Fechar Menu [x]

Conheça Os Lusíadas No Dia Nacional Da Poesia!

Leonardo Cássio | Literatura 14/03/17 - 02h Leonardo Cassio

53-os-lusiadas

Fiquei olhando por anos para a obra e sempre adiei sua leitura. No final do ano passado, então, resolvi encará-la. As 1.102 estrofes de 8 versos cada – totalizando 8.816 versos – de “Os Lusíadas” foram uma aventura e tanto, uma das leituras mais difíceis e ao mesmo tempo fascinantes que fiz.

O poema épico de Luís de Camões é considerado uma das principais obras em língua portuguesa – para alguns especialistas em literatura, a maior de todas – e é um dos grandes cânones da literatura universal. O legal de ler um livro desses depois de tantos anos após o período escolar e universitário é que você sabe o geral sobre ele – narra feitos marítimos portugueses – mas não sabe uma série de pormenores, que é o que te prende à leitura e, de certa maneira, te causa surpresas.

“Os Lusíadas” foi escrito por Luís Vaz de Camões e publicado em 1572, durante a Renascença. Trata-se de um poema épico, na envergadura de “Eneida”, escrita por Virgílio e “Odisseia”, de autoria de Homero, possíveis fontes de inspiração de Camões. Ao contrário das tragédias gregas, os épicos exaltavam os feitos de uma pessoa ou civilização, sendo que o protagonista não acaba caindo em desgraça. As personagens possuem um perfil psicológico menos desenvolvido do que nas tragédias e a narrativa não apresenta grandes reviravoltas, com a aventura desenvolvendo-se de forma horizontalizada e em ritmo lento. É composto por dez cantos, divididos em cinco partes – Proposição, Invocação, Dedicatória, Narração e Epílogo – todos escritos em versos decassílabos, padrão conhecido como Medida Nova, sendo que o primeiro, terceiro e quinto versos rimam entre si, bem como o segundo, quarto e sexto, finalizando a estrofe com a combinação de rima entre o sétimo e oitavo versos, padrão de estrofe conhecido como oitava rima. Veja o exemplo abaixo, a primeira estrofe da obra:

As armas e o barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Há vários fatores que afastam as pessoas da leitura do épico. O primeiro é quantidade de palavras arcaicas e referências históricas. Para se ter uma ideia, a edição que li – L&PM Pocket -, com organização e comentários de Jane Tutikian, possui mais de 2.400 notas explicativas. Mais de 2.400! É coisa demais, mas sem elas a compreensão ficaria comprometida, apesar de não ser tão legal ficar checando nota de rodapé. O segundo ponto é o desinteresse pelo tema, tão distante, com ares de aula de história, coisa que muita gente não gosta. O terceiro fator está vinculado à estrutura: a leitura de poemas, especificamente esse do período clássico português, exige costume e uma boa dose de paciência para assimilação.

Apesar da dificuldade inicial, a leitura de “Os Lusíadas” foi surpreendente. O que chamou atenção de cara, muito por falta do meu total desconhecimento acerca do épico, é a total imersão na mitologia grega. Eu não tinha ideia, apesar de ser meio lógico devido ao período, corrente literária, etc., da presença tão forte de Júpiter, Baco, Vênus, Marte, Netuno e Mercúrio na viagem comandada por Vasco da Gama ao Oriente. Toda a narração da viagem é composta por decisões dos deuses entre ajudar e sabotar a empreitada dos portugueses nos mares antes nunca navegados. Perceba que os feitos portugueses são exaltados de tal forma que eles são equiparados as divindades.

Só que o que encanta mesmo em “Os Lusíadas” é o espírito aventureiro e conquistador de Portugal à época. Se você refletir um pouquinho, entenderá que a bravura e a coragem exaltadas por Camões na obra não são exageradas. A Europa estava vivendo o humanismo e o mundo entraria em uma revolução científica, culminando numa busca por desbravar novos horizontes. Matérias científicas atuais dizem que conhecemos algo entre 1% e 2% de tudo o que existe nas regiões oceânicas e que o homem sabe mais do espaço do que sobre o fundo dos oceanos, levando em conta que a biodiversidade das grandes profundezas talvez seja maior do que tudo o que conhecemos. Sabemos disso hoje. Então imagine entrar no mar, em rotas desconhecidas, há mais de 500 anos? Insanidade pura, do tipo “vou viajar para Marte“.

A conquista dos mares liderada pelos portugueses – os chineses navegavam muito e certas correntes de estudo atribuem a descoberta das Américas a eles e não aos portugueses – é certamente um dos principais feitos da humanidade. E a epopeia foi escrita por um militar que navegou para a África, onde perdeu um olho em batalha, para a Índia, onde foi preso e acumulou muitas experiências narradas no poema, além da China, onde sofreu um naufrágio do qual sobreviveu e salvou os originais dos Lusíadas – pensa se ele tivesse que rescrever tudo…

É muito inspirador saber que um militar pobre como foi Camões, movido por um ímpeto aventureiro, conseguiu escrever e, com muita luta, publicar uma obra que perpassa gerações. O épico encanta pela forma e outros pontos técnicos literários, mas a questão da imortalização da coragem lusitana, comparada a deuses e semideuses é o trunfo de “Os Lusíadas“.

Engraçado que Camões dedicou o poema para o Rei D. Sebastião, ganhou um prêmio em dinheiro dele, só que nunca conseguiu se firmar financeiramente como artista. Morreu pobre em 1580, apenas 8 anos depois da publicação de “Os Lusíadas”. Camões escreveu outros poemas que foram publicados, mas é tão incrível “Os Lusíadas” que por vezes achamos que ele escreveu somente o épico.

É possível concluir que “Os Lusíadas” é o reflexo da alma não apenas de um poeta, mas de um aventureiro que, mesmo pobre, conseguiu viver experiências, ainda que algumas obrigadas, que poucas pessoas tiveram oportunidade ou coragem. Sinceramente, eu me interessei mais pelo contexto em que o poema estava inserido do que por ele, de fato. Na verdade, é tudo muito genial. Se em cada grande fato da humanidade, como a ida à Lua ou o descobrimento do DNA, estivesse lá um poeta como Camões, o mundo seria muito mais inspirador.

Photo via Visualhunt.com

Tags: , , , , , , ,