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Rap É A Poesia Marginal Da Resistência

Música | Thais Polimeni 04/01/17 - 03h Thais Polimeni

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Andrézão GDS é um dos rappers mais atuantes na cena cultural nordestina. Morador da capital cearense há cerca de 4 anos, Andrézão encontrou, na cidade, fontes variadas de inspiração e parcerias. Nós, da Cult Cultura, conhecemos o Andrézão da época da faculdade e fizemos uma entrevista à distância com ele nesse momento grande intensidade criativa, com lançamento de novas músicas e shows confirmados em diversas cidades do Nordeste.

Como foi uma longa conversa, dividimos em duas partes. Nessa primeira parte, Andrézão conta sua trajetória na música desde criança (ele não teve formação clássica. Aprendeu na vida!), seu processo criativo e a importância do hip hop na formação do cidadão.

Além disso, Andrézão GDS já nos garantiu uma entrevista para nosso canal no Youtube, quando ele vier pra Sampa (ou quando formos pra Fortaleza, quem sabe!). Enquanto isso, confiram a primeira parte do bate-papo, abaixo, ao som de Andrézão GDS (clique aqui para ouvir o SoundCloud)

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Na época da faculdade, você já era bem ligado à música. Como surgiu esse interesse? Você estudou música desde pequeno?
[ANDRÉZÃO GDS] A minha história com a música começa com a televisão: MTV e os programas infantis, todos tinham músicas. Eu era pivete, classe média em São Paulo, da Zona Norte, e no apê em que eu morava com meus coroas, tinha um toca disco. Quando eu era criança, o meu irmão mais velho tinha 3 discos de vinil que eram dele: 2 da Xuxa e 1 do Menudo. Eu era muito novo, não tinha nenhum, mas já tinha certeza de que o Michael Jackson era o cara mais foda do mundo.

Foi o Michael Jackson meu primeiro contato mais profundo com a música, quando eu realmente tive o interesse e a necessidade de entender e compreender a música toda. Começava a imaginar por onde o Michael Jackson iniciava o processo criativo pra compor as músicas dele, pra tentar aprender algo simplesmente ouvindo com atenção.

Depois de uns anos, o coroa apareceu com um toca CD e ai veio essa nova era. Como se fossem os anos dourados pra quem nasceu nos anos 80, teve essa época do CD, que foi realmente muito marcante. O primeiro CD que eu tive foi o “Dangerous”, do Michael Jackson, mas depois, com os encontros na Galeria do Rock, eu comecei a ir pra rua muito cedo por conta da minha fome de conhecer as bandas de rock, junto com meu irmão. Na época, tinha Nação Zumbi e Raimundos representando o Nordeste, e os Mamonas e Planet Hemp começando a detonar. Então eu ficava sempre instigando os outros moleques da escola: “Ei, vamos pro show ali… Vai ser louco!“. Mas geralmente ou eu ia com meu irmão, ou eu ia só mesmo.

Eu comecei a fazer as coisas sozinho muito cedo pela cidade. Junto com a viagem do Rock’n’Roll eu também pirava nos quadrinhos. Mais ou menos entre 1996 e 1997 eu tinha essa viagem de ir pra Galeria ficar sacando as lojas de discos. Então o centro virou a referência pra mim. Eu já estava todo dia de rolê no Centro nos anos 1999, 2000 e 2001. Ali foi a minha formação nas ruas, pelo centrão, old school, Galeria do Rock, do rap. Foi lá com certeza que eu tive o primeiro contato direto com o Rap, porque nessa época você chegava na Galeria, era certeza que tu ia encontrar lá vários rappers, entre eles o Sabotage.

Ainda tinha também os rolês que a gente fazia jogando uns rachas* com os moleques da escola que eu estudava. A gente tinha um time bem embaçado, porque juntava uns moleque bons de vários lugares da cidade, e a gente não tinha quadra na nossa escola, então o nosso rolê era sair marcando uns rachas em cada quebrada de São Paulo e ia desafiando outros times nas áreas deles. Então, junto com a música, a minha viagem desde moleque sempre foi o futebol.

Quando eu cheguei na faculdade, eu já tinha tocado em umas 3 bandas, conhecia uma porrada de coisas, e nessa época estava começando a abrir bastante a internet banda larga e aí o acesso às coisas mudou muito rápido. A gente já tinha anseio por conhecer tudo, de repente, tudo aquilo estava disponível! Foram anos muito loucos, a gente vivia trocando sons, colando em festivais gigantes, rolando direto pela cidade. Foram anos de glória pra quem era cria das velhas lojas de discos do centros.

Eu lembro que durante a faculdade, o meu interesse continuava maior na música do que no curso e também mais motivado a produzir arte do que pela ideia de ter uma carreira dentro do mercado.

Foi quando, além de bandas de rock que eu já mantinha na ativa, comecei a trabalhar também com música eletrônica. Esse tempo todo a gente vivia também o rap, mas como público. Eu fui conhecer os primeiros beatmakers a fortalecer na parceria já por 2007, quando eu tocava uns instrumentos em cima de umas bases. E enquanto rolavam alguns projetos ligados à cena eletrônica, vinham rolando junto essas produções de rap. Ali era uma nova escola chegando pesada com Caos Beats, DJ Caique e vários outros, e esses caras estavam produzindo muito, já. Foram vários encontros ao longo dos anos até a minha chegada a Fortaleza, vindo de Floripa. Junto com essa mudança pro Ceará, amadureci essa ideia de me apresentar como MC e foi desde 2013 que eu vim com esse trabalho.

O meu caminho na música não foi o caminho convencional. Eu não tenho formação clássica, eu sempre aprendi os instrumentos com outros amigos e ouvindo e, dessa forma, conhecendo as melodias, poder reproduzi-las nos instrumentos. A minha formação então é de rua, é marginal, talvez por isso eu tenha chegado até o rap, que é também a poesia marginal da resistência.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Em que momento você se aproximou do rap e hip hop? O que esse movimento significa pra você?
[ANDRÉZÃO GDS] Eu lembro que o meu interesse por hip hop foi também um processo de desconstrução, porque o sistema é foda. Você nasce no mundo e as coisas são como elas são, e você não concorda e gostaria que fosse diferente, mas isso não impede que as pessoas te confundam. Elas querem que você seja mais um pra dizer “É isso mesmo e já era“. Ainda mais quando você é branco… Toda vez que você diz “Não, isso é uma merda, foda-se o que vocês estão me dizendo. Eu não sou um racista e não vou aceitar essa porra“, eles não suportam ser chamados de racista, eles negam.

Então o significado do rap é justamente toda essa desconstrução que eu fiz na minha vida. Foi através da música, a vivência na rua e o rap que eu me tornei o que eu sou. Nos anos 90, a gente ficava na instiga de ir nos bailes de rap, mas não podia, porque a gente era os moleques branco de Santana. É foda, era assim, a gente entendia que não era a nossa vez ainda de curtir um rap, e a gente se contentava com o punk rock e o hardcore que rolavam com força na época. E tinha toda essa questão do racismo rolando, também. Porque tinha gangue fascista, e tinha uma galera que entendia que aquilo era inaceitável, e se juntava mesmo geral pra cobrar.

Com o tempo, as coisas mudaram. As ruas mudaram bastante, o estado policialesco gerou um cidadão mais robotizado. Só que a cidade é um monstro, e essa movimentação multicultural tomou conta da cidade. Já por volta de 2006, eles não tinham mais como controlar e começaram a elitizar os eventos, aumentaram os preços, e quando eles menos esperavam veio o Haddad. É louco isso, né? E agora o Dória. Então a gente pode ver o papel da mídia nisso tudo.

O rap acompanhou toda essa movimentação. Teve a fase que tava super em baixa, nos anos que seguiram aquela famosa treta no show dos Racionais na Virada Cultural, e depois ele ressurgiu com tudo ali em 2009. Foi justamente essa retomada e esse resgate que levou o povo da periferia a acreditar numa mudança, que era preciso mudar a cidade em vários aspectos.

O rap mudou. Desde os festivais lá no ABC, quando finalmente abriu a parada, colava geral, preto e branco, classe média e favelado. Foi quando todos os maloqueiros já viviam o rap na essência, a cidade pulsava na batida do rap e o sentimento era de igualdade. Outro dia, eu estava na Paraíba, trocando ideia com meu mano Giga Brow, um grande artista que vive em João Pessoa, e ele estava me contando de como eram as correrias nessa época, e eu dizendo pra ele de como aquela festa tinha sido importante pra nós, também.

O racismo não era tolerado como hoje em dia, com esses cuzões na TV saudando Bolsonaro e idiotas como Danilo Gentili. Esses caras são nojentos, mano. Você vai deixar esse cara perto de uma amiga sua, de uma namorada sua? Nem fodendo, irmão.

Na minha música nova, eu falo um pouco disso, das escolhas, da vivência, as possíveis versões de uma mesma pessoa, porque eu tinha tudo pra ser um coxinha, por exemplo. Se eu tivesse seguido nessa trilha do sistema, facul, trampo, carreira… Era tudo já no esquema, sem riscos, muito poucas chances de dar errado. Eu teria meu lugar ao sol numa agência ou numa multinacional, mas, mano, na moral, eu não queria hoje ser outra pessoa que eu era no passado. A gente vai brincar um pouco com isso no clipe da primeira faixa do EP que estamos produzindo. Essa versão falsa de si próprio, o disfarce. E quem veste o Paletó em Brasília? E quem regula a Mídia?

O rap esteve presente na minha vida em todos esses momentos de desconstrução: pra não ser um racista, pra não ser um machista, pra não ser um consumista, um cara egoísta, pra não ser mais um zé enrolado pela mídia, pela igreja, pelo patrão. E além disso, o rap ainda é uma música que traz pro cara todos valores de como proceder, com humildade, igualdade e respeito. Você tá vendo o que as mina estão fazendo com o rap? Estão ocupando o espaço que é delas, se liga? E olha a porra do Temer, mano. É muito revoltante!

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Suas composições de rap também têm influências da música negra, como jazz, soul, blues, reggae e rock. Você se inspirou em alguém pra criar esse som ou foi uma inovação sua?
[ANDRÉZÃO GDS] Eu acho que nós nunca tivemos essa pretensão de inovar, eu simplesmente não acredito nisso. Tudo é uma cópia, ou uma mistura de algo. Não existe hoje como acompanhar, no meio desse vortex de informação, humanamente impossível de se processar tudo o que é produzido e circula nesse planeta. Tudo isso girando num fluxo frenético, isso cansa só de pensar, macho. Como então afirmar que você inventou algo, que aquilo é sua propriedade intelectual? Acho isso muita pretensão.

É tipo aquele desenho na caverna do dragão, a gente fica preso pelo passado se o cara não desapegar. O lance é desapegar, mesmo, porque, na real, a verdade é uma estrada sem caminho. Por isso que eu digo não à propriedade intelectual. Eu tenho sérios problemas pra entender essa ideia da galera ouvir o som na internet e eu ganhar dinheiro por isso. Eu sou um cara da rua, eu só acredito na pessoa que compra o CD na minha mão. O que tem de fã do Pink Floyd que comprou toda discografia pela Internet, e que hoje é um porcão fascista, tá inteirado?

Eu vinha buscando essa raiz na minha própria revolução, nessa trilha pelo autoconhecimento, que se intensificou com a minha mudança de São Paulo pro Ceará. Foi quando realmente eu encontrei todas essas influências que estavam dentro de mim, pelos vários anos que eu estudei e me dediquei à música. No primeiro disco, eu quis dar um foco maior na musicalidade negra, que é justamente a maior fonte, onde está a raiz pra se fazer beats originais de rap. Então não considero que foi nenhuma inovação.

Nós fizemos o primeiro disco, “Na Certeza do Groove”, num processo bem tradicional dentro da cultura hip hop, todo produzido com samples de vários estilos e beats originais, tudo na parceria com Caos Beats. A gente fez questão de fazer uma parada com originalidade. Eu ia escolhendo os beats que eu sentia que casavam com essa proposta, fazia as letras e às vezes as ideias fluíam e eu só pedia pra ele dobrar ou esticar, fazer umas viradas. Então, mesmo à distância, o fluxo ia sempre num ritmo massa. Enquanto eu gravava umas ele mixava outras. E estamos fazendo a mesma coisa agora pro segundo álbum.

Não tem como eu dizer que um artista me inspirou, foram vários, em vários momentos, cada música desse trabalho como Andrézão GDS eu sentia que tinha um flow, já que estava dentro da batida. Eu sinto que o beat é que pede, e muitas vezes a ideia já surgia com essa viagem, tipo “essa parte aqui tem que ser no estilo Sabotage“, “essa aqui eu vou soltar uma vibe como Tim Maia‘… A gente brincava um pouco com isso no estúdio, a gente quer também deixar transbordar um pouco das nossas influências. Depois tu tá na rua e um chapa te encontra e fala que tua pegada lembra o B Negão e pá. Aí tu fala: “Meu chapa, já deu certo!“. Quando faz lembrar os mestres, então, a gente sabe que tá conseguindo fazer isso com dignidade.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Como acontece o processo de criação de um rap? Você parte de quais referências para criar as letras? Pergunta clássica: primeiro vem a letra ou a melodia?
[ANDRÉZÃO GDS] São vários processos. Eu não tenho um processo fechado. Eu escrevo direto, todo dia eu estou lendo, e escrevendo. É uma parada que eu aprendi com um amigo meu, que é o Vitor Rolim, um muralista foda, também. A gente tem uma trajetória parecida, ele é mural, mas não veio do grafite, eu sou rap, mas não vim da favela, então a gente também não precisa fingir. E ele dizia isso, que, pra ele, a única forma possível de aprimorar a arte dele era desenhando todo dia. A única forma de você se tornar um mestre. E quando eu era mais jovem, eu tinha muita dificuldade com isso. Eu tinha como filosofia de vida a desobediência, e por isso também era bem indisciplinado. Eu sempre gostei de fazer só as coisas que eu tinha vontade e eu continuo pensando dessa forma, e até acho que isso deveria ser uma lei imutável e irrevogável da vida. Mas nós estamos mesmo aceitando a escravidão moderna, aceitando que eles decidam por nós. É complicado esse momento de aceitação, submissão.

Então, um rap surge assim, como uma resposta a uma pergunta, uma afronta a algo que não aceitamos, são sempre pedaços de reflexões, filosofia misturada com vivência da rua, muita referência musical e teórica. Tem que realmente estar tudo muito bem encaixado, porque a responsa de ser rapper é gigante. Ser um rapper branco, você também não pode vacilar jamais. Ser um cara de São Paulo em Fortaleza é mais outra provação constante. A gente está sempre ligado em tudo, justamente pra não dar furo. E o cuidado maior é pra não virar policial do rap. A gente tem, sim, o dever de orientar, debater e até intervir se for necessário quando um discurso destoa de todo aquele consenso que foi arduamente construído, mas o rap é livre. Podemos falar sobre qualquer coisa, pode ser real, pode ser lúdico, só não pode ser falso. O que é falso não traz qualquer satisfação pra nós. A nossa vertente não se corrompeu como eles pensavam.

Mas voltando ao processo criativo, com relação às bases, são vários processos. Além do processo original que foi desenvolvido pro primeiro disco, eu vim fazendo, nos últimos meses, parcerias com diversos artistas de Fortaleza, é muita gente boa mesmo com quem dividi o palco e algumas músicas já gravadas em parcerias e que rolam nos festivais por aí. Então o MC tem que estar pronto, as oportunidades aparecem, você tem que ter um desempenho à altura do que as pessoas esperam de ti. É uma parada complexa nesse aspecto. E eu venho me jogando em várias áreas onde eu realmente sou quase um invasor, mas a gente se mistura e consegue fundir nossa poesia com outros ritmos de uma forma que a ideia se consolide. Uma só mensagem, construída com várias pequenas mensagens e, no caso das parcerias, por diferentes perspectivas, chegar num consenso. É isso que tá faltando na nossa sociedade, mas, como artistas, a gente consegue mostrar pras pessoas que isso é possível.

Eu leio muito sobre a história do rock, das artes, das revoluções, dos revolucionários. Não leio tanto as teorias, não tenho uma bibliografia tão vasta, já a discografia está sempre expandindo, eu estou sempre pesquisando e ouvindo coisas novas e antigas. Procuro na arte as referências pra fazer as letras, que se misturam às vivências, porque eu faço música no presente, que eu considero o contexto de cada obra. Cinema e quadrinhos são outra fonte que eu sempre faço referência.

É capaz de eu responder essa mesma pergunta amanhã e falar uma coisa completamente diferente pra vocês, porque eu não sei como vai ser o próximo rap que eu vou gravar. Os processos são realmente abertos. Podem me chamar, eu aceito desafios.

* [Nota da editora] Jogar um racha é disputar uma partida de futebol (achei que fosse aqueles rachas de carro, kkk)

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A segunda parte da entrevista irá ao ar nesta quinta-feira aqui na Cult Cultura. Andrézão GDS falará sobre política, militância cultural, parcerias e, claro, hip hop. Curta aqui a FanPage de Andrézão GDS e ouça as músicas no SoundCloud!

Contato para shows
andregds13@gmail.com
85-9740-9054

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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