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Caco Barcellos Muda Nossa Visão Sobre o Ser Humano em “Abusado – O Dono do Morro Dona Marta”

Leonardo Cássio | Literatura 21/04/15 - 09h Leonardo Cassio

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Caco Barcellos é, hoje, um dos grandes jornalistas brasileiros que se consagrou como escritor. Em seu caso, pela habilidade de conduzir reportagens investigativas complexas, principalmente relacionadas ao tráfico, aos grupos de extermínio e à violência em áreas à margem da sociedade.

Em “Abusado — O Dono do Morro Dona Marta” (Ed. Record), Barcellos conta a história de um dos personagens mais emblemáticos do tráfico carioca, o traficante Marcinho VP, que tomou conta de uma das maiores favelas do mundo, o Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. De tão intensa a obra (terceira do jornalista), Barcellos foi agraciado com o Prêmio Jabuti (2004), honraria máxima para um escritor no Brasil.

O livro é um misto de ficção com fatos reais e causou polêmica desde sua publicação, afinal, o protagonista do enredo foi assassinado no presídio de segurança máxima Bangu III, cerca de dois meses após o lançamento da obra.

Foram mais de quatro anos de entrevistas, levantamentos de dados oficiais, coleta de matérias em veículos de comunicação e vivência no morro para cruzar e conferir informações que serviram de base para a construção da trama. A força de “Abusado” está justamente em não focar apenas no relato jornalístico dos fatos, na biografia, mas sim na busca por um olhar diferenciado sobre a violência e a vida no morro, mesclando a ficção com a realidade a fim de dar voz às pessoas que estão do “lado certo da vida errada”.

Marcinho VP, ou Márcio Amaro de Oliveira, foi assassinado na penitenciária aos 33 anos, após ter sido condenado a 25 anos de detenção. Morreu de forma violenta, assim como muitas outras pessoas morreram sob seu comando no Dona Marta. Desde pequeno, conviveu com a violência doméstica e dos traficantes, com a pobreza extrema e com as mazelas habituais de lugares esquecidos pelo poder público.

Em um local comandado pela sangrenta facção criminosa Comando Vermelho, muitos jovens são aliciados para o crime. Com VP não foi diferente. Não que não houvesse outras alternativas e saídas, mas nem sempre o ambiente permite que você fuja do banditismo. Em pouco tempo, VP se tornou um dos maiores criminosos do Morro, impondo seu controle. O livro relata com nuanças esse processo e mostra toda a monstruosidade que um ser humano criminoso é capaz de realizar.

Acontece que a imersão de Caco Barcellos na vida de VP e de seus amigos (A Turma do Xuxa, por exemplo) no dia a dia do morro despertou uma ideia que é o ponto chave do livro: as demonstrações de “humanidade” dos bandidos. Sim, é esquisito, mas acontece. Eles amam, têm fé, sofrem e se divertem. Em certos momentos, o texto de Barcellos é tão envolvente que você se pega torcendo para que VP consiga escapar de uma batida policial ou de um tiroteio com traficantes rivais.

Essa abordagem, obviamente, não é leviana, sendo apenas um “traço estilístico”. É, antes, uma forma que o autor utilizou para demonstrar à sociedade toda a crueldade do tráfico de drogas e, também, todo o sofrimento que famílias passam com o descaso público. O discurso de que todas as pessoas possuem escolhas e entram para o crime porque querem é falsa. De fato, o aliciamento de menores em morros, favelas e zonas periféricas diminui ao longo dos anos. Porém, no auge da guerra do tráfico no Rio de Janeiro, crianças com 5, 6 anos já estavam em facções criminosas. E qual foi a escolha delas?  Nenhuma.

“Abusado” é um livro estarrecedor justamente porque expõe as fragilidades de uma sociedade precária, sem um plano de políticas públicas para conter o banditismo. Através de relatos reais e curiosos, mostra como o poder paralelo era (ou é?) tão forte que permitia a entrada de Spike Lee e Michael Jackson no Morro para gravações, quando o lógico seria a polícia liberar.

Este texto não possui o objetivo de discutir as questões apresentadas no livro. Tem, na verdade, a intenção de falar sobre a riqueza de um livro indigesto. Quando vai se chegando ao final do enredo, Barcellos conta um pouco sobre o processo de criação de “Abusado” para que haja, por parte do leitor, um maior entendimento sobre o que é ficção e o que é realidade.

Bem, o mundo sem esses traficantes seria melhor. Porém, melhor mesmo seria se as sociedades se preocupassem em entender o que acontece neste ambientes hostis. Marcinho VP mereceu o que lhe aconteceu, pois ele fez exatamente o mesmo com muita gente. Mas não é esse o ponto. A questão é: quanta gente o poder público vai perder para o tráfico? Quantas pessoas honestas, dignas, serão assassinadas? Quantas crianças não terão acesso à vida? — digo isso de forma literal.

Caco Barcellos, com “Abusado – O Dono do Morro Dona Marta”, mostrou que o tráfico é cruel, mas as pessoas — ao menos parte delas — não necessariamente. Você poderá manter a mesma opinião que já possui sobre o crime, no entanto, deverá mudar de forma considerável seu ponto de vista sobre os seres humanos.

Originalmente publicado dia 4 de outubro de 2011

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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