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Afonsinho, década de 70: jogando sozinho pela profissionalização do futebol

Adriano Tardoque | Multicultural 22/10/13 - 10h Adriano Tardoque

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O jogador Afonso Celso Garcia, o Afonsinho, foi o primeiro atleta a obter na justiça o passe livre, fato até então inédito no Brasil. Também caracteriza-se como o primeiro responsável por uma ação política de contestação que efetivamente deriva em lei, partindo de um jogador e não de ações de interesses do estado ou clubes. Além de seu “jogo” individual contra as estruturas oligárquicas das administrações dos clubes, chamou os demais atletas para o debate sobre a questão da profissionalização do futebol:

(…) Afonsinho tornou-se um caso célebre por ser o primeiro futebolista a desafiar o sistema. Estudante de medicina da classe média e excelente jogador do Botafogo (RJ), Afonsinho iniciou um processo legal em 1974 no Ministério do trabalho pelo direito de negociar seu próprio contrato e de jogar para clubes de sua própria escolha. Vitorioso na justiça, passou de time para time, alugando seus préstimos por seis meses de cada vez e propagando abertamente os direitos dos atletas profissionais a se tornarem agentes livres. Fanfarrão, ele organizou uma equipe de protesto chamada “A Frente da Alegria”, um conjunto de profissionais ultrapassados, inconformados como ele, e aspirando a uma liga de jovens promissores em busca de publicidade. Como um articulador branco, foi tolerado, inda que fosse declarado pessoa não grata em seu time de origem e afastado da Copa Mundial de 1974. Em certa ocasião jogou com Pelé no Santos, uma estranha combinação de dois símbolos do mundo do futebol”.[1]

Sobre a sua ação contra o Botafogo e observação quanto ao profissional de futebol, em entrevista ao site do Jornal do Comércio de Recife, Afonsinho diz:

O discurso dos diretores do Botafogo era esse: ‘ele vai se enterrar vivo’. Mas deu errado. Depois do Olaria, joguei no Flamengo, Fluminense, Vasco e Santos, concluí meu curso de medicina. Foi difícil, mas consegui encerrar minha carreira aos 35 anos. Eu não fui um Dom Quixote. Lutar pela liberdade foi uma opção consciente de vida. (…) Tecnicamente eu não acredito que haja uma categoria profissional de jogador de futebol. Ainda é preciso construir essa consciência de que são uma categoria. A maioria não tem consciência política, não se interessa pelos seus assuntos. É muito complicado. (…) Esse é um problema da sociedade brasileira. Não temos tradição de organização social. Futebol é coerente à sociedade que o espelha. Além do mais, o jogador de futebol é um individualista por natureza. Ele não consegue enxergar o companheiro com o qual disputa a posição ou os adversários como integrantes do mesmo grupo (…) Hoje já há mais liberdade, há passe livre. Mas muitos direitos ainda não são respeitados”.[2]

Em 02 de setembro de 1976, foi sancionada pelo então presidente da República, general Ernesto Geisel, a Lei n. 6.354 que dispõe sobre as relações de trabalho do atleta profissional de futebol e dá outras providências sobre a profissão. Os artigos 3º, 4º, 6º, 11º, 13º, 15º, 23º e 26º foram complementados pela Lei Pelé, N. 9615, de 24 de março de 1998, que institui normas gerais sobre desporto e dá outras providências, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. [3]

A luta de Afonsinho nos anos 70, se não ratificou seu esforço com uma homenagem que atribuísse seu nome a alguma lei, uma “Lei Afonsinho”, como ocorreu com a Lei Pelé, ou a Lei Zico (evidentemente o nome de Afonsinho, nos meios futebolísticos passa longe dos holofotes que estes conseguiram, sobretudo pela “obediência a ordem”), deu um “ponta-pé” determinante para a organização do trabalho do atleta de futebol que, desde a metade da década de trinta, era considerado profissional. No entanto, somente na metade da década de 70, mais de quarenta anos depois, efetivou-se um dispositivo de lei que o reconhecia o jogador profissional de futebol, mesmo em uma situação confusa e discrepante dos termos salariais e contratuais.

[1] Levine, Robert M. “Esporte e Sociedade: O caso do futebol Brasileiro”. In: Maihy, José Carlos Sebe B; Witter, José Sebastião (org). Futebol e Cultura – Coletânea de Estudos. p.37
[2] Entrevista publicada em 06/03/2006 no Site do Jornal do Comércio – Recife – PE. Disponível em http://jc.uol.com.br/jornal/2006/03/06/not_174992.php . Leitura em 21/10/2006.
[3] Leis do Esporte e Estatuto do Torcedor – Anotados. p.164-169

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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