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O Surrealismo E A Patafísica: Semelhanças E Diferenças

Literatura 03/09/18 - 09h Cult Cultura

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O livro “Gestes et Opinions du docteur Faustroll, pataphysicien” foi escrito por Alfred Jarry em 1898 e publicado postumamente, em 1911. É nesta obra que Jarry cunha, pela primeira vez, o termo patafísica e sua definição como a ciência das soluções imaginárias.

Durante a década de 20, o modernismo iria se desdobrar em diversas vertentes artísticas e, neste contexto, é publicado o “Manifesto Surrealista”, por André Breton. Os movimentos Dada, Surrealista, futurista e, de forma ampla, praticamente todas as expressões artísticas avant-garde, citaram a importância da obra de Jarry como influência para eles. Seja por seu texto em Faustroll, ou pelo ciclo Ubu no teatro.

Entretanto, seria um tanto ousado marcar a obra de Jarry como precursora de todas estas escolas. Embora boa parte delas cite Jarry como grande influência, é bom lembrar que muitos artistas da época não faziam a mínima ideia do que era a patafísica. Outros ainda criaram textos incrivelmente patafísicos, como Raymond Russell, mesmo sendo contemporâneo de Jarry e nunca tendo o conhecido ou lido sua obra, o que ilustra o espírito da época.

Além disso, a patafísica foi interpretada e recebida de diferentes formas pelos diferentes movimentos artísticos. Cada um com um viés voltado para o movimento em questão. André Breton, por exemplo, foi grande entusiasta do trabalho de Jarry, considerado responsável por tirar sua obra do anonimato dos círculos intelectuais e incluí-la no topo da discussão ao colocar o autor na lista de autores referência do grupo surrealista.

Entretanto, na ânsia de encontrar o surrealismo em Jarry, Breton fez suas próprias interpretações, as quais, em última instância, não são completamente compatíveis com a patafísica em si. Especialmente quando entra em questão o papel do automatismo onírico e irracional do surrealismo, enquanto a patafísica caminha pelos meandros da ciência. Em sendo uma ciência das soluções imaginárias, a definição da patafísica em si mesma traz um subtexto de “regras”, como a presença de contradições absurdas, que não é compatível com a liberdade irracional onírica do surrealismo puro.

Em seu Manifesto Surrealista, Breton expõe: “Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio pau a bandeira da imaginação”, designando a importância de jogar pela janela qualquer regra imposta pela realidade vivida no dia a dia para se submeter ao inconsciente puro dos sonhos, do universo onírico: a única forma possível, segundo Breton, de se produzir uma arte verdadeiramente sem regras e, assim, criativa. A patafísica, por sua vez, apesar de compartilhar com o surrealismo a quebra com as regras da realidade a que estamos acostumados, ela o faz à sua própria maneira, que é diametralmente oposta à proposta surrealista. A patafísica é a ciência que regula as exceções. Ela busca fugir das regras por meio da regra da lógica das contradições, o que é, em si mesmo, uma grande contradição, totalizando assim o absurdo. Como afirma Richard Marshal: “O patafísico insiste que nada é sério, incluindo a patafísica”, outra contradição perfeita que exemplifica sua essência. A patafísica rejeita o princípio da não-contradição, e aceita mundos onde as contradições são verdadeiras.

Portanto, o surrealismo e a patafísica compartilham a busca pela quebra das regras racionais, entretanto, ainda assim, a patafísica pode ser considerada como a grande contradição ao surrealismo, de forma totalmente contraditória.

Fontes:
http://www.3ammagazine.com/3am/pataphysics-is-dead-serious
https://www.3ammagazine.com/3am/pataphysics-useless-guffaw

guilherme-trucco

Por Guilherme Trucco, patafísico, fundador da Escola de Patafísica Aplicada, autor do livro “Cavalos selvagens não existem mais” e marceneiro nas horas vagas.

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