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A Democracia Corinthiana: Uma Construção – Parte 4

Adriano Tardoque | Multicultural 19/11/13 - 10h Adriano Tardoque

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Os Três Mosqueteiros de Olivetto
No livro “Corinthians: É preto no branco”, escrito em parceria com Nirlando Beirão, Washington Olivetto faz uma brincadeira com a questão do torcedor corintiano apaixonado, que sempre tem uma visão própria e peculiar dos fatos que envolvem a história do clube. Usa páginas brancas para escrever o que chama de “versão oficial dos fatos” (elabora fatos reais com os fatos “desejosos” que envolvem o clube) e as páginas escuras, destinadas à “verdade dos outros” (o que de fato ocorreu). Além de um capítulo destinado à Democracia Corinthiana, escreve outro que chama de “Outros heróis da Armada Democrática”. Neste, fará uma breve descrição dos três principais jogadores do movimento: Sócrates, Wladimir e Casagrande, buscando associar estes a figuras conhecidas do meio artístico e político, o que viabiliza ainda mais a ideia da construção de personagens ligados às características pessoais dos atletas. Compreende-se, pelas observações de Olivetto (ainda que, em algumas vezes, fictícias), sua projeção “publicitária” dos jogadores. O primeiro a ser descrito é Walter Casagrande:

Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones – e também The Clash, Steve Wonder, por aí afora. Tinha uma queda também pela MPB: Chico Buarque, Baby Consuelo, os Novos Baianos e até os velhos, eventualmente. (…) Tênis, cabelo longo e encaracolado – era o que bastava para que o futebol careta passasse a dizer que Walter Casagrande Junior era um rebelde capcioso. Nasceu na Penha, Zona Leste, e nascer na Zona Leste, Ed, a região que mais tem a cara e cheiro de São Paulo é quase certidão de batismo de corintiano. (…) Aos dezoito anos, mal se profissionalizara, foi recrutado para uma viagem ao Nordeste pelo treinador do time principal. Era o legendário Oswaldo Brandão, que tinha um coração duro, como veios de madeira de lei. No aeroporto, Brandão mandou dispensar o meninão. Casagrande virou bicho e partiu para cima. Incompatibilidade total de gênios: Brandão disse que não queria mais saber dele, Casão disse que não iria jogar com Brandão. Virou artilheiro em Minas – pela modesta Caldense. (…) Tudo isso que agora conto, Ed, é para descrever uma trajetória pouco comum entre os jogadores daqui. Casagrande veio da classe média. Tinha família ajustada, tevê no quarto, aparelho de som três-em-um. Não precisava submeter-se aos caprichos autoritários dos treinadores e dos dirigentes, nem tinha estofo para tanto. Era uma nova geração que, literalmente, entrava em campo. (…) Combinava com aquele Corinthians dos novos tempos um sujeito que, afora fazer gol, dizia a verdade. Marcou sete gols numa semana, logo que voltou; quatro numa só partida, contra os papagaios verdes. Com status de ídolo instantâneo, aos dezenove anos ele abria o jogo. “Gosto de uma cervejinha, sim. Mas na hora certa”. (…) Casagrande foi o ícone da Democracia Corinthiana tal qual Che foi o ícone da Revolução Cubana. (…) Como ele era nosso revolucionário-padrão, e a atmosfera já estava carregada de uma perigosa eletricidade chamada liberdade, a polícia resolveu forjar um flagra de droga contra ele, vésperas do Natal. Foi aquilo de sempre: promotor, delegado, todo mundo querendo tirar uma casquinha na fama do moço. Ele não se deixou intimidar. Acabou absolvido” [1]

Na verdade, não foi a polícia a maior beneficiada com o “escândalo” que envolvia Casagrande. Todos os envolvidos com o processo da Democracia Corinthiana souberam tirar proveito do fato ocorrido. A ação afobada dos policiais que o prenderam e acionaram a imprensa antes de chegar à delegacia, saiu como um “tiro pela culatra”. Logo foi atribuída uma “perseguição” política ao movimento do clube, que acabara de apresentar seu primeiro grande resultado dentro de campo ao vencer o Campeonato Paulista sobre o São Paulo, pelo placar de 3 a 1, onze dias antes. [2] A opinião pública colocou-se a favor de Casagrande, sobretudo nomes como Chico Buarque e Rita Lee manifestavam-se na imprensa sobre o fato. Em 5 de março de 1983, Casagrande foi absolvido. Segundo ele, em um debate realizado na PUC-SP, no dia 11 de novembro de 2006: “O que eles queriam era mostrar que tudo era uma baderna promovida por um drogado, um negro e um bêbado”. [3] O “mito rebelde” da Democracia Corinthiana estava construído.

Wladimir era um patrimônio do Corinthians. Oriundo das categorias de base do clube, desde 1969 atuava com a camisa alvinegra. Considerado como sinônimo da raça corinthiana, tornou-se um recordista absoluto de atuações na história do clube: 805 jogos (entre os anos de 1972 a 85 e 1987). É também o atleta que mais vezes atuou consecutivamente sem lesão ou contusão: 161 jogos. [4]

Sua representatividade junto à massa torcedora era emblemática. Como capitão do time, representava a liderança e o exemplo a ser seguido:

Wladimir, mesmo sorrindo, impunha o respeito devido à proeminência de seu futebol e à retidão de seu caráter. Por isso, no meio de todos aqueles cardeais da bola do Coringão democratizado, quem foi que virou autoridade em campo? Acertou, Ed: ele, o Wladimir. (…) Era capitão com direito a braçadeira e grito. Mas era uma fase diferente do Timão – e ele era um capitão sui generis, que dispensava insígnia e ofensas e, aliás, contestava essa própria conotação militar da palavra “capitão”. O certo era que o lateral da Democracia tinha vocação para poder, tanto que, ao descalçar as chuteiras, foi dos raros que não se preservaram dos palanques – ele e, por uma simétrica coincidência, o lateral do outro lado do campo, Zé Maria (…) eleito vereador de São Paulo por dois mandatos com maciça votação da Fiel (…). No caso de Wladimir, primeiro ele foi convidado para ser o administrador do Pacaembu, que é o requintado estádio decô de nosso glorioso – mas que, como você já sabe Ed, o Corinthians finge às vezes ser da Prefeitura e, portanto, pertencer a todos, para não despertar ciumeira dos bobocas. Vamos fazer de conta que é verdade, assim como fez de conta Wladimir, em 1989, ao assumir o estádio. (…) Em 1996, coroando bela carreira política em que o Corinthians sempre foi seu melhor cabo eleitoral, ele se tornaria o primeiro prefeito negro eleito na cidade de São Paulo. Você pode estranhar, Ed – aí mesmo, em Chicago, Washington ou Atlanta, um negro mandando na cidade já deixou de ser novidade há mais de vinte anos. Aqui, não: a gente ainda se encanta com um doutor com anel no dedo e obturação de ouro no dente. (…) A administração de Wladimir foi um primor, como eram de um brilho só seus malabarismos no gramado. Quebrando outra tradição, essa também bem brasileira, não se viu uma única acusação de corrupção ou de favorecimento enquanto ele governou. Os pobres foram sua opção preferencial. Transformou os terrenos baldios da periferia em campos de futebol, distribuiu material escolar, formou treinadores. (…) Ser negro, aqui no Brasil, nunca foi fácil, Ed, embora a vida pareça tão alegre, tão cordial (..). No Brasil, houve conflitos sérios, mas a gente preferiu jogar a história debaixo do tapete. Tem, por exemplo, o levante de Zumbi de Palmares, no Nordeste. Zumbi era líder de um quilombo, lugar fortificado para onde fugiam os negros. A tropa imperial os massacrou e Zumbi, em gesto final de rebeldia, se projetou do alto de um rochedo. (…) Wladimir nunca viveu do ressentimento e do rancor, mesmo por que tem o espírito de liberdade guardado no peito. Mas insistentemente, desenvolveu a ideia de que era chegada a hora de ampliar a atmosfera da democracia até redutos mais fechados da aristocracia do futebol. Já que o Corinthians estava lotado, resolveu despachar o filho Gabriel para o São Paulo Futebol Clube. (…) É duvidoso que alguma virtude viceje. O tal clube do Morumbi é antro de almofadinhas de punho de renda, gente metida a besta, e falar em democracia perto deles é como xingar a própria mãe”. [5]

Quando fala de Wladimir, Olivetto vai um pouco mais além nas “brincadeiras”. O ex-jogador corintiano realmente foi administrador do estádio do Pacaembu, mas não foi o primeiro prefeito negro de São Paulo, cargo assumido por Celso Pitta entre os anos de 1994 a 1998, cuja gestão ficou marcada por corrupção, superfaturamento de obras e extorsões cometidas por fiscais da prefeitura. A questão racial não veio à tona diretamente, o que é compreensível em uma sociedade de racismo velado. É importante observar que, mesmo trabalhando em fatos fictícios, Olivetto já deduz que Wladimir enfrentaria a questão do preconceito racial na posição de político em evidência. Quando se refere à “ampliação da democracia”, citando a ida de seu filho Gabriel para o São Paulo Futebol Clube, que insinua como um “reduto aristocrático do futebol”, onde “é difícil que alguma virtude viceje” e “onde falar de democracia perto deles é como xingar a mãe”, se esquece de mencionar nas páginas negras (“verdade dos outros”) que o Corinthians recusou Gabriel como jogador, e a chance que obteve foi no Tricolor Paulista. Além de que, em 1985, Casagrande se transferiu para o clube do Morumbi, onde foi consultado e ouvido sobre as ações que fazia frente ao seu clube anterior. Olivetto também se esquece de que o São Paulo, até bem pouco tempo atrás, era um dos poucos clubes brasileiros que cumpria os estatutos de eleições para presidente, que obrigatoriamente deve deixar o cargo ao final do mandato (modelo quebrado por Juvenal Juvêncio que retomou a perpetuação no cargo via golpes no estatuto do clube) e que as implementações feitas nos últimos vinte anos refletiram em atualizações políticas, comerciais e esportivas, gerando grandes resultados em termos de títulos (três Mundiais Interclubes, três Copas libertadores da América e três Campeonatos Brasileiros, destacando os principais). A realidade do Corinthians pós democracia passa longe de qualquer um destes pontos.

Na foto: Olivetto, o mentor da Democracia Corinthiana

[1] Olivetto, Washington; Beirão, Nirlando. Corinthians: É preto no branco. p. 195-197

[2] “A prisão em flagrante de Casagrande ocorreu por volta das 20h30 de quinta-feira, 23 de dezembro de 1982, na Penha, quando conversava com três amigos. Foi levado ao 10º Distrito e libertado depois de ter pagado fiança de 30 mil cruzeiros. Denunciado com base na Lei Antitóxicos (com pena variável de seis meses a quinze anos de detenção), acabou absolvido pelo juiz da 1ª Vara Distrital da Penha, Geraldo Euclides de Araújo Xavier”. Olivetto, Washington; Beirão, Nirlando. Corinthians: É preto no branco. p. 208

[3] Declaração de Walter Casagrande no Debate “Democracia Corinthiana”, realizado em 10 de novembro de 2006, com intermediação de Fernando Abrucio (FGV-SP) e participação de Alex Simão (ex-presidente da Gaviões da Fiel Torcida), Casagrande (ex-jogador), Waldemar Pires (ex-presidente do Corinthians), Wladimir (ex-jogador) no Seminário “Metrópole, identidades e futebol – Uma nação chamada S.C. Corinthians Paulista”, realizado de 06 a 10 de novembro de 2006 na PUC-SP.

[4] Unzelte, Celso. Almanaque do Corinthians. p. 133

[5] Olivetto, Washington; Beirão, Nirlando. Corinthians: É preto no branco. p. 200-202

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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