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Biblioteca Não é Só Lugar de Leitor

ENTREVISTAS | Literatura | Thais Polimeni 09/03/15 - 08h Thais Polimeni

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O Leo (Leonardo Cássio) e eu, além de editarmos o blog Cult Cultura, escrevemos para o site Jornalirismo. Lá, escrevemos, essencialmente, contos e crônicas. No meu caso, muito mais crônicas do que contos. O Jornalirismo é o lugar que eu uso para desabafar, para refletir sobre o mundo, em busca de um caminho pra deixar nossa vida cada vez mais leve e do jeito que a gente sonha.

No ano passado, o Jornalirismo lançou o primeiro livro da sua coleção: “São Miguel em (uns) 20 contos contados”, de autoria de Keli Vasconcelos, colaboradora do site desde o comecinho dele. São 25 crônicas ambientadas em São Miguel ou no trajeto de lá pra cá, de cá pra lá. São textos fluidos e deliciosos de ler, que nos transportam para o dia a dia de grande parte da população paulista.

Keli Vasconcelos concedeu uma animada e descontraída entrevista para o Cult Cultura, que reflete todo o cuidado que dedica aos seus textos e ao seu livro. No próximo sábado, 14 de março, às 14h, Keli estará na biblioteca Raimundo de Menezes, em São Miguel Paulista, para um bate-papo no evento “Escritor na Biblioteca”. É uma oportunidade para vocês fazer suas perguntas a ela, ao vivo!

Inspire-se abaixo:

[Cult Cultura | Thais Polimeni] Qual é a emoção de publicar o primeiro livro? Sempre foi seu objetivo ou aconteceu tudo naturalmente?
[Keli Vasconcelos] Até agora estou atônita com a situação. Não imaginava que teria um livro publicado e lógico que a gente nutre aquela vontade, mas não entendia muito do ‘riscado’ … como fazer isso. Em meados de 2014, enviei um e-mail para o editor do site Jornalirismo, Guilherme Azevedo, pedindo algumas dicas de editoras, pois queria, em um futuro bem, mas bem distante, publicar um livro com contos, poesias, coisa simples.

Como coincidências não existem mas, sim, o universo conspira (penso eu), o Guilherme me respondeu justamente falando que estava em negociação com uma editora, a fim de elaborar um livro com crônicas do site e iria me convidar para fazer parte da coletânea. Fiquei boba, não imaginava que ocorreria assim, de supetão! Ainda sendo o ‘soldado de infantaria’, a primeira da coleção.

Dias depois, peguei para rever os textos, e desses quase oito anos que escrevo pra lá, ficaram 25 para o livro. Foi algo orgânico para escolhê-los e organizá-los, atentei mesmo para o período quando foram escritos e publicados no site.

Capa Sao Miguel em uns 20 contos contados Keli Vasconcelos SEM SOMBRA[Cult Cultura | Thais Polimeni] O título do livro é “São Miguel em (uns) 20 contos contados”, que é uma coletânea das suas crônicas publicadas no Jornalirismo desde o início de 2008. Como surgiu a ideia do título? Como são crônicas, o mais óbvio seria “… umas (20) crônicas…”, certo? (risos)
[Keli Vasconcelos] (risos) Pois é, ouvi muito isso! O engraçado é que o título veio assim, organicamente, do mesmo modo como foram as escolhas dos textos. Geralmente, você conta uma história, um conto. Você não fala: “Vou te contar uma crônica”, mas “Vou te contar uma história, um causo, um ‘babado'”. “Vou te contar, hein?”, ou seja, expressões que a gente fala comumente.

Embora sejam crônicas, para mim soou melhor usar o termo ‘conto’. É o que falo em casa, é o que eu ouço de meus pais, é o que vejo nas ruas, nos lugares por onde passo.

É conto, sem aumentado o ponto!

É crônica, com uma pegada cômica (risos)!

[Cult Cultura | Thais Polimeni] Grande parte dos seus textos citam ou acontecem no transporte coletivo, indo ou voltando de São Miguel Paulista. Os encontros passageiros acontecem diariamente, com todas as pessoas, mas poucas tem a habilidade de transformar isso em arte, como você faz em suas crônicas. Em que momento você passou a transformar essas situações em textos? Quando você começou a enxergar tudo isso como oportunidade?
[Keli Vasconcelos] Sou uma pessoa que gosta de observar e a vida nos proporciona essa contemplação, esse olhar mais sensível. Desde criança sempre fui meio diferente das outras crianças. Enquanto brincavam ou caçoavam umas das outras, ficava em um canto, observando-as, além do prédio da escola, a roupa da professora, o modo como apagava a lousa, a poeira do giz… Gostava de desenhar essas situações, depois, com a alfabetização, de escrever o que isso representava para mim.

No metrô, trem, a pé acontecem as mesmas coisas: é uma pessoa que te esbarra e conta a história dela toda, é um vendedor que fala das vendas, é um taxista que, depois de 48 anos de profissão, menciona que mora no mesmo bairro onde você pretende ir… Acho que a intenção dos textos que faço é mostrar que precisamos ter sensibilidade. E vivemos atualmente um estado insensibilidade grande demais!

Dia desses mesmo, estava com uma amiga almoçando no shopping e vi uma moça amamentando o filho. Porém, ela não o olhava nos olhos dele, preferiu o celular. Observe a chance perdida dessa mãe de vê-lo, o prazer do alimento dado, o olhar! Você já viu a mãe amamentando o filho? É instintivo, puro, ele olha nos olhos da genitora, põe a mãozinha no peito. É lindo! Já é desgastante amamentar em uma praça de alimentação, com aquela barulheira, e essa chance, desse jeito, não terá novamente.

Concordo que nosso cotidiano é atribulado, com ‘zilhões’ de coisas para fazer ao mesmo e muitas vezes a gente fica cansado, sem pique nem para ficar de pé… Mas se perdermos este feeling, será pior nosso convívio no planeta. Ele já sofre com tantas destruições…

[Cult Cultura | Thais Polimeni] Você tem alguma referência de autores que te inspiraram a escrever as crônicas?
keli-vasconcelos. Credito-divulgacao[Keli Vasconcelos] Nossa, leio de tudo! Embora eu tenha esse jeitão espevitado, falante, sou meio fechada e nos livros encontro refúgio. Leio de quadrinhos às poesias, de jornal a blog de moda, de fotografia (risos)! Gosto de Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna, Fernando Pessoa, Gabriel García Márquez, Agatha Christie, Ziraldo, Zuenir Ventura… Se for para elencar todos, vou ficar passando dias e serei injusta!

Porém, tenho um autor que gosto bastante e acho seu modo de escrever fantástico, é o Rubem Fonseca. Ele é conhecido pelo livro “Agosto”, mas possui várias obras excelentes e como foi da polícia, ele tem o traquejo e o olhar apurado, faro, instinto para escrever e descrever.

Dois livros que recomendo são “O Seminarista” e “E do meio do mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto”. Embora os títulos sejam fortes, que falam de assassinatos e crimes, sinto que Fonseca é um homem recluso, não dá entrevistas. Sua última aparição foi em 2013, quando fez uma doação de livros aos funcionários das obras do metrô do Rio (ele nasceu em Juiz de Fora, MG, mas fez sua vida no RJ), cuja biblioteca montada levou seu nome.

[Cult Cultura | Thais Polimeni] Além dos autores, o que mais te inspira a escrever?
[Keli Vasconcelos] Da fila do ônibus à peça de teatro. Do sorriso de meu irmão quando lê uma reportagem sobre carros até o professor de fotografia explicando a beleza do raio de sol na lente objetiva. Esta entrevista. Tudo pode ser inspirador, basta estar com o coração aberto. E, claro, ter a sensibilidade de observar o que pode ou não virar um texto.

Aquilo que não é aproveitado, vira poema, vira lead, vira uma história para contar no almoço, pensamento para carregar no travesseiro, roteiro de uma possível viagem.

Mesmo que essa viagem seja no aconchego do sofá.

—–

Para comprar o livro “São Miguel em (uns) 20 contos contados”, você pode clicar aqui no site da Editora In House, aqui no site do Jornalirismo ou aqui no site da Livraria Cultura! Várias opções 😉

Veja abaixo mais informações sobre o evento de sábado:

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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