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Galinhas sobre a mesa

Multicultural | Rodrigo Najjar 25/10/13 - 02h Rodrigo Najjar

chicken

Logo no começo do Playstorming, ouvi de uma profissional ligada à área de design e tendências a seguinte frase – “Eu não tenho vocação para fazer isso, eu não tenho vocação para subir em cima da mesa e imitar uma galinha”. Antes que alguém pergunte, já vou logo dizendo: não, não pedimos para ninguém imitar uma galinha em cima de mesas nos nossos treinamentos. Fazemos coisas muito piores!!!

A tal frase da galinha traz em si um amontoado de significados equivocados e antigos a respeito da criatividade, do trabalho artístico e da suposta seriedade que o trabalho em uma grande empresa exige. Era óbvio que a executiva tentava, através do seu exemplo, deixar bem claras as diferenças entre o trabalho dela e o Playstorming: ela era séria e nós não; ela era sóbria e contida, e nós, ébrios delirantes; ela tinha classe e nós éramos desprovidos de senso de ridículo. E sabe de uma coisa? Ela tinha toda a razão! O medo do ridículo, o medo de errar, de tentar, de se expor são barreiras que tentamos destruir diariamente. Criamos um método para isso. E se divertir é fundamental para o processo criativo. “Fun” é o nosso maior combustível.

Play, em inglês, como em muitos outros idiomas, é uma palavra que significa, ao mesmo tempo, brincar, jogar e atuar (do trabalho do ator). Por isso a gente usa a palavra em inglês e não em português. Na língua portuguesa não há uma palavra única que signifique essas três coisas. Assim, depois de praticarmos nossa própria tempestade de ideias, batizamos nosso “jeito” de trabalhar a criatividade e a inovação de “Playstorming”. Teatro é jogo. Jogo é interação, cocriação, brincadeira. E, para os artistas, jogo sempre foi coisa muito séria. E podem acreditar, tivemos que trabalhar muito duro para reaprender a brincar depois de adultos.

A atitude “Play” elimina a angústia, as tensões e libera a energia criativa para o trabalho. E, principalmente, elimina a tão temida “caixa”, que enquadra pensamentos, limita as ações e mata a criatividade.

Quer pensar fora da caixa? Reaprenda a brincar criativamente !

No livro “Play: How it shapes the brain, opens the imagination, and invigorates the soul”, Stuart Brown e Christopher Vaughan dizem que o termo “jogo sério” foi usado nos últimos 20 anos para dizer que o jogo não é apenas algo fútil e bobo quando é aplicado na resolução criativa de problemas. A inteligência criativa é, em sua essência, uma inteligência para o uso produtivo do PLAY e do humor com foco na resolução criativa de certas questões.

E é exatamente essa brincadeira séria que propomos no Playstorming.

O termo “jogo sério”, criado pelo psicólogo e professor americano Kenneth Gergen, foi definido pelo autor como “Um estilo de comunicação que explora semelhanças e diferenças, não por desconstruir o ponto de vista do outro, mas por, através do Play, explorar novas combinações de perspectivas”.

Em “A whack on the side of the head: How you can be more creative”, Roger Von Oech escreve que “Há uma relação estreita entre o ‘haha’ do humor e o “aha” de descoberta”, e segue dizendo que “o riso é como se fosse um acidente de trem para a mente, suspende o pensamento racional e nos coloca no momento atual, abrindo os caminhos para novos tipos de pensamento. O que ele faz é, metaforicamente, abrir os canais cranianos e permitir que o pensamento criativo e inovador apareça”.

A emoção positiva causada por diversão, pelo jogo, que no nosso caso vem muito atrelado ao jogo teatral, pode ampliar o repertório de pensamento/ ação de um indivíduo, facilitando um pensamento flexível, criativo e inusitado. O que vai resultar em novos insights, no surgimento de novas práticas eficazes, mais flexíveis, e em soluções originais e inovadoras. O Playstorming é, sobretudo, um conjunto de técnicas, jogos, exercícios e atividades que desenvolvem esse estado emocional positivo. E isso chamamos de inteligência criativa.

E não se surpreenda se um dia você acabar se divertindo muito, em cima de uma mesa, imitando… Uma galinha!

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Rodrigo Najjar

Rodrigo Najjar

É ator, diretor, pesquisador e documentarista. Trabalha com pesquisa etnográfica aplicada ao design e inovação, e é professor de pesquisa etnográfica e comportamento no Master “Industrial Design” e “Design estratégico” no Istituto Europeo di Design em São Paulo. Estudou Artes Cênicas e Artes Visuais, trabalhou como apresentador e produtor de televisão. Como ator fez teatro, cinema, dublagem. Hoje tem a Playstorming, uma empresa de treinamento e consultoria em criatividade e inovação. Site Playstorming: http://www.playstorming.com.br

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