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A Morte De Chris Cornell E Uma Reflexão Sobre O Suicídio

Leonardo Cássio | Música 29/05/17 - 10h Leonardo Cassio

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Chris Cornell cometeu suicídio na quarta-feira, dia 17 de maio de 2017, em Detroit, após ter feito um show com o Soundgarden. Ele se enforcou no banheiro do hotel onde estava hospedado. O cantor tinha 52 anos e deixou 3 filhos e a esposa, Vicky Cornell, que declarou à impressa que o marido não se suicidaria se não estivesse fora de si devido ao uso exagerado de medicamentos.

A carreira de Cornell foi extremamente bem sucedida. Foi um dos fundadores do Soundgarden, banda de Seattle, um dos pilares do movimento grunge. Em 1991, Cornell emplacou um projeto homenagem ao cantor Andrew Wood – vocalista de Mother Love Bone, morto de overdose em 1990 -, chamado “Temple of the Dog”, realizado por ele e os integrantes do que viria a ser o Pearl Jam.

Em 2001, Chris Cornell se uniu ao trio de instrumentistas do Rage Against the Machine (Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk) e fundou o Audioslave, que estourou no mundo inteiro com vários hits, entre eles, “Shadow on the Sun”, que está na trilha sonora do filme Colateral, do Michael Mann. A carreira solo dele também teve êxito, apesar de ter sido mais discreto do que o sucesso com as bandas. Realizou covers de “Imagine” – John Lennon -, “Billie Jean” – Michael Jackson –, “Nothing Compares 2 U” – Prince, entre outros.

Aí a gente pensa: por que diabos um cara com tamanha carreira pega e se mata? Longe de querer resposta à pergunta, o que mais importa no caso é a revelação de algo que sabemos, mas evitamos falar: não conseguimos destruir o tabu existente sobre o suicídio.

As discussões sobre o tema ocorrem na grande mídia quando alguma figura como Cornell põe fim à vida. Se for um anônimo, isso ocorre apenas se houver uma reportagem flagrante que passará pelo processo de espetacularização (leia aqui a análise do livro “A Sociedade do Espetáculo”). No mais, tirando raros casos, o tema é abordado de forma estereotipada e há pouquíssimo trabalho de massa na questão da prevenção ao suicídio. É muito comum, em rodas de discussão, ouvirmos que a pessoa se mata porque está com depressão (leia aqui uma crônica sobre depressão), tem a “cabeça fraca” ou era drogada. A depressão e as drogas são catalizadores que podem influenciar diretamente no suicídio, assim como o álcool, que é a droga mais consumida no planeta. “Cabeça fraca” é uma falácia preconceituosa, apenas.

A questão é que o suicídio, apesar de ser um ato solitário no momento de sua execução, advém de processos sociais que agem sobre todos os indivíduos, sendo que alguns efetivam o ato de retirar a própria vida. Em momentos de crise econômica, por exemplo, é comum vermos pessoas que perderam muito dinheiro ou que já eram muito pobres e alcançam um estado de penúria total se suicidarem. Não necessariamente estas pessoas passam por um estado de depressão. É importante entender que o suicídio não é a vontade de morrer em si, mas é a incapacidade que algumas pessoas desenvolvem de terem vontade de viver.

As pessoas emitem sinais de que as coisas não estão bem e não adianta palavras de conforto como “vai ficar tudo bem” e “há pessoas em situação pior do que a sua” para livrá-las de pensamentos negativos. O sofrimento dela deve ser tamanho, que qualquer raciocínio lógico sobre o que ocorre no mundo fica obtusado. E, neste momento, para diminuir as dores, entram os remédios e drogas.

É necessário profundo debate para que possamos minimizar problemas como o originado por notícias falsas criadas em torno de um desafio chamado “Baleia Azul“. Pessoas, especialmente jovens, eram “desafiadas” a realizar tarefas cujo desfecho era o suicídio. Esse tipo de idiotice só pode ser extirpado com muita informação. Fora isso, os debates ajudam a entender por quê homens se matam imensamente mais do que mulheres; quais são os sinais mais evidentes que uma pessoa emite antes de se suicidar e diversos outros pontos de fundamental importância.

Uma das fontes de referência sobre prevenção é a Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio. A entidade realiza estudos, publica informações de interesse público, realiza eventos e tem um forte trabalho de prevenção, destacando-se a parte em que abordam os mitos e verdades sobre o suicídio. Outro ponto de destaque é a posvenção, espaço dedicado para quem perdeu alguém via suicídio ou para alguém que sobreviveu a uma tentativa.

A Revista Galileu fez uma matéria sobre suicídio, focando justamente no público jovem, alvo do golpe da Baleia Azul, e problemas associados à idade, que não são problematizados socialmente com a profundidade necessária (a matéria completa pode ser visualizada pelo APP da revista via smartphone ou na revista impressa – clique aqui). O podcast Mamilos, já indicado na matéria “Essa Greve Geral É Pra Quê, Mesmo?” – clique aqui para ler, fez um programa dedicado ao assunto: ouça aqui. A série original da Netflix “13 Reasons Why” gerou frisson após o lançamento. Nela é tratada a história de uma jovem que se mata e deixa fitas gravadas explicando os motivos para o suicídio. A última indicação fica para Émile Durkheim, francês que estudou bastante o tema e publicou o livro “O Suicídio”, em que amplia o entendimento sobre os tipos possíveis de suicídio.

Chris Cornell fará falta. O rock’n’roll perdeu uma voz diferenciada, um cabeça que realiza projetos inovadores e que compunha belas canções, como Say Hello 2 Heaven, do Temple of the Dog:


Fotos Divulgação

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