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A Democracia Corinthiana: Uma Construção – Parte 5

Adriano Tardoque | Multicultural 26/11/13 - 10h Adriano Tardoque

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Existentes as novas possibilidades de contrato de futebol com base na participação de empresas com patrocínio e pagamento de salários, e estando o país em processo de abertura política (o que possibilitava manifestações públicas sob vigilância), o surgimento de um jogador politizado (raridade), universitário e com todos os elementos de “desobediência” à rigidez militar, produz a figura ideal para o mito da Democracia Corinthiana, cujo próprio nome remetia ao pensamento e nacionalidade: Sócrates Brasileiro de Souza Vieira e Oliveira, ou simplesmente Sócrates. Este logo se tornou a figura central do movimento, exatamente pelas representações que trazia em si: não era exatamente um atleta, na acepção da palavra, pois mantinha hábitos como o cigarro e a cerveja, além cabelos e barbas compridos, nível superior (medicina – como Afonsinho, ex-Botafogo e rebelde), engajamento político (simpatizante do PMDB) e, evidentemente, um craque de futebol. No período da Democracia Corinthiana, dentro de campo Sócrates justificava a eterna relação jogador-torcedor fazendo grandes lances e belos gols. Fora de campo, desenvolve suas relações políticas, respaldado com as estruturas propostas pela autogestão do clube. Seu destaque frente à massa torcedora como ídolo e como voz do grupo de atletas lhe proporcionou uma posição privilegiada nas investidas da mídia.

O jornalista Juca Kfouri, então diretor da redação de uma das maiores publicações do futebol do país, à revista Placar, coordenou uma edição em outubro de 1982, com a manchete “Sócrates: Eu, Governador”, cujo editorial deixa clara sua intenção com a edição:

Daqui a pouco mais de um mês, a torcida brasileira tem um encontro marcado com as urnas. O dia 15 de novembro é a data exata desse saudável momento. (…) Até lá, os candidatos continuarão buscando votos, as pesquisas vão se aproximar mais da realidade, e o torcedor ainda indeciso terá tempo para cumprir o seu dever conscientemente. (…) O mundo do futebol não está alheio a este episódio. Como a bola, as eleições também apaixonam o país e os nossos jogadores delas participam cada um a seu jeito. (…) Zico, por exemplo, não quis, convidado por Placar, expor um plano de governo para a curiosa hipótese de vir a ser governador do Rio de Janeiro, embora não esconda que seja eleitor do PMDB. (…) Já o Doutor Sócrates – que vota igual a Zico, mas se recusa a participar da campanha ostensivamente -, aceitou fazer sua plataforma, dedicando-se com tal seriedade à ideia, que atrasou em uma semana a publicação da reportagem. (…) Com ele, o gaúcho Cleo, o mineiro Reinaldo e o carioca Paulo Sérgio também fizeram as suas. O resultado (…) é animador. Demonstra claramente o bom nível do futebolista brasileiro e sua generosidade. (…) Se o atleticano Reinaldo se mostra muito preocupado com a qualidade de vida do povo, e pouco democrático, todos os outros craques parecem saber dosar uma e outra coisa. (…) E pensar que até bem pouco tempo não se tirava uma declaração política dos ídolos do esporte nacional”.[6]

Bastante otimista quanto à postura política dos atletas, o edital ditava a mesma tônica na matéria que caracterizou um pano de fundo para a exposição de Sócrates como figura pensadora do processo político, dando-lhe espaço maior em fotos e texto na publicação, ficando os demais com participações reduzidas em quadros com suas falas. O repórter Marco Aurélio Borba cria uma ambientação mais íntima com o jogador corintiano no texto de abertura da reportagem, deixando clara a diferenciação e interesses:

A política está em todas as cabeças brasileiras nestes pouco mais de 30 dias que antecedem as primeiras eleições diretas para governadores dos últimos 17 anos. Está na cabeça também dos profissionais do futebol, dos obscuros aos consagrados. Placar propôs uma questão a quatro craques de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul: o que você faria se fosse governador do seu Estado. O gaúcho Cleo, volante do Inter, resumiu rapidamente duas ideias em depoimento ao repórter Divino Fonseca, assim como o mineiro Reinaldo, centroavante do Galo, transmitiu ao repórter Rogério Peres ideias socializantes, mas, ao que parece, pouco democráticas. (…) Já o goleiro Paulo Sérgio, do botafogo, esquematizou um breve, mas abrangente programa, relatado à repórter Maria Helena Araújo. Mas o atacante Sócrates, do Corinthians, e capitão da Seleção brasileira, foi além do que se esperava. Mesmo ante a insistência deste repórter para que ele desenvolvesse as linhas mestras e deixasse a complementação por conta de um papo mais aprofundado, o Magrão recusou-se. Quis ele próprio elaborar o seu programa de governo. E o fez, entre viagens, concentrações e algumas broncas amigáveis relacionadas com o atraso na entrega do trabalho. O resultado aí está, digno de um verdadeiro candidato ao palácio dos Bandeirantes”. [7]

Em seu texto, Sócrates faz uma introdução de contexto político com ênfase na democracia e coloca propostas que estão de acordo com as necessidades básicas de todo e qualquer cidadão:

O ideal político sempre foi um planejamento executivo direcionado para o bem estar de toda a população, não apenas para parte dela. Assim, tentarei colocar as minhas posições sem vinculá-las às dos partidos que disputam as próximas eleições. (…) Democracia é um direito que devemos exigir. Seu exercício, porém, nem sempre é agradável para todos, já que as posições individuais devem ser questionadas e analisadas antes de se tomar decisões. Após formar sua equipe de trabalho, o Executivo deveria, sempre, atrair todos os segmentos sociais para participarem da execução de seus projetos. Setorizar diretrizes, embora seja mais didático, também é questionável, já que tudo está interligado (…). O brasileiro busca, basicamente, trabalho, educação, habitação, saúde a alimentação. (…) Trabalho – é preciso gerar empregos com estímulo dos órgãos financeiros do Estado e com boa utilização da receita pública, sempre com estudos prévios das diversas regiões do Estado. (…) Habitação e solo urbano – o governo deve incentivar a criação de comunidades – com créditos de orientação – para a construção de casa própria. Deve utilizar todos os seus terrenos ociosos, (…) deve regularizar todos os loteamentos clandestinos e favelas que já tenham moradores (…) além de criar infraestrutura básica para essas comunidades através de luz elétrica, calçamento, rede de esgotos e água encanada. (…) Para melhorar o sistema de assistência médica, o primeiro passo é valorizar a profissão, com melhor remuneração e condições de trabalho. Depois, incentivar e financiar a medicina preventiva e a pesquisa. (…) Bem aparelhado, um ambulatório pode atender 90% dos casos, evitando o excesso de procura de hospitais, o que acarreta mau atendimento. (…) Educação – Primeiro, é valorizar o magistério, com remuneração digna, que elimine a necessidade de acumular empregos e melhore a qualidade do ensino. O governo tem o dever de proporcionar a toda população em idade escolar o acesso à instrução. Só faremos um grande país se tivermos um povo culto. (…) O maior problema do ensino médio é que todos os alunos são orientados para chegar à universidade, o que não só é errado, como torna o acesso a esta mais difícil. O governo deve estimular e valorizar o ensino profissionalizante, tornando-o uma opção profissional de nível idêntico ao superior. (…) Alimentação – Num país essencialmente agrícola, o campo deve merecer amplos recursos, e o Estado deve zelar para que o produtor receba preços justos pelo seu produto, além de impedir que ele chegue ao consumidor inflacionado pela presença de intermediários. (…) Para evitar a monocultura, o Estado deve dar igualdade de tratamento, em relação aos preços do mercado, a todos os produtos. Além disso, deve utilizar suas terras ociosas para o aproveitamento por pessoas que queiram trabalhar no campo. (…) Enfim, todos esses planos podem e devem ser colocados em prática, pois são anseios de um povo que busca o seu bem-estar. Mas só conseguimos isso quando todos tiverem ampla e total liberdade para se expressar, se informar, participar, escolher e, sobretudo, protestar. Isso é viver com dignidade” [8]

Sócrates, em seu longo discurso, se ateve às demandas básicas do país, não elaborando uma ideia de transformação política profunda. Já Reinaldo (José Reinaldo de Lima), jogador do Atlético Mineiro, em entrevista, na mesma matéria é mais incisivo:

Primeiro, escolheria uma assessoria competente, que é a base de qualquer governo. Depois, mudaria tudo, a partir do sistema de governar , com implantação de uma forma primitiva de socialismo. Aliás, não sei se seria primitiva ou avançada; sei que todos teriam direitos sociais assegurados, mas perderiam um pouco de liberdade política. Entre os direitos sociais, estariam a saúde, alimentação, educação, emprego e bons salários. (…) Sonho com um governo de uma só ideia e um só partido, onde todos estivessem de acordo e tivessem seus direitos sociais garantidos. Os problemas mais sérios das diversas categorias sociais – inclusive jogadores de futebol – teriam de ser solucionados sem privilégios ou facilidades para nenhuma classe. Apenas a cúpula dirigente teria algumas vantagens naturais e normais” [9]

O breve discurso de Reinaldo apresenta um argumento fundamental: como organizar os jogadores de futebol como classe, sendo que, no próprio contexto do futebol, os contratos das estrelas da bola são diferenciados dos demais integrantes do grupo, como foi visto anteriormente? No seio da Democracia Corinthiana, os três principais porta-vozes do movimento dispunham de contratos diferenciados com os patrocinadores, como colocou o próprio Adilson Monteiro Alves ao explicar seus novos investimentos junto ao clube. Se, por um lado, o movimento democrático no Corinthians apresenta a questão do poder de voto e escolha nas questões referentes ao elenco, concentração, tática de jogo, dentre outras questões, por outro, o patrocínio das empresas dita suas escolhas e a questão salarial passa a diferenciar os atletas entre estrelas e coadjuvantes.

Na foto: Sócrates – A construção do ícone da democracia

[6] Kfouri, Juca. “Quem disse que jogador não pensa bem?”. Revista Placar. N.º 647 – 15 de outubro de 1982. p-3
[7] Borba, Marco Aurélio. “Se eu fosse governador…”. Revista Placar. N.º 647 – 15 de outubro de 1982. p-19
[8] Sócrates. “Se eu fosse governador…”. Revista Placar. N.º 647 – 15 de outubro de 1982. p.20-22
[9] Reinaldo. “Se eu fosse governador…”. Revista Placar. N.º 647 – 15 de outubro de 1982. p.22

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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