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O Alienista

Literatura 31/07/14 - 10h Leonardo Cassio

oalienista

Os romances “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” são, de longe, os livros mais conhecidos de Machado de Assis, grande nome da literatura brasileira e, para alguns admiradores, o maior escritor deste país, do continente ou até mesmo do mundo.

Pudera: o homem não foi apenas um sagaz observador da época, tampouco apenas um versador filosófico de hábil escrita. Foi um visionário, questionando preceitos sociais em diversos gêneros literários, demonstrando maestria em tudo aquilo que escreveu. Por isso aparece sempre nos malditos vestibulares.

Há um livro em especial, que o povo que aplica os vestibulares ainda não entrou em consenso se é categorizado como um conto ou um romance, como se de fato isso importasse. De leitura rápida e agradável que causa assombro pela maluquice do enredo (ressaltando que a obra é da década de 80 dos anos 1800) e pela crítica sutil e elegante nele presente.

Em “O Alienista”, Machado de Assis pontua sua produção no realismo fantástico. O narrador onisciente conta a história de Simão Bacamarte, exímio médico formado em solo europeu que após muito observar (como afirmam os cronistas da época) resolve abrir uma Casa de Orates (manicômio) na cidade de Itaguaí, Rio de Janeiro.

A brincadeira aqui é a seguinte: colocar em questão os limites da normalidade e anormalidade, ironizando a conduta moral da época, já que afirmar o que é normal e anormal é extremamente subjetivo. Aí vem outra brincadeira: o médico é um profissional inquestionável (lembrem-se, falamos do final dos anos 1800!) e o estudo da ciência está acima de qualquer outro tópico social: relacionamento, política, família, etc. Só ele tem, portanto, conhecimento de causa para dizer, graças ao seu saber científico, quem é maluco ou não.

O Alienista é um ser racional, passivo de sentimentos (ilustra muito bem isso o “critério” que ele utilizou para se casar). Em torno dele, há sua mulher D. Evarista, que mantém uma relação de admiração e irritação com a figura do marido, Crispim Soares, um bajulador do médico, Porfírio, que se transforma em político para se opor à conduta de Simão e o Padre Lopes, que não parece ter interesse em colocar a igreja contra a ciência.

Machado de Assis cria uma atmosfera irônica que apresenta a repressão social, alienamento, jogo de poder, superficialidade social (é interessante observar algumas personagens usando frases de efeito para impressionar, mas de forma completamente esvaziada de entendimento). Apesar de não ter um aprofundamento psicológico denso, pela extensão da obra, as personagens compõem um mosaico rico de personalides fúteis, interesseiras, rasteiras, puxa-sacos, covardes, entre outros belos adjetivos.

Por se tratar de um livro que retrata um período tão antigo, vale lê-lo ainda? Vale!

– É uma obra-prima e cai nos vestibulares;

– Demonstra o espírito crítico e a excelente veia literária de Machado;

– Você pode opinar se é um conto ou romance, mesmo isso não tendo importância alguma;

– Os personagens são atuais: O Alienista é o político de hoje. O interesseiro político do livro é o mesmo interesseiro político de hoje. O padre do livro (igreja) é o mesmo de hoje. O quadro social de antes é o mesmo de hoje, com a diferença que os loucos não estão na casa do Orates e sim no Facebook;

– Serve para refletir sobre a própria condição, autodenominando-se normal ou anormal, mesmo isso não tendo importância alguma.

Ilustração do banner: Fredson

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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