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#ApostaCult: Associação Brasileira de Brinquedotecas Mostra que Brincar É um Grande Negócio

APOSTACULT | Leonardo Cássio | Multicultural 11/09/15 - 04h Leonardo Cassio

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Através da parceria com a Cia dos Clownaticos, tivemos a oportunidade de conhecer uma entidade que não imaginávamos que existisse: a Associação Brasileira de Brinquedotecas (ABBri). Provavelmente você já tenha ouvido falar de brinquedoteca ao ir comprar um apartamento, ao ir fazer compras em alguns estabelecimentos ou mesmo em buffets infantis. É o nome dado àquele cantinho forrado, com brinquedos, livros e outros itens de recreação e lazer.

Mas não é bem aquilo. Existe um conceito formativo e educacional por trás das brinquedotecas, que vai muito além da simples recreação. Foi em 1934, em Los Angeles, EUA, que as brinquedotecas começaram tomar forma. Era a época da Grande Depressão, uma tremenda crise que empobreceu a população americana. Um lojista, ao reclamar para um diretor escolar que os brinquedos de seu comércio estavam sendo roubados, acabou por levantar uma problematização: as crianças roubavam brinquedos porque não tinham brinquedos. Daí em diante o diretor iniciou um processo de empréstimo comunitário de brinquedos.

O início de Brinquedotecas no Brasil foi dado pela APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) com a iniciativa da pioneira das Brinquedotecas no país, a profa. Nylce Cunha, em 1971. Treze anos depois é fundada a ABBri. Quem falou conosco sobre a ABBri foi a sua presidente Maria Célia Malta Campos. Confira:

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Célia, o primeiro objetivo da ABBri, publicado no site, é divulgar o conceito de brinquedoteca. Qual o conceito? Como funciona uma?
[MARIA CÉLIA] A brinquedoteca se apoia na ideia de liberdade, de criatividade e de livre escolha da criança/ usuário para resgatar as possibilidades saudáveis da atividade lúdica e contribuir para o desenvolvimento das pessoas, em qualquer idade e condição. Uma brinquedoteca é um espaço cultural, porque visa favorecer o exercício da atividade simbólica e imaginativa das pessoas. Por isso, ela alia o uso de brinquedos e jogos às manifestações culturais e artísticas, como a mÚsica, a literatura, as artes plásticas.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Conte-nos um pouco sobre a ideia de fundar a ABBri e as principais conquistas em mais de 30 anos de atuação.
Brinquedoteca (4)[MARIA CÉLIA] O ponto de partida foi a demanda para orientação de organização de brinquedotecas e para a qualificação de profissionais para atuarem nessa área do brincar. Assim, nossa abordagem se direcionou para o foco da formação de educadores e outros interessados nessa área. E, nessa abordagem, queremos conscientizar as pessoas sobre o conceito de brinquedoteca e a importância do brincar livre para o desenvolvimento infantil e para a qualidade de vida das pessoas em geral. Parece banal, mas mesmo na Educação não se trata essas questões com a devida seriedade e conhecimento.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Na introdução da matéria citamos que alguns mercados se apropriaram das brinquedotecas, tratando-as como um diferencial de negócio. Do ponto de vista artístico-cultural-formativo, essas brinquedotecas funcionam? O que toda brinquedoteca precisa ter?
[MARIA CÉLIA] Precisa fazer a distinção entre recreação dirigida e brincar livre. Atividades centradas no adulto não podem ser a constante. Embora a oferta de oficinas e propostas mais dirigidas possa acontecer, é preciso que a criança tenha a condição de escolher. O estímulo à invenção e criatividade deveria ser uma preocupação, como também o não estímulo ao consumismo. Por isso, orientamos para um acervo de materiais naturais e do cotidiano, que possam ser transformados e servir como brinquedos, de acordo com a imaginação e o desejo das crianças.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Quais são os tipos de brincadeiras e atividades que podem ser aplicadas em uma brinquedoteca?
[MARIA CÉLIA] Todas devem estar disponíveis ao livre acesso dos usuários! A Brinquedoteca deve proporcionar oportunidade de brincadeiras individuais e coletivas, internas e externas (desde que disponha de local ao ar livre), para diferentes idades e interesses. Além das brincadeiras propriamente, os estímulos à música, leitura e artes combinam bem com os objetivos de uma brinquedoteca.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Em um dos informativos da ABBri, conferimos um item sobre o papel da humanização das Brinquedotecas, neste caso específico em hospitais. Como funciona?
Brinquedoteca[MARIA CÉLIA] Por meio de pesquisas e experiências práticas, sabemos que o brincar alivia o trauma da criança internada, diminui muito sua angústia e, assim, contribui de modo muito significativo para que ela colabore com o tratamento e as intervenções médicas. Sabe-se que a taxa de rapidez da alta médica é maior em ambientes humanizados com o brincar e outras intervenções humanizadoras e que a necessidade de medicações calmantes (pré-anestésicos, por exemplo) diminui. Os benefícios da brinquedoteca hospitalar também se estendem aos adultos, familiares e equipe de saúde, cujo stress é aliviado por estas circunstâncias de maior bem estar da criança. Porém, o funcionamento da brinquedoteca em ambiente de saúde é complexo, exigindo um profissional bem preparado, que zele pela assepsia dos brinquedos e do ambiente a fim de evitar as temidas infecções hospitalares e seja respeitoso e hábil nas relações com criança, família e equipe técnica.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Um dos outros objetivos da associação é o resgate da criatividade. Podemos concluir que as brinquedotecas não são espaços exclusivos para crianças?
[MARIA CÉLIA] O brincar é saudável e traz qualidade de vida para pessoas de qualquer idade e condição, em inúmeros contextos, como os idosos institucionalizados ou não, os adolescentes e as pessoas com deficiências. Também traz benefícios ao ambiente prisional, podendo servir à população carcerária e, no ambiente de saúde, não só nas enfermarias pediátricas, mas também nos ambulatórios e Pronto Socorro.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Além da recreação, humanização e resgate e potencialização da criatividade há alguma outra finalidade prática das brinquedotecas?
[MARIA CÉLIA] Desenvolver habilidades específicas (ou práticas) não é um objetivo da brinquedoteca, embora a aprendizagem informal esteja sempre implicada no brincar das pessoas. Por exemplo, a socialização praticada através de jogos e brincadeiras é fator importante para uma cultura de Paz: respeitar ao outro, observar limites, compartilhar as experiências e os saberes são aspectos da convivência pacífica que se aprende vivenciando. Essa é uma finalidade valiosa e acho que também é muito prática para o cotidiano das pessoas.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Quem pode ser um brinquedista?
[MARIA CÉLIA] Não há regulamentação oficial sobre esta questão até agora. A ABBri está envolvida nesta discussão, no tocante às brinquedotecas hospitalares. Porém, são indicados os profissionais da área de Humanidades e da Saúde que tenham se qualificado em nossos cursos para formação de Brinquedistas e Organização e Gestão de Brinquedotecas. Estes cursos são oferecidos em nossa sede, em São Paulo, sempre em Janeiro e Julho. Nos Núcleos da ABBri, em Curitiba/PR, Rio de Janeiro e Capão da Canos/RS, também há oferta desta formação.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Vimos que há cinco tipos de leis que tratam sobre a relação das crianças com as brincadeiras e brinquedos. Como a ABBri enxerga o papel do poder público no segmento?
[MARIA CÉLIA] A efetivação das leis depende muito da opinião pública e do exercício da cidadania, o que não é um aspecto forte em nossa sociedade, porém ele está crescendo. Leis de proteção aos direitos da criança necessitam dos adultos para serem aplicadas, já que a criança é dependente deles. A pressão da sociedade civil e a sua proatividade são essenciais para que o gestor e o legislador se mobilizem. A ABBri integra a Rede Nacional da Primeira Infância (RNPI), que abrange cerca de 160 entidades que articulam suas ações na defesa dos direitos da criança de 0 a 6 anos. Por exemplo, a Lei 11104/05, que dispõe sobre a obrigatoriedade de brinquedotecas em hospitais pediátricos, 10 anos após sua promulgação está sendo agora debatida com as instâncias públicas, por iniciativa da ABBri e de parceiros da RNPI, a fim de ser regulamentada.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] As atividades das brinquedotecas resgatam as brincadeiras de cunho popular, como cantigas de roda, e acabam servindo como agentes de salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro?
Brinquedoteca (3)[MARIA CÉLIA] Sim, e esta é uma significativa contribuição do brinquedista, pois com a invasão da mídia e da cultura massificada na área do brincar e da infância, nos esquecemos do nosso patrimônio cultural e, particularmente, do que se chama da cultura da infância. A criança é, sim, ativa criadora de cultura, transformando o que recebe de sua comunidade e do meio ambiente em novas formas de expressão e em novos significados. Isso, quando pode sair da frente da TV e dos meios eletrônicos, onde ela fica, passivamente, recebendo informação e estímulos que muitas vezes não contêm relação com seu contexto sociocultural e econômico.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Por fim, fale um pouco sobre os cursos da ABBri, calendário e outras informações que deseje divulgar!
[MARIA CÉLIA] Os cursos da ABBri acontecem há décadas e são sempre ofertados nas férias de Janeiro e Julho, quando recebemos participantes de todas as regiões do país, o que muito nos gratifica. Teremos, em Janeiro de 2016, dois cursos, sendo um específico para a Brinquedoteca em ambientes de Saúde e o outro mais genérico, para diversos contextos do brincar e da brinquedoteca. Além de palestras mais conceituais a respeito do tema, são abordados aspectos técnicos da organização do ambiente, da catalogação e manutenção do acervo lúdico e da segurança no ambiente. Além disso, são realizadas oficinas para ampliação dos recursos lúdicos dos profissionais, como a contação de histórias, a confecção de jogos e brinquedos com material reutilizável, as músicas e brincadeiras tradicionais, entre outras. Informações e inscrições estão disponíveis em nosso site.

Organizamos também, ao longo do ano, Encontros para aprofundamento em um tema específico. Prevemos um Encontro para o mês de outubro com o tema “Cultura Infantil e o resgate das brincadeiras tradicionais”. Em breve, faremos a divulgação deste evento no nosso site e no Facebook.

Acho importante informar sobre o papel que a ABBri vem tendo na luta em prol da efetivação das Brinquedotecas Hospitalares e do reconhecimento do profissional brinquedista. Participamos, dia 3 de setembro, de uma audiência pública na Comissão de Educação, no Congresso, e lá tivemos oportunidade de defender esses pontos e também de conhecer as iniciativas do Ministério da Saúde e de entidades públicas da área da Saúde. Estamos agora tratando de organizar um Grupo de Trabalho com representantes de órgãos públicos da gestão federal (Saúde, Educação, Assistência Social) e das ongs parceiras da RNPI para formular diretrizes que aperfeiçoem e ampliem o escopo da Lei 11104/05.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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