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A Rua É Um Patrimônio de Todos

Adriano Tardoque | Multicultural 25/06/13 - 11h Adriano Tardoque

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Crítica e bom humor marcaram os protestos em São Paulo, no dia 17/06: os ônibus que estavam parados nas ruas receberam intervenções de cartazes com frases como “Mais Amor”, “Seja Marginal, Seja Herói” ou o “V de Vinagre”.

A rua é um patrimônio cultural altamente transformador. Em toda a história humana, sempre foi a passagem das grandes realizações que fizeram dela o mais importante agente de mudanças. Nos últimos tempos, as sublevações populares do Oriente Médio e Norte da África tem causado instabilidade em governos e, em alguns casos como da Síria, guerras civis sem previsão de resolução. O Egito, que desde os tempos dos faraós se mobiliza nas ruas para derrubar o sistema vigente, se vê depondo alguns ditadores e incorporando outros. A Líbia resolveu o problema de um golpe militar ocorrido em 1969, capturando e assassinando Muamar Kadafi, disponibilizando posteriormente estas cenas para o mundo, em um vídeo gravado com um celular, no ano de 2011. A barbárie se fez e se faz presente em qualquer tipo de contingência social, sendo o recurso de alguns grupos. O mundo precisa e tem passado por mudanças, cujas bases de consolidação não se destravavam de resquícios de antigos sistemas e regimes autoritários, colonizadores e imperialistas, todos estes, adornados pelo capitalismo desenfreado ou comunismo zumbi.

Enquanto isso em São Paulo…

Assim, partindo de uma avaliação equivocada das forças destinadas a repreender a “desordem” causada por um inesperado “start” de jovens que se reuniram nas ruas de São Paulo para exigir a redução das tarifas de ônibus, algumas coisas adormecidas vieram à tona. A imprensa, acostumada a “bater” junto com a polícia, se viu alvo da incompetência militar, sendo sitiada juntamente com manifestantes, provando as sensações das balas de borracha, cassetetes, gás de pimenta e bombas de efeito moral. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas foram agredidos deliberadamente. Nas páginas dos jornais e das revistas semanais, o evento passou de “atos de barbárie” a “grito sufocado contra o Brasil corrupto, de impostos absurdos, dos gastos excessivos com a Copa do Mundo, da educação ineficiente”, dentre tantas outras coisas.

No dia 17 de Junho de 2013, uma enorme mobilização nas ruas trouxe muita esperança aos que esperavam por um “despertar”, juntamente com os que “acordavam”. Mas os dias que se sucederam, mostraram que as coisas não eram bem assim. Logo, os grupos passaram a “trocar farpas” e  as intenções de grito se dividiram a ponto de haver, em um mesmo lugar, duas manifestações: uma com os “que tem partido” e outra dos que “não tem partido”. Assim, partiram-se rapidamente os sentimentos de muitos, cuja empolgação durou pouco. O que será disso? Precisamos de um pouco mais de tempo para avaliar.

A Rua: Um Patrimônio de Todos.

O mais importante de tudo o que tem ocorrido em São Paulo e no Brasil, sem sombra de dúvida, é a recuperação da rua como patrimônio popular. A rua da circulação diária de veículos e gente, com suas rotinas determinadas, passou a re-exercer uma função que não estava escondida, mas acontecia muito timidamente, tendo grandes proporções somente em festas (como a da virada) e na Parada Gay (cujo formato está muito mais festivo-turístico do que combativo).

A repressão pública que nos últimos anos vem banindo sistematicamente as manifestações nas ruas (como no caso dos artistas de rua, na cidade de São Paulo, onde foram obrigados a se cadastrar ou seriam retirados violentamente pela GCM), disparando arrogantemente que “é proibido parar a Paulista”, se viu de mãos atadas quando esta avenida tornou-se o principal ponto de encontro dos manifestantes, que a bloquearam quase que diariamente, durante dez dias. Os jovens aparentemente pegaram gosto pela rua e pelas possibilidades que ela, enquanto patrimônio comum a todos, tem oferecido.

A contingência da violência e da destruição estará sempre presente nas massas, mas sem determinar necessariamente a sua essência. Se por um lado, alguns poucos destruíram partes de edificações tombadas, por outro, pode-se verificar que muitos tentavam evitar a destruição. Recordo-me do fato ocorrido no Egito que, mesmo passando por absoluto caos, ofereceu ao mundo uma cena incrível: os cidadãos que se manifestavam pelas ruas, diante da possibilidade de saques no Museu do Cairo, deram-se as mãos e, formando uma grande corrente humana, abraçaram o museu para protegê-lo. Resta desejar que a democracia e a união de forças, sejam determinantes neste processo que assistimos em nosso tempo. E que a rua seja sempre nossa.

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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