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A Teoria do Tríplice Assassinato

Literatura 18/12/14 - 04h Leonardo Cassio

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Lendo uma matéria, dias atrás, sobre a perícia de restos mortais do ex-presidente João Goulart (Jango), deposto pelos militares, lembrei-me de um livro que li em 2005, sobre a tese conhecidíssima que defende que as mortes de Jango, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda foram, na verdade, assassinatos premeditados por interesses políticos.

Jango foi deposto em 1964 pelo golpe militar. Em 1967, para fazer frente aos truculentos militares, os antigos rivais Jango, JK e Lacerda criaram a Frente Ampla, grupo que incomodou os mandantes da época por tentar devolver o poder aos civis.

Em 1976, JK faleceu em um acidente de carro, em uma viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro. A morte aconteceu no dia 22 de agosto, dias depois de ter corrido uma falsa notícia de que o político havia morrido em um acidente em Brasília. No dia 6 de dezembro deste mesmo ano, morreu, no exílio na Argentina, Jango, cuja causa apontada foi um infarto. Em maio de 1977, após ser internado em uma clínica devido à suspeita de uma septicemia, falece Carlos Lacerda. Em um período de apenas 9 meses, as três principais figuras políticas contrárias à ditadura estavam mortas.

Acontece que tem gente que não crê na casualidade destas mortes. Carlos Heitor Cony, profissional com ampla experiência no universo do jornalismo, é um dos inquietos com o fato e, junto com a colega de trabalho Anna Lee, decidiram, após anos de um projeto engavetado, publicar, em 2003, o livro “O Beijo da Morte” (Editora Objetiva – 283 páginas).

BeijoApós se debruçarem por mais de um ano em entrevistas com parentes, amigos e figuras relacionadas aos três, em documentos (presentes no livro) e reportagens da época, a dupla consolidou este livro anfíbio que mistura romance e jornalismo investigativo para apresentar a teoria do Tríplice Assassinato.

O livro tem como protagonista O Repórter, personagem que se debruça em documentos, fatos e relatos para tentar desvendar o que ele acha ser um dos maiores mistérios políticos do Brasil.

O projeto é uma inquietação de Cony, que é compartilhada por dezenas de outras pessoas. A perícia citada no início do texto é prova disso, pois muitos apostam que Jango morreu por envenenamento, e não de infarto. O resultado foi inconclusivo, permanecendo o mistério.

Independente de se provar a tese ou não, que é hollywoodiana, o livro é interessante pelo apanhado de fatos históricos da política nacional, pela argumentação de defesa dos autores para realizar este projeto, apresentando situações semelhantes de conspirações que levaram a assassinatos na Revolução Francesa, Revolução Russa e Guerras Mundiais, e pelo tipo de narrativa, entre ficção e realidade, empregado por Truman Capote e Tolstoi, por exemplo.

Para quem gosta de teorias conspiratórias é um prato cheio. Tem gente que acha o assunto pura balela, devendo ser esquecido de vez. No entanto, quase 40 anos após as mortes, esse assunto ainda toma os noticiários. Como disse o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes: “Para mim JK, Jango e Carlos Lacerda foram assassinados. Os fatos são outra coisa”. Ta aí o livro pra ajudar a pensar sobre.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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