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A Democracia Corinthiana: Uma Construção – Parte 1

Adriano Tardoque | Multicultural 29/10/13 - 10h Adriano Tardoque

socrates

A chamada “Democracia Corinthiana” caracterizou-se por movimento em que os jogadores do Corinthians participavam ativamente das decisões do clube. De 1981 a 1985, todos os assuntos relacionados ao time, desde a concentração, contratações e sistema de jogo, eram definidos por voto. A existência deste movimento tornou-se possível através da união de interesses dos jogadores, cujos principais representantes eram Sócrates, Wladimir e Casagrande; a diretoria era representada pelo sociólogo Adilson Monteiro Alves e a comissão técnica, por Mario Travaglini. Todas estas ações ocorriam dentro do contexto social da abertura política do país, no governo militar de João Batista Figueiredo.

A campanha do clube no ano de 1981 foi uma das piores da sua história, quando terminou na 26ª posição no Campeonato Brasileiro e 8º lugar no Campeonato Paulista. Nessa época, os campeonatos estaduais definiam a classificação para o campeonato nacional, fazendo, assim, com que o Corinthians disputasse a segunda divisão do Brasileiro de 1982. Dentre outros motivos para a conturbada situação em que o clube se encontrava, surgia o nome de seu presidente, Vicente Matheus, que desde 1959 alternava, com outros dirigentes, a tutela do clube. Sua importância no processo está na descrição que nos dá Ricardo Gozzi, no livro “Democracia Corintiana – A Utopia em Jogo”:

Porém, seria impossível compreender a Democracia Corintiana sem saber o que se passou no clube nos anos que a antecederam, especialmente nos quase dez anos consecutivos durante os quais Vicente Matheus ocupou ininterruptamente a presidência do Corinthians… Centralizador e paternalista, considerado um símbolo pela maior parte dos torcedores corinthianos, Matheus era um dos mais ferozes inimigos da abertura. Com simplicidade e inteligência, pulso firme e declarações folclóricas atribuídas à sua falta de estudo, em muitas ocasiões chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para contratar jogadores. Seus adversários nunca ousaram acusá-lo de utilizar o clube para enriquecer ou se promover… Mas individualista e um tanto prepotente, o folclórico presidente do clube entendia pouco de liberdade. Comandava o Corinthians com mão-de-ferro. Certa vez ao comentar seu estilo de administração, declarou: “o Corinthians é uma ditadura mole!”. Quando derrotado politicamente no clube, recorria à Justiça. As renovações de contratos dos atletas transformavam-se em verdadeiras novelas. Autoproclamava-se uma espécie de “defensor dos direitos do Corinthians”[ 1]

Paralelamente à participação do Corinthians na competição, acontecia a campanha para a eleição da presidência do clube. Na época, as eleições se realizavam a cada dois anos, sempre em anos ímpares, com votação alternada de conselheiros e associados. Como no ano de 1979 Matheus se manteve na presidência pelos associados, dois anos depois a eleição do cargo seria votada pelos conselheiros. Assim, naquele ano, Matheus não teria elementos suficientes para contornar o estatuto e reeleger-se, conforme orientação de seu advogado. Lança-se então, candidato à vice-presidência pela chapa de Waldemar Pires:

Em 9 de abril de 1981 – somente quatro dias depois da eliminação do Corinthians no Campeonato Brasileiro – os membros do conselho foram às urnas e elegeram Pires presidente do Corinthians. Vice-presidente de Matheus nas gestões de 1977 e 1979, Pires encabeçou a chapa nas eleições de 1981. A ordem fora invertida. Pires para presidente, Matheus para vice. Pires era visto pela oposição e pela imprensa apenas como um “laranja” da situação. Uma espécie de testa-de-ferro de Matheus”. [ 2]

Logo, começaram as especulações sobre quem realmente mandava no clube. Cogitava-se que Matheus é quem daria as ordens e que Pires somente figuraria na presidência. No entanto, Pires começa seu processo administrativo:

Tudo indicava que Matheus prosseguiria no poder pelo menos mais dois anos. Mas não foi assim que aconteceu. Durante a campanha, Matheus prometia dedicar-se à sede social do clube e setores desligados do futebol profissional. Porém, durante os primeiros meses da nova gestão, Matheus tentava interferir em todas as decisões a cargo do novo presidente (…) “O Matheus era meu vice-presidente, mas centralizava muito. Ele queria mandar como se fosse presidente. Então eu me vi obrigado a tomar atitude’’, conta Pires, o presidente que meses mais tarde criaria a abertura necessária para o estabelecimento da Democracia Corintiana… Insatisfeito com a nova realidade, na qual seu poder não era mais absoluto, Matheus passou afastar-se lentamente de suas funções no clube. Após passar quase uma década na presidência do Corinthians sem a interferência de ninguém, Matheus voltava a cuidar pessoalmente dos negócios em sua pavimentadora, cujo escritório se localizava a poucos metros do clube”. [3]

O Corinthians, como representação popular, refletia em seu interior as questões sociais brasileiras, sobretudo o momento pelo qual passava o país: a ditadura e o seu afrouxamento. Waldemar Pires trazia uma proposta de abertura para o clube:

Fortalecido, Waldemar Pires aproveitou a reunião para deixar claro que aceitava unir o clube, mas exigia de Matheus que se limitasse a exercer o cargo de vice-presidente. Durante o encontro, Pires tomou a palavra e aproveitou para esclarecer algo que a maioria dos membros do conselho deliberativo parecia não entender, acostumado que estava com o estilo centralizador de Vicente Matheus: “Minha administração é marcada pela abertura, na qual cada um participa dentro de seus cargos”. [4]

Enquanto que Matheus, cada vez mais isolado, criticava e desacreditava a nova gestão:

(…) Matheus comentou a declaração de Pires: “O Waldemar fala de abertura. Ora, o governo bolou a tal abertura, trazendo um pessoal de fora (os exilados políticos) e tudo mais. Agora, quem está no poder? É ele mesmo. Esse negócio de abertura, meu filho, é para inglês ver”. [5]

[1] Sócrates; Gozzi, Ricardo: Democracia Corintiana – A Utopia em Jogo. p. 29
[2] Idem. p.43
[3] Idem. p. 45
[4] Idem. p. 52-53
[5] Idem. p. 53

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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