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Bob Dylan e a Literatura

Leonardo Cássio | Literatura | Música 13/10/16 - 05h Leonardo Cassio

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O cantor e compositor norte-americano Bob Dylan venceu o Nobel de Literatura de 2016, pegando muita gente de surpresa. Seu nome circulava há alguns anos entre o júri do prestigiado prêmio, mas o cantor não havia emplacado o prêmio, muito provavelmente por ser incomum destinar o reconhecimento máximo de literatura para quem não é escritor de ofício.

Dylan possui dezenas de livros publicados, entre eles “Crônicas – Volume Um” (2004), “Tarântula” (1971) e “Poem to Joanie” (1971). Só que sua grande obra é musical, campo artístico que o consagrou como uma das personalidades mais influentes da história, cantando e compondo sobre questões fundamentais como política, religião, racismo, guerra e etc. Com 75 anos de idade, Dylan tem mais de 50 anos de carreira, tempo suficiente para produzir quase 70 trabalhos entre inéditos, coletâneas e DVDs.

O comunicado oficial do Nobel definiu que “Dylan criou novas expressões poéticas dentro da grande música tradicional americana”, fato suficiente para lhe render o prêmio. Completa: “se você olhar para um passado distante, há 5.000 anos, vai descobrir Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos que foram feitos para a performance, e o mesmo acontece com Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo, e gostamos”.

O grande mérito da premiação de Bob Dylan é a atestação por parte de uma respeitada entidade de que a literatura não é presa a uma plataforma, quer dizer, não se faz literatura apenas ao se escrever livros. Dylan construiu uma das obras mais profícuas do mundo e o alcance histórico e social é quase imensurável. Ele protestou, profetizou, quebrou barreiras, arregimentou seguidores, criou uma maneira de compor e cantar, foi copiado, influenciou, reinventou-se e jamais parou. Suas letras e poemas são indissociáveis da cultura norte-americana dos anos 60 e 70; é impossível estudar o contexto dos Estados Unidos nestas duas décadas e não ouvir/ ler Dylan.

Esse contexto caracteriza que a literatura está entranhada no fazer diário, no viver, não apenas na produção solitária do escritor. Literatura é oralidade, é ilustração, é atuação, é música, é a pura e simples criatividade. A literatura está em todos os lugares, sendo feita por centenas de milhares de pessoas das mais variadas maneiras. O Nobel 2016 abre um importante caminho para mostrar que talento e criatividade não são presas a prensas e editoras.

É importante destacar que, enquanto músico, Dylan havia ganhado Grammy, Globo de Ouro, Oscar e até um prêmio especial do Pulitzer. Com o Nobel, o músico se consagra como figura única a vencer todas as premiações citadas. O cara é um mito. Fora isso, consta sempre em listas dos maiores artistas do século XX ou das principais canções do mesmo período com “Mr. Tambourine Man”, “Like a Rolling Stone”, “Hurricane” e “The Times They Are A Changin’”.

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