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Futebol Brasileiro: Profissionalização, Tutela Política e Preconceito – Parte 1

Adriano Tardoque | Multicultural 27/08/13 - 10h Adriano Tardoque

Diamante Negro e Getulio

Com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil, elaborei uma série sobre a História Social do Futebol. É possível, por meio destes textos, localizar e identificar alguns fatores de permanência no futebol brasileiro, assim como as relações do Estado com o esporte. Serão abordados temas como a profissionalização do futebol na Era Vargas, passando pela Copa de 50, a dicotomia Pelé e Garrincha, a mercantilização do esporte nas mãos de João Havelange, aluta solitária de Afonsinho e a Democracia Corinthiana. Espero que, com estes textos, possamos ampliar o entendimento e a discussão das estruturas sociais que envolvem aquele que é considerado um dos maiores Patrimônios do Brasil: o futebol.

O Princípio da Profissionalização nos anos 30
No ano de 1933 o futebol brasileiro alcançava a profissionalização, tanto pela força e talento dos negros , quanto pelo processo sem retorno da popularização do esporte, que já possuía ampla cobertura dos meios de comunicação escrita e radiodifusão [1]. Paralelamente, na política, a burguesia industrial se aproximava do governo de Getúlio Vargas que acabara de derrotar a Revolução Constitucionalista de 1932 e desejava promover a industrialização do país.[2] Juntamente com os interesses da indústria, surgiram os interesses do operariado que nela trabalha e se organiza em representações sindicais, buscando melhores condições salariais e de vida. Com uma nova Constituição, em Julho de 1934, o estabelecimento da pluralidade e da autonomia sindicais apresenta por um lado à vitória dos interesses da igreja (atuante frente às questões sociais) e do patronato. Por outro, foi um golpe certeiro no movimento sindical que desejava a unidade das classes e para o Ministério do Trabalho, que partilhava da mesma ideia, mas sob orientação estatal.[3]

O contexto político-social da época fez com que os segmentos da sociedade repensassem sua condição dentro da nova realidade que se instalara no país. O futebol como meio expressão e participação social, logo tem seu ofício redimensionado pelo investimento estatal que visava à consolidação da relação de apoio das massas ao governo vigente:

(…) Olhando em perspectiva histórica, talvez seja precisamente esse o aspecto mais importante, embora até hoje pouco notado, da participação brasileira na Copa de 1934. O então presidente da CBD era Luiz Aranha, irmão do ministro da Fazenda Oswaldo Aranha, ambos revolucionários de 30 e diretamente ligados ao presidente Getúlio Vargas, enquanto o chefe da delegação que foi à Itália era Lourival Fontes, diretor da secretaria geral do gabinete do interventor do Distrito Federal, e que anos depois, já no Estado Novo, viria a ser diretor do todo-poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Essa íntima relação entre o poder e o esporte não escapou à Folha da Manhã, que, sem meias-palavras, atribuía à “situação política dominante” o fato de Luiz Aranha estar frente à CBD – de onde, aliás, defendia a oficialização dos esportes como “medida necessária, tendo em vista a influência do esporte para tornar conhecido o país”.[4]

Leônidas da Silva (foto), craque de futebol que enchia os estádios na década de 30, e cuja fama serviu como um mecanismo de comunicação entre governo e as massas, demonstrava-se seduzido pelo Estado Novo, em declaração no ano de 1941: “(…) graças a Deus em qualquer parte do território nacional, mercê do Estado Novo, que tanto tem felicitado o Brasil, vive-se já num ambiente de inteira liberdade às claras (…) Profissional de futebol não é escravo”.[5]

As relações e demandas criadas nas próprias entranhas do esporte vão gerar movimentos pró-condições de trabalho e salário, para os atletas que viviam exclusivamente de sua prática:

Tanto o manifesto dos jogadores paulistas quando o êxodo de craques para o exterior revela que os atletas percebiam muito bem, e não aceitavam mais, a situação contraditória que viviam no início da década de 30. Mesmo que fizessem do futebol sua única profissão, o que era cada vez mais comum, eles não dispunham de qualquer garantia formal que lhes permitisse exercer trabalho com segurança e tranquilidade. A insatisfação, no entanto, não era demonstrada só por aqueles que entravam em campo. Muitos dirigentes cariocas e paulistas, bem como boa parte da imprensa esportiva, também estavam descontentes com as incertezas do semi-profissionalismo, ou, na expressão da época, “amadorismo marrom”. Para essas grupos somente a profissionalização poderia assegurar a força dos clubes e o vigor do espetáculo, à medida que criaria um vínculo mais efetivo e consistente entre jogadores e equipes (…). Para os jogadores, na verdade, a profissionalização não consistia em mera questão de preferência. O futebol permitia a sobrevivência imediata e, quem sabe, a realização do sonho da ascensão socioeconômica para muitos daqueles que não encontravam oportunidade pelo trabalho”.[6]

Assim como as estruturas do futebol dão suas cartas, seus atores principais, os jogadores, estes os derradeiros responsáveis pelo jogo, darão as suas caras, à medida que vêem a capacidade de transformação de suas vidas, surgir em seus pés.

Na próxima semana, falarei sobre o jogador Fausto, o primeiro a reivindicar melhores condições para os jogadores e a trilhar o caminho para essa profissão ser tão altamente valorizada em termos financeiros.

1 Franzini, Fabio. Corações na Ponta da Chuteira – Capítulos Iniciais da História do Futebol Brasileiro (1919 – 1938). p. 51-59
2 Fausto, Boris. História do Brasil. p. 367
3 Gomes, Ângela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. p.175
4 Franzini, Fabio. Corações na Ponta da Chuteira – Capítulos Iniciais da História do Futebol Brasileiro (1919 – 1938). p. 66-67
5 Santos, Joel Rufino. História Política do Futebol Brasileiro. p. 53-54.
6 Franzini, Fabio. Corações na Ponta da Chuteira – Capítulos Iniciais da História do Futebol Brasileiro (1919 – 1938). p. 62-64

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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