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Inovação não é colar post-it na parede

Multicultural | Rodrigo Najjar 23/01/14 - 09h Rodrigo Najjar

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Design Thinking, Inovação, Human Centered Design: todas essas “metodologias” estão pipocando nas empresas e nos cursos empresarias já faz algum tempo. E isso é ótimo! As metodologias são incríveis, bem estruturadas e realmente dão resultado. E, mesmo assim, encontramos por aí um número grande de empresas que investiram os tubos em inovação e hoje se dizem decepcionadas. Quando entramos nessas empresas, percebemos que eles estão fazendo tudo certo. E é exatamente aí que está o problema.

Tim Brown, CEO e presidente da IDEO, em seu livro, “Design Thinking”, diz que “é necessário conceder a uma equipe criativa o tempo, o espaço e o orçamento para cometer erros. Indivíduos, equipes e organizações que dominaram a matriz do Design Thinking têm em comum uma atitude básica de experimentação. Eles se mantém abertos a novas possibilidades. Atentos a novos direcionamentos e sempre dispostos a propor novas soluções.”

Design Thinking, Inovação e os processos de criação centrados no ser humano não são como uma ciência exata. Eles são processos exploratórios, erráticos, investigativos. A criatividade também é assim. E sem a ativação da criatividade não há Inovação.

Inovação e criatividade não são a mesma coisa. Mas não existe inovação sem criatividade. Vou repetir: não existe inovação sem criatividade.

Parece óbvio mas não é.

Muitas empresas iniciam um esforço em inovação, criam um departamento, contratam especialistas, seguem os passos dos livros dos papas do assunto e, mesmo assim, dão com os burros n’água. Isso porque seguir todos os passos de uma metodologia não é o suficiente quando ela exige criatividade. É preciso experimentação, erro, ousadia, Play…

Também parece óbvio. Mas não é.

Uma vez, estávamos trabalhando numa empresa que havia investido uma grana preta numa sala para inovação. A sala era incrível. Podia-se escrever diretamente nas paredes com canetas coloridas, havia pufes coloridos espalhados pelo chão, brinquedos, lego e, claro, muitos post-its fazendo mosaicos pelas paredes… Tudo muito lindo, muito branco, muito asséptico e perfeito para “despertar a inovação”. Durante uma das reuniões que tivemos nessa sala, comecei a rabiscar um desenho qualquer numa folha de papel com as canetas coloridas que estavam na minha frente. Terminei minha obra e a colei na parede, que ainda estava vazia e imaculadamente branca. Modéstia à parte, eu desenho direitinho. Quando retomamos a reunião, uma especialista em marketing e inovação que trabalhava na empresa viu o desenho colado na parede, elogiou e prontamente o retirou de lá e o colocou no lixo, deixando a parede novamente limpinha e branca. Concluímos que ela deve ter se incomodado por haver um corpo estranho na sua linda e branca sala de inovação. Ela não tinha a atitude propícia à inovação, queria organizar e “limpar” o espaço com o mesmo rigor que organizava e limpava sua mesa no escritório. Ela não entendera que a sala branca não deveria permanecer branca, por ser um espaço para a brincadeira, a experimentação e a constante expressão de ideias novas, fossem elas boas ou más. Esse episódio nos deu a resposta para a pergunta que nos fazíamos: por que, apesar de todo o investimento, a inovação não decolava? Quando comentamos o acontecido com a equipe, todo mundo riu, até a moça que havia tirado o papel da parede. Essa passou a ser a nossa primeira questão nessa empresa: como preparar as pessoas para que elas risquem as paredes brancas da sala de inovação, desenhem, brinquem, se arrisquem, errem, criem, experimentem e, sobretudo, suportem o “caos criativo” que essa sala precisa para sobreviver? Os funcionários da empresa precisavam mais do que uma sala, eles precisavam de atitude criativa.

Essa é a proposta de trabalho da Playstorming, preparar pessoas para inovação através do desenvolvimento da criatividade e da Inteligência Criativa com um método que desenvolvemos para isso.

David Kelley, fundador da IDEO e criador da D. School Stanford e seu irmão Tom Kelley, seu parceiro e autor do best-seller “A arte da Inovação”, vão lançar em outubro desse ano “Creative Confidence: Unleashing the Creative Potential Within Us All”. No livro, eles mostram que cada um de nós é criativo, e que criatividade, ao contrário do que se pensa, não é domínio de “tipos criativos”. Eles identificam os princípios e estratégias que nos permitem tocar em nosso potencial criativo no trabalho e em nossas vidas pessoais, e nos permite inovar.

Outro livro, já lançado em março de 2013, “Creative Intelligence: Harnessing the Power to Create, Connect, and Inspire”, Bruce Nussbaum, que é professor de inovação e design na Parsons School of Design, comentarista e curador sobre design, criatividade e inovação, investiga as formas com que os indivíduos, corporações e nações estão aumentando sua inteligência criativa e como isso se traduz em suas habilidades para fazer novos produtos e resolver problemas.
Não há nada de “raro” sobre a criatividade, que é algo que todos podemos cultivar. Inteligência Criativa pode ser encontrada em vários campos e disciplinas, em todas as esferas da vida. O mais importante, Inteligência Criativa é social: nós aumentamos a nossa capacidade criativa aprendendo com os outros a colaborar e a compartilhar”, diz Nussbaum.

Propagar a criatividade como cultura aparece agora como a quintessência da Inovação. E fica claro que o que faz a Inovação não é apenas a sala colorida, nem a austeridade dos passos do processo, mas principalmente a atitude mental curiosa e exploratória que as pessoas devem tomar para si. Decididamente, inovação não é apenas colar post-its na parede.

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Rodrigo Najjar

Rodrigo Najjar

É ator, diretor, pesquisador e documentarista. Trabalha com pesquisa etnográfica aplicada ao design e inovação, e é professor de pesquisa etnográfica e comportamento no Master “Industrial Design” e “Design estratégico” no Istituto Europeo di Design em São Paulo. Estudou Artes Cênicas e Artes Visuais, trabalhou como apresentador e produtor de televisão. Como ator fez teatro, cinema, dublagem. Hoje tem a Playstorming, uma empresa de treinamento e consultoria em criatividade e inovação. Site Playstorming: http://www.playstorming.com.br

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