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Literatura Familiar: Carta ao Filho

Literatura 17/12/13 - 10h Leonardo Cassio

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Como toda mãe, Betty Milan sofreu. A diferença é que ela conseguiu expressar sua dor através do livro “Carta ao Filho” (Editora Record – 160 páginas). Já nas primeiras páginas, temos a dimensão do conflito que a escritora e psicanalista passou na vida:

Se é para ficar calado, vai embora”, disse a mãe ao filho de quase 30 anos que queria apenas dividir a casa, nãos os sentimentos. Ele se levantou, a encarou, fez como se fosse quebrar o computador dela, então virou-se e, de costas, retrucou: “Vê se não me telefona e não me escreve”. Daí em diante, acompanháramos os relatos de uma mãe que, com o tempo, percebeu que ser mãe é uma possibilidade singular para cada pessoa e que não há erros e acertos, somente a experiência em si da relação mãe-filho.

Em seu 22º livro, Betty Milan, que além de escritora e psicanalista, é renomada tradutora de Jacques Lacan, célebre psicanalista francês com quem ela teve o privilégio de conviver, relata de forma calma e sutil, as experiências que teve com o filho, o sofrimento com o rompimento da relação dos dois e toda a compreensão do papel de mãe que teve a partir desse ponto de ruptura, culminando numa análise profunda de sua vida, ligando ponto a ponto toda sua experiência até o momento de briga.

O livro é um trunfo justamente por não ser martirizante e nem acusatório. Ele é factual e reflexivo, transformando questões íntimas em reflexões universais que não tentam convencer de que haja um jeito, uma maneira de ser mãe. Pelo contrário: Millan afirma que ser mãe é negar a muitos preceitos, é encarar a experiência individual como única e sempre buscar condições de romper com os próprios medos, preceitos e tabus.

Ela, que foi uma mulher socialmente “deslocada” devido ao estilo de vida bem diferente do conservador (teve um relacionamento aberto com o pai de seu filho), entende bem sobre quebrar regras de normalidade. Fazendo a autoanálise de sua condição de mãe, passou por pontos diversos, incluindo o relacionamento citado, a própria condição de filha de imigrantes, sua experiência de vida na França, entre outros pontos que refletem em sua personalidade e que, consequentemente, refletiu em todas as questões maternas.

“Carta ao Filho”, cujo título refere-se ao ótimo Carta ao Pai, de Franz Kafka, ao contrário deste não é uma tentativa de corrigir algo do passado nem de evidenciar uma dor que nunca passará. É, de fato, um relato apaixonado de uma mãe que ao pensar em seu papel de genitora chegou à conclusão de que só a vivência individual é capaz de balizar a ligação mãe-filho. Não adianta livro de autoajuda. Esqueça.

Com escrita simples, fluente, reflexões profundas, mas levemente apresentadas, “Carta ao Filho” é um êxito como obra literária e de análise humana. Ao lê-lo, não espere respostas prontas, apenas a prova de amor de uma mãe que ao invés de se sentir culpada ou magoada, apenas se sentiu mãe.

Leia aqui a resposta do filho, a pedido da extinta revista Bravo!: http://bravonline.abril.com.br/materia/carta-a-mae

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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