagens não existem mais” e marceneiro nas horas vagas.

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