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Sobre Sensibilidade (Ou Falta De)

Comportamento | Música 26/07/17 - 10h Cult Cultura

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No dia 20 de julho, amanhecemos com uma péssima notícia. O vocalista Chester Bennington, do Linkin Park, havia sido encontrado morto em sua residência na Califórnia. Ele tinha 41 anos, 6 filhos e muitos trabalhos voluntários. Já é de conhecimento público os problemas enfrentados por ele durante sua curta vida. Álcool, drogas, violência sexual quando criança… Problemas sérios que, infelizmente, ainda são tabu na hora de discutir a gravidade deles. Mas não é disso que eu quero falar.

Quando o Linkin Park lançou seu último álbum, o “One More Light” de 2017, a crítica e os fãs não tiveram o melhor comportamento possível. Claro, é de se esperar que uma banda com tantos fãs enfrente algumas críticas com qualquer mudança na direção de seu som, mas fato é que não pensamos em como as pessoas vão receber certas críticas e atitudes. Veja, por exemplo, um vídeo da banda tocando o primeiro single desse álbum, a música “Heavy”, no festival francês Hellfest, conhecido por ser um dos maiores festivais de metal do mundo:

Logo no começo da performance, um objeto é atirado em direção ao vocalista. Descontentamento que vira falta de respeito que vira violência e que, provavelmente, a pessoa que atirou seja lá o que atirou, voltou para sua casa depois de ter se divertido durante as músicas que a banda compôs e que ela gostava. Algo que tomou alguns segundos da pessoa que lançou o que parece ser uma garrafa, mas que não pensou no que aquilo poderia significar. Claro que, agora, é tudo suposição. Nunca vamos saber a verdade sobre os motivos de Chester para tirar sua própria vida. Mas isso faz pensar…

Será que somos egoístas a ponto de não aceitar a mudança numa banda que tem 20 anos de carreira na bagagem? Realmente esperamos que continuem com o mesmo som para sempre? E quando mudam, deveríamos cobrar? Afinal, liberdade pra criar arte é justamente o que faz da arte, arte. A mutação, a evolução, a constante metamorfose para se criar e recriar diferentes canções e levar aquela sensação ótima de ouvir sua banda preferida lançando algo novo.

E o comportamento após a notícia da morte de Chester também não foi dos melhores. Quem não era fã da banda, talvez para mostrar que tem um gosto “superior” para música, acaba por fazer pouco caso de alguém que perdeu uma batalha de anos para a depressão (mais uma suposição, que fique claro) e alguns fãs (não todos) acabam levando o luto para um patamar que beira o absurdo. Comentários em redes sociais diziam “levem o Justin Bieber e devolvam o Chester” ou “com tanto funkeiro no mundo, logo ele”. Obviamente, é difícil julgar. Não conheço as pessoas que fizeram esses comentários e provavelmente elas não querem realmente dizer isso, mas, mesmo se for algo simbólico, é certo querer transferir uma tragédia para um outro espaço onde ela não vai te afetar? Afinal, somos todos humanos, todos filhos, pais, irmãos, amigos de alguém. Toda e qualquer fatalidade nunca atinge apenas a pessoa que se envolveu nela, existem muitas outras pessoas atrás de uma só que vão sofrer e enfrentar a dor do luto.

A verdade é que isso que aconteceu tem que ser visto como uma lição. Uma lição para valorizar as pessoas enquanto elas aqui estão e para aceitar toda e qualquer diferença, porque, no fim do dia, a missão de fazer do mundo um lugar melhor começa dentro da gente.

Que ele seja lembrado não pelo final trágico, mas, sim, por ter feito músicas que tocaram milhões de pessoas e que deu voz para quem não tinha como expressar seus problemas. Gostando ou não, fará falta e deve ser para sempre respeitado por tudo que fez e deixou como legado.

Se você está passando por um momento difícil, saiba que não está só. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias. O telefone é 141 e o site é http://www.cvv.org.br.

Euclides

Por Clids Ursulino. 29 anos. Música, cinema, futebol e política. E o que mais aparecer entre um café e outro.

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