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Anton Tchékhov | Escritores Russos | A Rússia Da Copa

A Rússia da Copa | Leonardo Cássio | Literatura 15/02/18 - 03h Leonardo Cassio

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São muitos os motivos que fizeram de Anton Pavlovitch Tchékhov (1860 – 1904) um dos maiores escritores russos de todos os tempos. Médico, contista, ensaísta e dramaturgo, Tchékhov foi responsável por marcar a literatura do século XIX ao romper com paradigmas vigentes à época, tanto no tema quanto na forma literária, impondo um estilo sarcástico em textos curtos e objetivos.

Nascido em 1860 na cidade de Taganrog, ao sul de Moscou, levava uma vida simples ao lado dos irmãos e pais, donos de uma pequena mercearia. Vivia em uma sociedade patriarcal, comum em pequenas cidades da Rússia, e sentia-se sufocado com o autoritarismo do pai e as obrigações familiares pesadas para um garoto. O negócio da família ruiu, obrigando-a a procurar melhor sorte em Moscou. Anton ficou em sua cidade natal para terminar os estudos no Liceu, período onde se dedicou aos estudos de teatro e literatura, e à produção de uma série de textos.

Em 1879, Tchékhov conclui os estudos e parte para Moscou, onde reencontra a família. Acaba entrando para o curso de Medicina, onde ficou até 1884, e, durante os anos de graduação, produz uma série de contos que são publicados em revistas sob o pseudônimo Antocha Tchekhontê, que já carregam alguns dos principais traços do escritor: humor, ironia, concisão e construção de personagens do cotidiano, como funcionários públicos, pequenos comerciantes, militares, entre outros. Nesta primeira fase da construção de sua obra, Tchékhov é reconhecido como o mestre das narrativas curtas. Ele satiriza, sem firulas poéticas, o moralismo hipócrita de parte da sociedade russa, as desigualdades e o senso comum acerca da normalização, da aceitação de situações abjetas.

Na última década do século XIX, o Império Russo passou por um intenso processo de industrialização, concentrado principalmente em Moscou e São Petersburgo. No entanto, a maior parte dos russos eram campesinos e um número reduzido de pessoas conseguiu estabilidade econômica no período. Insatisfação social, pobreza, aumento da desigualdade e questões políticas eram temas que estavam no centro da atenção da produção literária russa. Tchékhov foi na contramão das temáticas ideológicas e focou em assuntos cotidianos, fato que causou estranheza, quando não raiva, em colegas escritores e em parte dos leitores. Em uma das centenas de cartas que escreveu, confessou: “não sou liberal, nem conservador, nem evolucionista, nem religioso, nem indiferente. Sou apolítico”.

A característica de isenção com relação a debates grandiloquentes e propagações ideológicas permeou toda a sua obra. É um engano, no entanto, concluir que os contos, romances e peças de Tchékhov são rasas e simplistas. A profundidade está justamente no talento do escritor em criar uma atmosfera literária não subjetiva, questionando problemas graves do contexto russo do período sem cair em pieguices, moralismos, polarização e sentimentalismos que deturpassem o juízo de quem consumia os textos. Ele preferia fazer perguntas ao invés de respondê-las e chegou afirmar que “a interpretação do texto é um privilégio intocado do leitor”. O ponto de vista explica o porquê de muitas de suas obras não terem um final exato, um desfecho, deixando uma abertura para múltiplas conclusões. Anton era um provocador.

A partir de 1885, começa a dedicar mais tempo à escrita, uma vez que ofício de médico consumia muito do seu tempo. Paradoxalmente, a medicina coloca o artista em contato com inúmeras pessoas com diversos níveis de sofrimento, o que ele transforma em material literário, inclusive colocando médicos e doutores como protagonistas dos contos. “Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma, passo a noite com a outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos”.

O aprofundamento na escrita resultou em um dos principais romances do autor, “A Estepe”, de 1888, cuja a personagem principal é um garoto que realiza uma jornada para poder estudar e confronta diversos tipos de pessoas. Tchékhov enxerga a tristeza, o sofrimento, a tragédia não como uma grande fatalidade que acomete as pessoas, mas como algo comum e inevitável, como um elemento normal da vida. É quase uma humanização e amenização do sofrer, que é algo tão cotidiano como se alimentar ou dormir.

Ainda em 1888, Anton Tchékhov torna-se um escritor premiado e reconhecido na Rússia. Em 1890, o escritor sai em viagem para o extremo Leste da Rússia, onde descobre um novo país (é algo similar a sair do Rio Grande do Sul e ir para Roraima – é tudo Brasil, só que bem diferente), conhecendo de perto a vida das aldeias russas, com seus mujiques e latifundiários, funcionários públicos, pequenos comerciantes e pessoas pobres representadas em suas obras. Segue escrevendo e, em 1891, publica outra de suas principais obras, “O Duelo”, livro que trata sobre o Darwinismo Social, teoria que defendia (defende, para algumas pessoas até hoje), com base em uma leitura deturpada da Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin, a superioridade de algumas sociedades – europeias – em relação as outras – africanas e asiáticas.

Com novelas, romances e compilações de contos cultuados por crítica e púbico, Tchékhov volta sua atenção para o teatro. Ivanov, de 1887, foi uma das primeiras incursões de sucesso do russo no campo da dramaturgia, com relativo sucesso e repercussão. O apogeu no teatro ocorreu com “A Gaivota”, de 1896. A primeira montagem da peça, no Teatro de Aleksandrinski, resultou em completo desastre e, somente dois anos depois, Stanislavski concebe a tessitura necessária para a encenação da obra. “A Gaivota” descreve a trágica história de Trepliov, jovem e inseguro escritor que vive entre a rejeição da mãe, a angústia de ter perdido Nina, sua amada, e o sonho de renovar o teatro. A comédia proposta apresenta inovações na construção da dramaturgia, causando rupturas na estrutura clássica teatral – início, conflito, clímax e encerramento -, o que provocou certa resistência.

A produção teatral de Tchékhov mantém os tipos simples como protagonistas das histórias. O cotidiano e toda a frugalidade da vida são encenadas conforme as coisas acontecem no mundo real, sem exagero, sem hipérboles, fugindo novamente das grandes questões ideológicas e dramas saturados. Os conflitos estão por trás do trivial e cabe ao espectador definir quais são as camadas de debate presentes nas obras, sendo que algumas têm final aberto. O principal conceito do teatro tchekhoviano é encenar o fluxo da vida por meio da própria rotina, da mesmice que a maioria das pessoas enfrenta. A vida diária, cotidiana, ganha profundidade ao ser entrelaçada com plano espiritual, “espaço” onde as personagens buscam alcançar respostas e um estágio de “iluminação”. Com o sucesso de “A Gaivota”, Tchékhov é chamado para produzir peças para o Teatro de Arte de Moscou, entre as quais destacam-se “Tio Vânia” (1897), “As Três Irmãs” (1901) e o “Jardim das Cerejeiras” (1904).

Anton Tchékhov morreu cedo, aos 44 anos, justamente em um dos períodos criativos mais férteis de sua carreira, vitimado pela tuberculose que o acompanhou em boa parte da vida. Deixou um imenso legado para a literatura universal. Influenciou diversos escritores, principalmente os modernistas, com suas inovações temáticas, focando em pessoas comuns e em seus fluxos de consciência, em detrimento aos livros e peças focados em grandes debates sociais e ideológicos. Tchékhov foi um grande observador de seu tempo, descrevendo, sempre com olhar irônico, as mazelas de um país que se lançava como grande império industrial, mas, na prática, ainda era um grande território rural e com grande contraste entre a parte ocidental e a oriental. As viagens que empreendeu ajudaram a encontrar as várias “Rússias” descritas nos contos e demais textos e a formação médica proporcionou uma relação mais intensa com as pessoas, principalmente os mais necessitados. Não à toa Tchékhov dava consultas gratuitas, ajudou em campanhas contra epidemias e doou dinheiro para melhorias em comunidades mais isoladas e pobres.

A inexistência de julgamento moral nos textos mostra o caráter provocador do escritor, que atribuía ao leitor a capacidade de determinar qual moral ou conclusão deveria extrair da dialética das obras. Entre todos os feitos de Anton Tchékhov, destaca-se, principalmente, a relação que ele buscava com seus leitores, fato que ele resumiu em uma frase: “quando eu escrevo, eu confio inteiramente no leitor, supondo que ele próprio vai acrescentar os elementos subjetivos que faltam ao conto”.

Grandes Obras/Sinopses
Elencamos abaixo algumas sinopses de grandes obras do escritor. No caso das compilações de contos, a data refere-se ao texto que nomeia o livro, existindo textos com datas diferentes:

O BEIJO – 1887
Em lugar dos vastos panoramas de Tolstói e Dostoiévski, Anton Tchekhov (1860-1904) concentrou os grandes problemas humanos nas formas breves do conto e da novela, verdadeiras miniaturas dotadas de força extraordinária, que fazem de sua obra uma das principais portas de entrada para a literatura contemporânea. Com organização, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, “O beijo e outras histórias” apresenta seis obras-primas escolhidas a dedo pelo tradutor, entre elas textos longos como “Uma história enfadonha” e “Enfermaria nº 6”, nos quais o leitor brasileiro não deixará de perceber, tratados com a característica sutileza tchekhoviana, temas que também foram caros a Dostoiévski e Machado de Assis.

A ESTEPE – 1888
Com “A estepe”, pela primeira vez Anton Tchékhov, aos 28 anos e já com vasta quilometragem como colaborador de jornais e revistas literárias, tentou produzir uma narrativa mais extensa. Tarefa desafiadora, mas, como se lê hoje, bem-sucedida. O subtítulo parece sintetizar a situação central- a viagem de um menino que parte para estudar em outra cidade e, para isso, percorre alguns dias pela vasta estepe russa. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto – um relato da experiência, uma narrativa ficcional, um estudo de tipos humanos, a pintura da natureza, além de retratos das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

A DAMA DO CACHORRINHO – 1889
Os contos breves, precisos e tocantes de Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) revolucionaram a maneira de escrever narrativas curtas, tornaram-se mundialmente conhecidos e influenciaram os principais escritores que se dedicaram ao gênero depois dele. Grande parte da originalidade de Tchekhov reside no papel fundamental que desempenham, em suas histórias, a sugestão e o silêncio, a ponto de, muitas vezes, o mais importante ser justamente o que não é dito. Esta é uma coletânea de trinta e seis de seus melhores contos, selecionados e traduzidos diretamente do russo por Boris Schnaiderman, que assina também o posfácio e as notas à edição. De “Nos banhos” (1883) a “A dama do cachorrinho” (1899), que dá título ao livro e encerra o volume, o leitor poderá acompanhar o desenvolvimento da arte deste escritor que sempre colocou o homem como centro de suas preocupações, e que via na literatura um instrumento para sua emancipação.

O DUELO – 1891
Dividido em 21 capítulos, “O duelo” foi publicado em forma de folhetins nas onze edições do jornal Nóvoe Vriémia entre 22 de outubro e 27 de novembro de 1891. Em “O duelo”, o zoólogo von Koren, entusiasmado com a ideia do darwinismo social, gostaria de “exterminar em prol da humanidade” Laiévski, o sujeito “depravado e perverso”. O antagonismo entre os personagens chega a tal ponto que os dois se enfrentam no duelo. A literatura clássica russa tratara o duelo como uma possibilidade, sempre trágica, da resolução do conflito. Mas Tchékhov rompe com a tradição literária, enganando as expectativas dos leitores e criando aquele específico estranhamento (o conceito introduzindo pela escola formalista rusa) que caracteriza as obras inovadoras, mas profunda transformação espiritual que acontece com Laiévski e que faz von Koren duvidar da verdade que lhe pareceu absoluta.’

AS TRÊS IRMÃS – 1901
Tchékhov é um dos maiores escritores russos. Já havia ficado famoso em seu país como autor de contos, antes das suas principais obras teatrais estrearem nos palcos pelas mãos de Stanislávski, o fundador do Teatro de Arte de Moscou. Juntos, eles inovaram o teatro russo e influenciaram os rumos do teatro ocidental. “As Três Irmãs” conta a história de três mulheres que moram numa cidade do interior da Rússia, acham tediosa a vida na província e sonham em voltar para Moscou, onde haviam passado uma infância feliz. Um drama sobre pessoas comuns e seus problemas aparentemente banais, mas que transformam a vida em um fardo difícil de suportar. Ganhou montagens no Brasil.

A GAIVOTA – 1896
Em uma de suas cartas, Tchékhov escreve que os homens não têm objetivos, quer próximos, quer distantes e que a alma humana está vazia, completamente vazia. Na peça “A Gaivota”, primeira grande expressão da maturidade artística do autor russo, o personagem Treplev perscruta o futuro e nos convida a sonhar com o que se passará daqui a duzentos mil anos. À fala de Sorine, tingida de humor, ao dizer que “Daqui a duzentos mil anos não haverá mais nada“, Treplev replica: “Pois então que nos seja mostrado esse nada“. Embora sem fé, a exaltação do futuro é um sonho caro a Tchékhov. Seus personagens falam dos tempos vindouros como mobilizadores de uma ação projetada para mais adiante e assim racionalizam a inatividade de um cotidiano tedioso, expressão da angústia e das frustrações de uma sociedade vazia de valores pelos quais valeria a pena lutar.

TIO VÂNIA – 1897
Peça escrita em 1897 por Anton Tchékhov, “Tio Vânia” tem como tema central a perda inevitável das ilusões e a consequente necessidade do homem de se reinventar e de enfrentar o futuro. Ambientada em uma decadente propriedade rural russa, no final do século XIX, o texto aborda, de maneira profunda e delicada, o amor, o desejo, a passagem do tempo, o declínio físico, a aridez da existência, o desalento, a aniquilação dos sonhos, e inclui, surpreendentemente, uma mensagem atravessada de fé. Montagem feita pelo Grupo Galpão de Teatro.

O JARDIM DAS CEREJEIRAS – 19042
Última peça escrita por Anton Tchecov (1860-1904), o drama é ambientado no início do século XX em uma Rússia na iminência da revolução social. Sem dinheiro para continuar morando em Paris, onde vivia fazia cinco anos, a aristocrata Liuba se vê obrigada a voltar para sua fazenda. Por lá, a situação é de falência. As progressivas mudanças políticas e econômicas atingem até a propriedade rural, prestes a ser leiloada. O conflito se instaura quando o comerciante Iermolai Lopakhine sugere que sejam construídas casas de veraneio em parte das terras, com o objetivo de gerar receita. Encenada pela Cia. Elevador de Teatro Panorâmico.

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