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Tem Muita Coisa Legal Pra Ser Mostrada Sobre O Hip Hop Cearense

Música | Thais Polimeni 05/01/17 - 11h Thais Polimeni

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Nessa segunda parte da entrevista com Andrézão GDS (leia a primeira parte aqui), o rapper se posiciona politicamente como ativista cultural e formador de jovens artistas.

Pra entrar no clima da entrevista, ouça o som de Andrézão aqui no SoundCloud. Os links das mídias sociais estão no final do post.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Como foi criado o Coletivo Maloqueria? Você continua participando dele?
[ANDRÉZÃO GDS] O Coletivo Maloqueria é a banca de Fortaleza com quem eu fiz a minha história no rap nacional. Eu tenho uma honra muito grande de fazer parte dessa história, de ter sido acolhido por essas pessoas com trabalhos tão ricos, grandiosos em todos os sentidos que você possa imaginar, são realmente pessoas iluminadas.

O Maloqueria começou quando eu já estava fazendo vários shows junto com o Roni Flow, que ia me convidando pros esquemas que ele desenrolava na época, e quando eu conseguia algumas pontas na Praia de Iracema, eu também contava com ele. Logo depois, a gente começou a juntar com a Carol Rebouças e foi quando deu a liga. A Carol estava com o grupo VM Na Rima na época e começamos, então, a fazer as coisas juntos nesse período, com objetivos e sonhos em comum que a gente compartilhava. Trilhamos o circuito de festivais em 2014 e começamos 2015 com tudo, abrindo o show pro Criolo no Carnaval de Fortaleza.

Com o tempo, outros integrantes foram chegando, o Padêro foi um reforço de peso pela história dele com o RDF lá na Costa Oeste, em 2015; o Ernany RVM chegou junto com o “Na Terra Preta é Que Nascem as Árvores com os Melhores Frutos”, e resgatou uma vertente que andava esquecida, e outro cara que sempre esteve com a gente, sempre nos apoiou como irmão, como amigo, foi o Erivan Produtos do Morro.

Basicamente, o Maloqueria é um Coletivo formado por MC’s, mas que desenvolve projetos com os 4 elementos do hip hop. Dentro do Coletivo, todos são produtores culturais e desenvolvem seus projetos em parceria com outros integrantes do Coletivo. Pra cada projeto, existe uma equipe de produção e uma equipe artística e o dinheiro, então, é dividido dessa forma. Eu posso, num mesmo evento, estar como produtor e artista, isso internamente. Para os nossos parceiros, o Coletivo é uma coisa só. A gente separa o dinheiro dessa forma, porque um dos principais eixos do nosso trabalho é a formação.

Novos integrantes foram entrando, outros saindo, porque o Coletivo é feito de quem precisa dele. O Erivan, por exemplo, é considerado, pela história que tem com a gente, um integrante. Mas bem antes de ter o Maloqueria, já existia o Produtos do Morro. São histórias que vieram antes, as origens do hip hop cearense que abriram a possibilidade pra os novos grupos existirem. É muito louco quando tem um show massa do Maloqueria e a gente conta com o Erivan. Ele muito mais nos apoia do que, de fato, precisa do Coletivo pra manter seu trabalho. Como artista independente, ele já conquistou a sua autonomia, então é um parceiro, um aliado e uma referência pra todos nós. Para outros artistas, o Coletivo é ainda a sua fábrica, sua produção independente, sua vitrine. A gente mantém o ano todo na ativa por aqui e vamos também sacando a movimentação e vendo quem está pronto pra representar. Nosso compromisso é com a renovação, por isso a gente está trazendo uma nova escola pra compor esse front. O primeiro que a gente está apoiando bem de perto é o Yuri Crod, que é um dos meninos prodígio aqui da cena. Estamos também começando a sacar umas minas muito massa que estão começando a encarar o microfone e produzir um trabalho autoral.

O Maloqueria sempre esteve presente em festivais e eventos voltados pra juventude da periferia, com atividades que vão além dos shows, como oficinas, palestras, workshops, contribuindo pra formação de novos grupos. O Coletivo também exerce uma militância ativa ao lado de movimentos sociais com outros artistas, estudantes e trabalhadores das cidades e do campo, além de ser um dos grupos que compõem o Fórum Cearense de Hip Hop – FCH2 e que vem construindo políticas públicas voltada pra a cultura hip hop e a juventude da periferia.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Vi que você participou do “Ocupa Minc CE”. Foi na época em que foi proposto a extinção do MinC? Como foi a ocupação?
andrezao-gds-ocupaminc-ce[ANDRÉZÃO GDS] Foi um momento muito difícil da nossa história. O começo do desmanche, quando esse governo começou a mostrar a sua cara, sua verdadeira face, que a gente já sabia o tempo todo e as pessoas quiseram acreditar na mentira. Não foi por falta de aviso, isso nós temos que concordar, né?

Eu lembro que a ocupação foi no prédio do IPHAN, bem ao lado do Teatro José de Alencar, outro tradicional ponto de cultura da cidade. Os secundaristas também estavam ocupando as escolas pelo Ceará e vinha rolando uma movimentação geral nas quebradas. Eu não fiquei ocupado no MINC por problemas de saúde e preferi contribuir indo, cada dia, em um dos locais de luta e resistência. No OCUPAMINC CE, me lembro que estive em 3 ocasiões, uma delas pra conhecer e cumprimentar as pessoas, na outra fiz um show e no fim da noite o Criolo e o DJ Dan Dan fizeram uma visita nós e, por último, na virada cultural do OCUPAMINC CE, que arrecadou os recursos pra levar o pessoal pra Brasília.

As ocupações foram esse espaço de construção de troca. 2016 realmente foi um ano de lutas. Nós, como um grupo de rappers engajados e militantes, estivemos presente em todas etapas desse processo, construindo junto com a juventude pra compor essa base que vai se preparar pra uma retomada da democracia no nosso país, hoje seriamente abalada.

Em setembro, a gente esteve representando o Ceará no Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude. Foi também uma grandiosa experiência de ocupação, com 7.000 jovens de todo o Brasil em Belo Horizonte durante uma semana. Tudo feito na base da autogestão, inclusive as culturais, onde tivemos a honra de estar como protagonistas.

Em novembro, eu estive solo numa tour pelo nordeste que foi batizada de OCUPA TUDO NORDESTE, justamente durante esse processo da PEC do Fim do Mundo, que vai arrombar a educação e a saúde no país. O sentimento em todos lugares é de uma grande revolta com a situação e as pessoas já sabem quem são os responsáveis por isso, estão com muito ódio também, com toda a razão. Me revolta demais quando vejo pessoas querendo ponderar… Cara, é a privatização da educação e da saúde! É o maior fiasco possível entregar o Brasil pra esse neoliberalismo que deu errado em todos os lugares do mundo. Fazer isso de novo no Brasil… Não dá pra aceitar! O mundo todo já sabe que é uma palhaçada esse golpe, um cara como José Serra pra Ministro das Relações é um desrespeito com o mundo. Só falta agora esses coxinhas deixarem de hipocrisia e reconhecerem que eles apoiaram a maior fraude da história da nossa frágil democracia.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Tem uma foto sua com o Criolo no “Ocupa Minc CE”. Você chegou a trocar uma ideia com ele? Como foi?
criolo-andrezao-gds-dan-dan[ANDRÉZÃO GDS] Nós tivemos o privilégio de abrir o show do Criolo no Carnaval de Fortaleza com o Coletivo Maloqueria, sem dúvida o maior show das nossas vidas. Fevereiro de 2015, era o “Convoque seu Buda”. Naquela data, eu estava lançando o meu primeiro CD e ainda era aniversário do Roni Flow e eu tive a felicidade de presentear os mestres Dan Dan, Criolo e também Ganjaman, que é outro cara que considero uma das pessoas mais importantes na história do rap nacional. O Criolo é uma grande referência pra nós e ele não curte essa parada de idolatria. Ele chega no rolê como um dos nossos, um cara muito especial com toda certeza, um cearense.

É muito louco quando paro e lembro dessas coisas que aconteceram, eu agradeço demais aos meus companheiros, porque é só por causa deles que eu consegui percorrer essa estrada.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Você vê alguma diferença entre a cena hip hop de São Paulo e a cena hip hop de Fortaleza? Se sim, quais? Na mesa linha de pensamento, quais as semelhanças entre elas?
[ANDRÉZÃO GDS] Uma das coisas mais legais do hip hop cearense, além das músicas e o talento dos nossos artistas, são as histórias dessa galera. A gente gostaria muito de fazer um projeto audiovisual com essa finalidade. Tem muita coisa legal pra ser mostrada e contada sobre as origens do hip hop cearense.

Eu posso dizer que pra mim, como ser humano, é muito gratificante dividir minha vida, o palco, uma mesa de bar com esses caras que superaram coisas que você nem imagina que existem, uma desigualdade tão chocante que faz São Paulo parecer socialista.

E hoje a gente pode ver o Ceará, depois de tantos anos de largo desenvolvimento, do nosso povo, da nossa gente se levantando da lama, ter que agora explicar pros mais jovens que eles estão tirando tudo o que conquistamos. Isso tudo é um processo muito violento, irmão. A atuação da elite fabricando a violência que assola as periferias, em nome do lucro de alguns que nem moram lá… É muita covardia!

A gente costuma agradecer e celebrar todos os dias por estar na ativa, podendo dar nossa contribuição para que mais vidas sejam poupadas; até que essas mazelas sociais possam ser definitivamente contornadas. O que estamos vendo claramente é que isso é impossível enquanto essa estrutura opressora continuar. A equação é bem simples: Igrejas X Polícia X Imprensa. Tocaram o terror, banalizaram a violência com esse jornalixo; a cidade vive realmente tempos de guerra e é uma guerra fabricada. Poderia ser pior, e eles estão investindo pesado em propaganda pra voltarem a reinar por aqui e com certeza só vão trabalhar pra piorar as coisas pra quem vive na favela.

Fazendo esse comparativo com o Hip Hop de São Paulo, eu vejo uma forte conexão, sim. Acho que o rap de São Paulo é o mais influente por aqui, mas isso não tira em nada a originalidade do rap cearense, que também bebe do rap de Brasília e do Rio.

Se nós temos muitas coisas em comum, por outro lado tem coisas que são únicas do Ceará. São muitas vertentes e algumas bem nossas, como a galera que puxa a raíz do som regional, do reizado, o cordel.

Agora, como movimento, vejo que está tudo muito conectado: São Paulo e Ceará estão diretamente ligados à história dos pioneiros do hip hop cearense, como Flip Jay e Carlos Gallo, que tiveram uma presença marcante na cena Paulista já nos primórdios. Acho que eles são a base do Ceará nessa árvore genealógica do rap nacional, apesar de ter outros mais antigos. O Hip Hop no Brasil, hoje, está todo unido, é como diz meu mano Zé Baga, lá de Natal: “Ficou pra trás quem pensa o contrário“.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Uma das fotos que você comentou ser uma das principais é a do seu show com a Verônica. Você pode falar um pouco do trabalho dela? Como surgiu essa parceria?
veronica-andrezao[ANDRÉZÃO GDS] Quando a gente, em 2015, antes do golpe, da porra toda, viu que era hora de mostrar outra atitude pro hip hop cearense, eu fiz esse convite pra minha amiga Verônica Valentino, pra que ela me acompanhasse em uma das faixas no show do Carnaval, aquele mesmo que abrimos pro Criolo. Era um foda-se pra todos os machistas do hip hop. Então as pessoas que aparecem agora por ai pra nos difamar, dizer que sou machista ou isso ou aquilo, por simplesmente não gostarem de mim, elas nunca fizeram polêmica quando a gente estava junto no palco, quando a gente estava junto no boteco trocando justamente essas ideias, da importância de mostrar isso pra molecada que está sendo alvo dessa propaganda fascista.

Isso é uma das coisas que eu mais vejo acontecendo na cena… É um querendo apagar o brilho do outro. Tem uma galera que está entrando nessa onda de tretas e provocações, e isso simplesmente não ajuda em nada pro rap, só traz mais pessoas alienadas pra um movimento que não os comporta. Não temos espaço pra machistas, não temos espaço pra fascistas, pra homofóbicos, ou pra comédias chorarem que não querem levar apavoro das minas, ou qualquer desculpa que eles dão pra continuar sendo escrotos. Não tem mais chance pra qualquer tipo de preconceito. Eu, particularmente, não faço questão nenhuma de cantar pra pessoas que acham que está tudo normal com o Brasil, que está tudo certo nos meios de comunicação. Essas pessoas estão completamente alucinadas, então eu realmente não tenho nada a dizer a elas.

Infelizmente, as críticas mais pesadas que chegam a nós, não são nem da elite, porque a elite aposta na invisibilidade. Eles pensam: “Eu não preciso fazer nada contra esses caras porque eles simplesmente não existem pras massas“.

O que mais incomoda e machuca é quando pessoas usam bandeiras de movimentos sociais pra nos atacar, justamente movimentos que nós representamos com nossa poesia. Fazem isso de forma arbitrária com todos que eles escolhem julgar nos tribunais do Facebook. No melhor estilo sensacionalista e jornalismo de fofocas, eles saem pegando ideias fora de contexto e fazendo análises sem qualquer profundidade ou sentido.

Um exemplo que eu vejo é o do Emicida. Cara, eu tava em 2016 discutindo com um amigo rapper, aqui do nordeste, que não gosta do Emicida porque ele o considera um vendido. Pô, tem uma grande diferença entre ocupar a mídia e ser um produto dela. O Emicida nos ensinou isso. E tem umas outras que se dizem feminista e chamam o cara de machista. Ele já respondeu sobre essa questão lá em 2013 e sabe o que essas minas tão fazendo, mano? Com o dinheiro que elas têm no emprego delas, conquistado com o status de faculdade particular, elas vão no show do Wesley Safadão, truta. Pra depois usar a bandeira do feminismo pra escarrar o Emicida, que é um dos maiores ícones da cultura hip hop mundial, respeitado por tudo que ele já fez pelas mulheres negras da periferia.

O que eu queria dizer é que essa esquerda que só reage e só grita com os maloqueiros militantes aqui da área, é uma esquerda tão fascista quanto a direita que eles dizem combater. E nós estamos vendo isso se disseminar pelas ruas, do pior jeito. Eles nos tratam com ar de superioridade. Isso nós nunca aceitaremos dentro do movimento hip hop. Pode até dar certo pra esquerda caviar se sentir mais foda. Mas aqui na quebrada em Fortaleza, sem chance! Aqui nós estamos exercendo a pedagogia do oprimido na prática.

Infelizmente, estamos perdendo. Todos os dias eu vejo, nas redes sociais, pessoas de luto porque a amiga morreu vítima do “namorado” porque o pivete foi assassinado numa chacina. Isso ai está se tornando comum. É muito grave a situação do feminicídio no Nordeste, do extermínio da juventude, e o que as pessoas estão fazendo, ao nos atacar, é dar mais margem pros verdadeiros machistas, mais margem pros fascistas justificarem o seu ódio na TV. Não somos e não seremos nós os opressores dentro do hip hop.

Então quando vejo esse tipo de coisa, percebo que, pra muitas pessoas, não existe qualquer respeito com nosso trabalho. Vejo um grande desrespeito com a nossa luta que não é de um fim de semana ou de um mês. Tem pessoas que estão há 10, 20 anos na ativa. Isso que a gente está fazendo é coisa séria, não tem 300 pessoas fazendo no Nordeste o que a gente faz, tio.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Pergunta que não quer calar: Por que você escolheu Fortaleza para morar, enquanto tantos artistas saem de outras cidades e vêm pra São Paulo?
[ANDRÉZÃO GDS] Acho que é um pouco do que eu já falei sobre essa minha trilha e essa desconstrução dentro da música, do rap, e minha mudança pro Ceará como um potencializador desse processo.

Fortaleza foi a cidade que me acolheu. Eu não era ninguém, cheguei aqui sem qualquer conexão com as pessoas daqui, foi realmente um recomeço. Eu me considero privilegiado de poder recomeçar minha vida, com uma cabeça mais madura e num lugar tão incrível. Isso me ajudou a estar com as pessoas que eu tinha verdadeira afinidade, pessoas que eu admirava como seres humanos, como artistas e, dessa forma, também podia aprender mais. Como artista, o Nordeste é uma escola, eu vivo nessa UniverSCidade que é Fortaleza, com todos seus sotaques, suas raízes, mas que também vive um processo louco, se tornando uma capital multicultural.

No começo, principalmente, eu recebia muito apoio, muito incentivo. As pessoas gostavam das coisas que eu vinha cantando, improvisando pelas ruas, numa instiga louca, mesmo. E, com o tempo, o trabalho autoral foi evoluindo, amadurecendo, e eu vi que podia começar também a retribuir um pouco, compartilhar com meus amigos essas experiências, puxar os mais jovens, construir as coisas juntos. Foi a minha própria história que fez com que eu continuasse vivendo aqui, foi o meu trabalho, foi o rap.

Vocês, aí de São Paulo, precisam vir aqui pro Ceará pra saber a resposta real!

Pra mim já deu certo, eu sigo na certeza do Groove.

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