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A Falta De Tempo É Um Problema Seu? Essa Pesquisa Tem Provado Que Não

Multicultural | Thais Polimeni 05/04/17 - 04h Thais Polimeni

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Uma das coisas que eu sinto o maior orgulho de mim mesma é quando eu vou a algum evento inspirador e produtivo; aquele evento que não tem só mais do mesmo; quando público e realizadores apresentam problemas e soluções que saem do lugar-comum. Na semana passada, participei da Roda de Conversa sobre o “Uso sustentável do tempo“, realizada pelo Itaú Mulher Empreendedora e pela Rede de Mulheres Líderes pela Sustentabilidade, e saí do CUBO cheia de ideias e orgulhosa não só de mim mesma, mas de todas essas mulheres que desenvolvem um trabalho tão inovador e socialmente transformador.

Com o apoio da ONU Meio Ambiente, 400 brasileiras em posições de liderança operam de forma colaborativa e voluntária em projetos que envolvam a sustentabilidade nesta Rede de Mulheres Líderes pela Sustentabilidade. Um dos principais eixos de ação da Rede é a promoção de estilos de vida sustentáveis e é aí que entra o uso sustentável do tempo, tema que gera infinitas discussões, desde as mais pragmáticas até as mais filosóficas (são dessas que eu mais gosto!).

Foram cerca de duas horas de apresentação e dinâmicas que visavam à coleta de informações para a pesquisa “Produzir, Consumir, Viver e Imaginar: padrões sustentáveis de uso do tempo“, coordenada por Samyra Crespo, cujo resultado tem previsão de publicação para junho deste ano. Um dos pontos abordados que chamou minha atenção foi a divisão do tempo em 5 tipos:

1) Tempo produtivo (trabalho);
2) Tempo de casa (afazeres domésticos);
3) Tempo do ócio (lazer e descanso);
4) Tempo dos afetos (relações afetivas: amizade, casamento, família, etc)
5) Tempo roubado (trânsito, espera pra ser atendido, etc).

Me identifiquei enormemente quando foi declarado que nossa sociedade tende a valorizar apenas o tempo produtivo e, quando usufruímos os outros tempos, costumamos tentar compensar aumentando o tempo “produtivo”. Assim, essa atitude, na maioria dos casos, faz as pessoas repetirem o discurso do “Estou sem tempo“, um sintoma que acreditamos ser individual, mas que é um problema sistêmico. Não somos nós que estamos sem tempo: é a ausência de soluções coletivas que contribui para essa sensação. A sociedade está fazendo escolhas ruins e, como geralmente estamos no piloto automático, sofremos com essas más escolhas.

Um dos autores citados foi Domenico de Masi (amo! – leia aqui um pouco sobre ele), cuja obra mais famosa é “O Ócio Criativo”. Domenico apresenta a seguinte lógica: uma pessoa “sem tempo” não encontra tempo para atividades criativas; atividades criativas potencializam o desejo de viver; uma pessoa que não estimula a criatividade – lembrando que todo mundo é criativo – é uma pessoa triste, doente; uma sociedade sem tempo é uma sociedade doente.

O problema da falta de tempo dificilmente vai ser solucionado de forma individual. Deve haver mobilização social e coletiva para chegamos a uma solução. Na roda de conversa, foi citado que já existem algumas cidades que possuem Secretarias do Tempo (segundo Samyra, há 18 no total, que fazem parte da rede de Cidades Sustentáveis), que estudam soluções para que seus habitantes possam desfrutar das 24 horas do dia de forma sustentável.

Uma cidade que vem repensando essa relação do tempo é Nova York: o governo de lá tem dado preferência para que novas construções criem espaços de convivência para que as pessoas possam se encontrar em um ambiente que una o tempo do ócio ao tempo dos afetos, promovendo o bem-estar e o placemaking (clique aqui para saber mais sobre placemaking).

Portanto, se você tem sofrido com a falta de tempo, saiba que esse problema é de todos: seu, meu, da iniciativa privada, dos governantes, do sistema de ensino… Se tem solução? Só de você ter lido o post até aqui prova que sim, prova que há interesse em solucionar e em debater. A mudança tem que ser coletiva, então vamos aplicar a sugestão de Gandhi e incentivar esse debate, vamos ser a mudança que queremos ver no mundo!

Photo credit: LauraLA2008 via Visualhunt.com / CC BY-NC

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni