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FC Barcelona: uma resposta histórica da burguesia catalã

Adriano Tardoque | Multicultural 16/07/13 - 10h Adriano Tardoque

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No futebol, hegemonias existem para cair. Neste ano, assistimos não somente à queda (em campo) do soberbo Barcelona, mas também da atual “maior seleção do mundo”, a Espanha, surpreendentemente superada pelo Brasil, seleção em eterna “construção”. No entanto, alguns aspectos sobre o clube catalão e a seleção espanhola precisam ser refletidos, até que 2014 nos traga um quadro novo, cuja incerteza das cores com as quais será pintado é a tônica.

Mais do que a excelência do seu futebol, o FC Barcelona é uma resposta histórica da Catalunha para Espanha
A Catalunha, desde o século XV, firmava-se como um dos principais centros de desenvolvimento da Espanha, na História Moderna. Ligados ao reino de Aragão, os catalães abriram seu caminho externo valendo-se de privilegiada posição geográfica ao centro do Mar Mediterrâneo, indo até Atenas, a Sicília e a Sardenha, o que lhe possibilitou o desenvolvimento de uma poderosa elite de comerciantes e capitalistas. Tal postulado lhes permitiu a relação global com todas as influências mercantis do seu tempo, o que dava à Catalunha, no século XIX, o status de quarta potência de fabricação têxtil do planeta, ficando atrás apenas de Estados Unidos, Inglaterra e França (o que em nada faz estranhar a fundação do FC Barcelona, em 1899, pelo empresário protestante suíço Joan Gamper, com o apoio de um punhado de “renegados” ingleses). Evidentemente que o desenvolvimento industrial traz consigo o surgimento das classes sociais vinculadas ao processo, como os operários e sua organização em ligas, com os mais variados fundamentos, desde o anarquismo, passando pelo comunismo e as tendências ao separatismo. No entanto, o domínio político do país centrado em Madrid, cujo poder estava nas mãos dos influentes e determinantes proprietários de terras castelhanos, logo causaria um choque com os comerciantes catalães. A busca de uma cultura e língua espanholas levava os castelhanos a cobrar do governo central a imposição destas condições, tendo como fundo o protecionismo da agricultura em relação à indústria (conflitos fundamentais das elites no mundo contemporâneo). Atacando então o posicionamento “asno” da aristocracia de Madrid, a burguesia catalã investiu no mecenato, que propiciou a exposição de artistas genialmente grandes como Galdí e Miró, provando assim sofisticação nas ideias e na concepção da sociedade que entendiam e desejavam.

Tinha um general no meio do caminho
Apoiado pelo rei, o general Miguel Primo de Rivera desfere um golpe em 1923. De imediato, proíbe a língua catalã e o uso público do idioma local. Logo, o escudo do clube que levava as cores nacionais e a cruz de São Jordi, padroeiro da Catalunha, passam a ser uma referência “ingrata” à “nova ordem”: após a torcida vaiar o hino nacional em 1925, o Camp Nou, estádio do clube catalão, foi fechado por seis meses e seus dirigentes penalizados com multas. Gamper, fundador do Barcelona, foi “convidado” a se retirar da Espanha (cometendo suicídio em 1930, após a quebra da bolsa de New York). Rivera renunciou e os poucos anos de uma conturbada república deram lugar ao fascismo absoluto de Francisco Franco, cujo ódio pelos catalães desconhecia fronteiras. Segundo o escritor espanhol Manoel Vasquez Montalban, citado no livro Como o futebol explica o mundo, de Franklin Foer:

As tropas de ocupação de Franco entraram na cidade. A quarta organização a ser expurgada, depois de comunistas, anarquistas e separatistas era o Barcelona Football Club” (Foer, 2005, pp-176).

Dentre outros resultados das empreitadas de Franco, o presidente do Barcelona, Josep Sunyol, de orientação política esquerdista, foi assassinado a tiros pela guarda franquista e o prédio de troféus do clube foi bombardeado. Posteriormente, na busca da destruição da identidade “clubística”, obrigou a mudança do nome para o castelhano, ficando “Club de Football Barcelona” e a bandeira catalã foi excluída do escudo do time. A gota d’água deste período se deu em 1943, quando alguns jogadores do Barcelona que voltaram a defender o clube após receber a “anistia”, nas vésperas de um jogo contra o Real Madrid, são visitados no vestiário por Franco (em pessoa), lembrando-os que a “generosidade do regime” é que os possibilitava a “falta de patriotismo” de outros tempos. O jogo terminou 11 x 1 para o Real Madrid! Até 1953, o Barcelona sofreu absoluta influência da ditadura franquista, tendo inclusive a presidência do clube indicada pelo governo.

A Máquina Barcelona – Uma resposta burguesa para a “velha” Espanha
Mas é necessário esclarecer que, independente dos problemas políticos em sua história, o Barcelona jamais deixou de ser um time vencedor e que investia na formação de seu esquadrão. A forte identificação do nacionalismo catalão com o clube, como forma de resistência, também não configurou necessariamente a incorporação de uma luta combativa, a exemplo dos bascos.

Não está sendo discutido aqui se Franco conseguiu ou não controlar os catalães, resumindo seu grito manifesto ao bradar de torcedores dentro do estádio, mas o fato é que os incentivos econômicos (subsídios e tarifas) dados pelo governo durante as décadas de 50 e 60 trouxeram novo fôlego às indústrias, gerou milhares de empregos e apaziguou os ânimos, reduzindo também o sentimento de repressão, acabando por afastar a memória dos massacres cometidos noutros tempos.

Na tese de Franklin Foer, o Barcelona ajudou a “manter os catalães num estado de equilíbrio confortável” após tensões iniciais. Acho isso pouco e superficial, mas entendo que as elites burguesas da Catalunha deram sua resposta para a Espanha: consolidaram o clube como uma marca multinacional, talvez a maior no mundo esportivo dos últimos 40 anos. Tempo este que também usaram para o investimento no clube na formação de uma base de jogadores e atletas “pinçados” nas mais diversas regiões do planeta, mas com um olhar muito especial para a própria Espanha, além do investimento no desenvolvimento técnico de todos os departamentos envolvidos no esporte, desde a fisiologia ao desempenho efetivo do jogador dentro de campo (aliás, são estes dois dos principais pontos de partida do Imperialismo Europeu no século XIX: exploração de matérias-primas e investimento em tecnologia/técnicas). Não tiveram medo de copiar e se apropriar das melhores escolas de futebol do planeta, como a Holanda de 74, ou o Brasil de 1982 (última grande seleção brasileira!). Conseguiram, então, a base da seleção espanhola, que venceu a primeira Copa do Mundo para o país em 2010. Esperava-se que esta conquista “abasteceria” de ânimo o país, o que não aconteceu.

A crise permanece como uma das piores de sua história. Isso não necessariamente acarreta mudanças e, ao contrário, ressuscita a extrema direita que, nas eleições de 2011, chegou novamente ao poder com sua tradicional proposta de “zona de conforto” (que também não se concretizou). O fato é que o Barcelona é responsável por uma revolução no futebol nos níveis da Revolução Industrial Inglesa do século XVII, e quem não acompanhou seus passos, assistiu de camarote sua hegemonia. Vejamos o que o Bayer de Munique, agora com o técnico Guardiola (ex-Barcelona) e campeão europeu de 2012 (tendo se classificado para a final ao golear o time catalão em dois jogos), trará de perspectivas para o universo futebolístico. Quanto às elites da Catalunha, estão vingadas… Mas não estão livres da Espanha.

Na foto, Lionel Messi: o jogador argentino é o símbolo da excelência do clube catalão.

Referência
1 – FOER, Franklin. Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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