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Pelé – A “ovelha branca” do futebol brasileiro

Adriano Tardoque | Multicultural 24/09/13 - 11h Adriano Tardoque

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Quando Emílio Garrastazu Médici toma posse da presidência da República em 30 de outubro de 1969, sua paixão pelo futebol vai além do limite de torcedor, e sua influência é direta no esporte. Logo, o advento de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, surge como saída mais do que desejosa para a propaganda de governo que fará de sua imagem o símbolo do país em desenvolvimento:

(…) Grudado no radinho de pilha – imagem que o aproximava do ‘homem comum’ -, o novo presidente se arriscou várias vezes a frequentar estádios lotados, não raro tendo sua presença anunciada pelos alto-falantes. Promovia-se assim uma importante estratégia de propaganda da Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), no sentido de transformar o general Médici em torcedor número 1 da nação, articulando os trunfos futebolísticos à imagem de Brasil-potência que o governo se esforçava em difundir. (…) À medida que a copa de 1970 se aproximava, as possibilidades da interação futebol-poder se ampliavam. Ainda em 1969, apresentou-se uma oportunidade sem igual para o governo: a festa comemorativa em torno do milésimo gol de Pelé, conquistado pelo craque, em novembro, no Maracanã. Nos dias seguintes a seu feito sensacional, Pelé desfilou em carro aberto em Brasília, sendo recebido pelo presidente Médici, que lhe concedeu a medalha de mérito nacional e o título de comendador. No jogo seguinte do Santos no Mineirão, o atleta recebeu uma coroa de ouro do Império, ao mesmo tempo em que era produzida uma infinidade de marcos comemorativos como medalhas, selos, bustos, placas e troféus” [1]

A propaganda foi uma das armas de repressão mais eficientes do início da década de 70. Amparado por uma sensação de bem estar, muitas vezes apoiada pela simples proliferação de bens de consumo, sobretudo o aparelho de televisão, o regime trabalhava de forma objetiva no uso da mesma para angariar aceitação popular:

O governo Médici não se limitou à repressão. Distinguiu claramente um setor significativo, mas minoritário, da sociedade, adversário do regime, e a massa da população, que vivia um dia-a-dia de alguma esperança nesses anos de prosperidade econômica. A repressão acabou com o primeiro setor, enquanto a propaganda encarregou-se de, pelo menos, neutralizar o segundo. Para alcançar este último objetivo, o governo contou com o grande avanço das telecomunicações no país, após 1964. As facilidades de crédito pessoal permitiram a expansão do número de residências que possuíam televisão: em 1960, apenas 9,5% das residências urbanas tinham televisão; em 1970, a porcentagem chegava a 40%. Por essa época, beneficiada pelo apoio do governo, de quem se transformou em porta-voz, A TV Globo expandiu-se até se tornar rede nacional e alcançar praticamente o controle do setor. A propaganda governamental passou a ter um canal de expressão como nunca existira na história do país. A promoção do “Brasil grande potência” foi realizada a partir da Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), criada no governo de Costa e Silva, mas que não chegou a ter importância nesse governo. Foi a época de “Ninguém segura este país”, da marchinha Pra frente Brasil, que embalou a grande vitória brasileira na Copa do mundo de 70”. [2]

Consagrado tricampeão do mundo no México, o Brasil era, por meio da ditadura militar, embebido com ufanismo e “otimismo”:

Em pleno carnaval da vitória de 70, o general Médici, ditador do Brasil, presenteou com dinheiro os jogadores, posou para os fotógrafos com troféu nas mãos e até cabeceou uma bola na frente das câmeras. A marcha composta para a seleção, “Pra frente, Brasil”, transformou-se na música oficial do governo, enquanto a imagem de Pelé voando sobre a grama ilustrava, na televisão, anúncios que proclamavam: “Ninguém segura o Brasil”.” [3]

O governo do general Médici foi, de longe, o mais violento das ditaduras brasileiras. Enquanto a sociedade centrava-se na participação do país no mundial e comemorava um milagre econômico (cujo prazo de validade não consultou), as esquerdas que levantaram suas armas contra o regime eram caçadas e desintegradas, ao mesmo tempo em que a chamada “oposição legal” atingia seus índices mais baixos no poder legislativo. Pelé, cujo status não encontrava fronteiras pelo mundo, finalmente fala sobre o seu país, ainda que suas palavras passem muito longe da realidade:

Inquirido, em 1972, sobre a ditadura militar em seu país, Pelé respondeu: Não há ditadura militar no Brasil. O Brasil é um país liberal, uma terra de felicidade. Somos um povo livre. Nossos dirigentes sabem o que é melhor para nós, e nos governam com tolerância e patriotismo” [4]

Se por um lado Garrincha representava no futebol o país que não dava certo, pois não seguia regras disciplinares e conduta de vida vistosa, além de se relacionar com pessoas “erradas”, por outro, Pelé representa não somente os interesses do regime político do país, mas também a ausência da própria voz como representatividade social do negro:

Pelé nunca conclamou os negros ou os pobres a aspirar ao sucesso que ele tinha conseguido, suas mensagens se encaixavam claramente nos valores que prevaleciam na sociedade brasileira. Quando Mohamed Ali, então Cassius Clay, recusou o alistamento no exército americano, Pelé criticou-o publicamente, relembrando seu próprio serviço militar” [5]

No ano de 1961, Pelé lança uma autobiografia, analisada pelo Professor Matthew F. Shirts, da Universidade de Barckley (EUA), especialista em Literatura Futebolística, observando o livro dentre certa periodização deste tipo de escrita:

Neste quadro, surge, em 1961, “Eu sou Pelé”, a autobiografia do mundialmente conhecido jogador. Trata-se, na verdade, de um depoimento recolhido e escrito pelo jornalista Benedito Ruy Barbosa (atualmente dramaturgo). A linguagem é simples, simplicíssima. História narrativa, linear, começa com o próprio nascimento do Pelé – “é assim que eu imagino a cena da noite do meu nascimento… (p.12)” – , terminando com a promessa de defender “o próprio Santos até quando puder, mas será apenas pelo prazer de jogar, pela alegria de ser útil à Pátria… (p.185) (…)”. Facilmente lido e entendido, e enquadrado em um meio tipicamente popular, esta obra presta-se à demagogia. Aliás, a demagogia parece ser uma constante na vida pública de Pelé. Seja como for, “Eu sou Pelé” é maciçamente moralista. Constrói-se a “figura Pelé” para o consumo de massas. Ele é pintado como o “moreninho bonzinho” que, embora tenha deixado a escola, “subiu” na vida por ter respeitado cegamente todas as regras estabelecidas” [6]

Assim, quase uma década antes, o próprio Pelé já trabalhava uma imagem que foi amplamente explorada nos anos de chumbo, sobretudo no governo Médici. É compreensível que sua imaturidade (aos vinte anos) tenha lhe conduzido para as luzes de tudo que o futebol trazia. No entanto, na Copa de 70, seus trinta anos lhe poderiam ser suficientes para uma nova observação de seu contexto.

Em 1974, Pelé transfere-se para os New York Cosmos (EUA), clube conhecido mais pela contratação de grandes nomes do futebol (Franz Beckenbauer, Johan Neeskens, Carlos Alberto Torres, George Best, Johan Cruiiff, por exemplo) do que essencialmente pela tradição futebolística (que os norte-americanos ainda não conseguiram). Interessava não mais o jogador de futebol, mas o mito, a imagem.

Este mesmo ano ficaria marcado pelas grandes mudanças mercadológicas e comerciais promovidas no futebol mundial (com velocidade acelerada, pelas mãos de João Havelange), e pela política brasileira (“lenta, gradual e segura”).

[1] Agostino, Gilberto. “Aquela corrente pra frente”. In: Nossa História. Ano 2 / n.o 14 – Dezembro/2007. p.17
[2] Fausto, Boris. História do Brasil. p. 484
[3] Galeano, Eduardo. Futebol ao Sol e Sombra. p. 136-137
[4] Entrevista cedida por Pelé, a Amália Barran, in: La Opinion (Montevideo), 1972, recorte cortesia de Leoncio Basbaum, citado por Levine, Robert M. “Esporte e Sociedade: O caso do futebol Brasileiro”. In: Maihy, José Carlos Sebe B; Witter, José Sebastião (org). Futebol e Cultura – Coletânea de Estudos. p.36
[5] Levine, Robert M. “Esporte e Sociedade: O caso do futebol Brasileiro”. In: Maihy, José Carlos Sebe B; Witter, José Sebastião (org). Futebol e Cultura – Coletânea de Estudos. p.36
[6] SHIRTS, Matthew G. “Literatura Futebolística: uma periodização. In: Futebol e Cultura – Coletânea de estudos. MEIHY, José Carlos Sebe Bom; Witter, José Sebastião (org). São Paulo. IMESP/DAESP. 1982. p. 55

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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