Fechar Menu [x]

Abril Despedaçado

Literatura 27/10/10 - 02h Cult Cultura

A história humana é coberta por sangue. Desde os tempos mais remotos as guerras e conflitos fazem parte das relações humanas. Infelizmente.

No entanto, em alguns casos bem específicos, há certas disputas que desafiam a ética humana e qualquer compreensão sobre os motivos reais de tais conflitos. Assim é o Kanun Albanês. Um amontoado de códigos de leis orais, transmitidas de geração em geração em uma região montanhesa do país, que tratam a vida e a morte como mercadorias perecíveis, cultuando a honra como princípio maior na Terra.

O Kanun é uma prática paralela ao poder oficial, um rito, no qual o Estado não possui autoridade e força para vencê-lo. O princípio da honra culmina em vinganças (vendetas) entre as famílias das aldeias montanhesas, no qual cada uma precisa recuperar o sangue de um ente assassinado, culminando em trágicos ciclos de crimes.

É nesse cenário pantanoso que o albanês Ismail Kadaré pisa para escrever sua obra máxima: Abril Despedaçado. A narrativa se passa na década de 30 do século passado. Um casal em lua de mel resolver ir para as longínquas terras montanhesas do norte albanês, exatamente onde ocorre às vendetas.

Neste período, um jovem rapaz, Gjorg Berisha, acabara de vingar a morte de seu irmão e deveria pagar soldo pelo assassinato e, em seguida, se preparar para a represália dos Kryeqyq, família da qual a sua é rival. Toda a angústia deste caminho e a certeza da vingança que Gjorg sofreria são tecidas de forma magistral por Kadaré. A tortura que uma obrigação imposta por um rito pode causar em um jovem de bem são os caminhos necessários para o escritor tecer um retrato psicológico e social dessa Albânia à margem da lei.

O impacto que tal costume causa no casal é outro ponto culminante do livro. A mensagem, resumidamente, é que pessoa alguma tendo contato com o Kanun poderá sair ilesa. Não há meios para isso.

O livro de Kadaré ficou conhecido aqui no Brasil pelo filme homônimo de Walter Salles, que foi adaptado as realidades do Nordeste brasileiro e se tornou uma das produções nacionais mais premiadas internacionalmente. O filme, assim como o livro, é quase um retrato antropológico de pequenas sociedades que vivem com leis próprias.

Para quem gosta de livros sobre a alma humana, sobre culturas e costumes distantes de sua vivência, o drama é indicadíssimo. Para quem quer ler algo apenas por distração, é melhor ir por outros caminhos (Harry Potter, por exemplo!). E os leitores deste livro devem ter algo em mente: por mais que uma situação é considerada ruim, há sempre uma pior.

Por Leonardo Cássio

Tags: , , , ,

COMPARTILHE ESTE POST

COMPARTILHE

COMPARTILHE

Cult Cultura

Cult Cultura

Plataforma digital de cultura e economia criativa.

RELACIONADOS