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#CultIndica: Os 65 Anos de “A Vida Como Ela É…”

CultIndica | Leonardo Cássio | Literatura 29/05/15 - 11h Leonardo Cassio

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Nelson Rodrigues não chega a ser uma unanimidade literária. Ainda bem, pois, segundo o próprio, “toda unanimidade é burra”. E não agrada a todos porque o dramaturgo e escritor foi um exímio observador das bizarrices humanas, com uma incrível capacidade de expressar toda essa sandice em textos ácidos, perturbando conservadores e abestalhados.

Em 1950, Nelson já era conhecido por peças como “Vestido de Noiva” e “Álbum de Família” e, familiarizado com redações de jornais, recebeu o convite de Samuel Wainer, à época dono do periódico Última Hora, para escrever uma coluna em que contasse histórias da vida real em tom ficcional. A ideia talvez fosse aproveitar histórias que não virariam notícias, mas que eram interessantes para o grande público, e também diferenciar o jornal com a escrita de um notório contador de tragédias.

“A Vida Como Ela É…” tornou-se espontaneamente sucesso de público. Naquele Rio de Janeiro dos anos 50, que misturava uma classe alta, com ares aristocráticos, cheia de preconceitos e hipocrisias, a uma classe pobre, que crescia conforme a urbanização da cidade, a existência só poderia acontecer tresloucadamente.

Suicídios, assassinatos, brigas e intrigas de toda forma irrompiam após adultérios, trapaças familiares, traições entre amigos e todo tipo de infâmia causada por ciúme, ódio, obsessão, egoísmo, inveja e demais sentimentos não louváveis. Assim fez sucesso a coluna “A Vida Como Ela É…”, e pouco mais de uma década da estreia, em 1961, o próprio Nelson organizou os cem melhores contos e publicou em livro.

a-vida-como-ela-eOs contos retratam tão visceralmente as atitudes humanas que acabaram por ganhar novos formatos: programa de rádio na voz de ninguém menos que Procópio Ferreira; filme e peça de teatro, no caso do conto “A Dama da Lotação” – um dos mais provocativos do livro – e até fotonovela na década de 60.

O mais interessante desta antologia é a teimosia dela em não se desatualizar. Sessenta e cinco anos depois de Nelson provocar os cariocas com seus “abacaxis”, “papagaios” e “espetos”, as loucuras não param de se repetir, da mesma maneira, com a diferença de que agora tem o Datena pra ficar esgoelando na TV as barbáries, sem falar nos programas policiais que registram as desinteligências e todo o tipo possível de B.O..

Nelson Rodrigues analisou a sociedade carioca da época antevendo o que seria de interesse da mídia sensacionalista e sanguinolenta dos dias de hoje. A diferença é que ele fez com maestria literária, ao passo que hoje o que vale é gritar na frente do concorrente. É a sociedade do espetáculo…

Você começa ler os contos de “A Vida Como Ela É…” e pensa: “é possível um negócio desse, pessoal?” É tamanha a doideira das histórias que, ao lê-las, é possível que sua animação com a humanidade diminua um pouco (lembrando que, se você assistir ao Datena e ao Percival de Souza, vai perder mais ainda). As históricas não causam um choque tremendo, pois, diariamente, somos bombardeados por centenas de notícias ruins. Porém, o envolvimento com os contos é intenso e a cada um que é lido, você começa a pensar na bizarrice que virá à frente.

“A Vida Como Ela É…” ainda é a vida como ela é. E exatamente por isso que a leitura da antologia é indicadíssima. Divirta-se ou indigne-se com histórias como “Cemitério de Bonecas”, “Escravo Etíope”, “Ódio de Cunhada”, “A Morta”, “O Monstro”, “Delicado”, “Vontade de Ser Mãe”, “O Decote”, “O Sacrilégio” e, o acima citado, “A Dama da Lotação”.

Abaixo, alguns curta-metragens baseados nos contos e, em seguida, link para o detalhe do livro.

A Dama da Lotação

Delicado

O Monstro

Este escriba leu a edição da editora AGIR. Como ela aparece esgotada em muitos lugares, fica aqui uma sugestão mais em conta.

Fonte da foto do banner: Jornal Opção.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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