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O Popular que Ficou Órfão do Erudito

Literatura 26/11/14 - 08h Leonardo Cassio

arianosuassuna

Ariano Suassuna (1927-2014) pode ser considerado gênio por uma série de motivos. Não apenas por ser um dos maiores escritores e dramaturgos do país. Não apenas por ter presidido a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras e por ter sido Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco no governo de Miguel Arraes (1994-1998) e de Eduardo Campos (2007-2010). E não apenas por ter sido professor universitário da Federal de Pernambuco e ter se formado na Faculdade de Direito do mesmo estado.

A grande genialidade do intelectual foi a preocupação em misturar elementos das culturas tidas como populares às ditas eruditas, focando a miscelânea entre a rica cultura nordestina, em especial a literatura de cordel, e obras clássicas da literatura universal. Apesar do cerne do movimento vir da literatura, ele se estendeu a vários segmentos artísticos como música, dança, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, etc. Surgindo nos anos 70, o movimento arrebanhou de cara nomes como Antonio Nóbrega, Antonio José Madureira, Capiba, Jarbas Maciel e Guerra Peixe.

O “Movimento Armorial” tinha como premissa a valorização da cultura do Nordeste, tão castigada pelo preconceito, e a repulsão pela cultura de massa, especialmente a produzida nos Estados Unidos. Suassuna rechaçava tanto a imposição hegemônica dos EUA no campo cultural que afirmou em uma entrevista (vide vídeo abaixo) que a Disneylândia “é o maior monumento erguido à imbecilidade” e que o maior lixo cultural existente foi Michael Jackson. Exagerado ou não, ele defendeu sua tese até o fim da vida, tanto que, em certo momento, rompeu relações com a banda conterrânea Nação Zumbi, quando esta misturou o maracatu com rock’n’roll, fato que gerou uma interessante música da banda, também pernambucana, Mundo Livre S/A, que faz parte do Manguebeat.

Torcedor do Sport Recife, amante do Galo da Madrugada, o escritor deixou um legado com 19 peças, 7 livros de ficção e outras 11 obras que foram traduzidas (trabalho para poucos!) para inglês (curiosamente), francês e alemão. A mais conhecida, que virou minissérie é “Auto da Compadecida” (1955). Destacam-se também “Uma Mulher Vestida de Sol” (1947), “O Santo e a Porca” (1957), “A Farsa da Boa Preguiça” (1960), “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue Vai-e-Volta” (1971). Morto em julho de 2014, deixou uma versão não terminada do romance “O Jumento Sedutor”.

A morte de Suassuna foi mais uma peça da vida em que dizia que a “literatura é uma forma de protestar contra a morte“. É o Brasil que perde e sofre em ritmo de cordel.

Confira abaixo o trecho de uma das principais entrevistas do escritor e o som da citada e provocativa música do Mundo Livre S/A, que questiona o “Dom Quixote Arcaico”.



Foto do banner: Felipe Rau

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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