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Programação Diversificada e Inspiradora Marca o Festival Conecta

Música 09/12/16 - 12h Cult Cultura

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Estamos chegando no fim de um ano bastante complicado, um Brasil que só quer andar pra trás, empurrando junto os demais que ainda querem construir algo. Parece que está assim em todo lugar. Nessas horas provamos nosso valor, nos juntando, nos somando, nos conectando àqueles que ainda insistem nessa luta por mais cultura e diversidade.

Em Fortaleza não seria diferente, uma cidade que canaliza todas essas experiências, positivas e negativas por quais passamos cotidianamente. Foi assim que surgiu o Conecta – Festival Artes sem Fronteiras, nascido em pleno 2016 no nosso faminto (no melhor sentido) Ceará. Um público ávido por novidades aguardava o anúncio do line-up e os detalhes de como seria essa programação.

Após uma chamada pública pra os artistas cearenses, o resultado foi uma programação com porte de grande festival, celebrando uma Fortaleza multicultural. Cinco dias de festa em Fortaleza, resgatando uma das praças que até então estava esquecida pelo público cearense. A belíssima Praça da Bandeira, que ocupa um quarteirão inteiro no Centro da cidade e tem nos seus arredores alguns conhecidos pontos de encontro da cultura, como a Casa do Barão de Camocim, onde acontece o Casa Cor, e a Vila das Artes.

QUARTA • 23 de Novembro de 2016

capotesA primeira noite, como esperado, por ser uma quarta feira, foi a mais tranquila, mas tivemos grandes shows com destaque para o Capotes Pretos na Terra Marfim, banda que está vivendo uma fase incrível e representa um lado feliz e cheio de vida da nossa cidade, apostando na empatia, no amor e na energia positiva pra driblar as ondas de caos.

Outro grande nome a se apresentar na noite foi o multi-instrumentista e compositor cearense Gustavo Portella. Aqui, acompanhado do saxofonista lendário Marcio Rezende e com a participação de uma das personalidades mais queridas de Fortaleza: o DJ e MC Nego Célio.

E ainda teve a banda Old Books Room. Destaque no circuito de festivais pelo Nordeste, a banda retornou de mais uma circulação após terem passado pelo Festival DoSol em Natal e no Espaço Mundo em João Pessoa, aterrizando de volta em terras alencarinas direto pro Conecta Festival.

QUINTA • 24 de Novembro de 2016

Quinta feira a coisa começou a esquentar, com a banda Subcelebs trazendo um indie, grunge bem irreverente. Me lembra muito o som dos Pixies e umas viagens dos anos 90. Pra quem curte essa vibe mais nostalgia vale dar uma sacada no trampo deles.

dancha daniloEm seguida, uma das lendas da cena: Danilo Guilherme lidera a Danchá, uma das bandas mais legais de Fortaleza, ao lado de seus fiéis companheiros Pepeu, Bruno Rafael e Milton Ferreira. É uma das bandas mais influentes devido às grandes composições de Danilo. Altamente recomendado o som da Danchá! Apresentaram, nesse show, algumas versões alternativas de alguns dos clássicos e também novos temas com uma roupagem jamaicana pras lombras cearenses.

Lorena Nunes é uma das rainhas da música cearense. Destaque também no circuito de Festivais, ela vem arrasando e conquistando um grande prestígio desde o lançamento do seu mais recente trabalho, Ouvi Dizer que Lá Faz Sol. Show impecável, uma cantora incrível que esbanja carisma e talento, e produção maravilhosa assinada por Cláudio Mendes.

Ainda teve o Duo Finlândia, a primeira atração de fora do Ceará a se apresentar. Repare como nós temos nomes de peso pra compor o line de um festival com os pratas da casa! Não desmerecendo o trabalho da galera, mas nessa quinta feira os destaques mesmo foram as bandas cearenses.

SEXTA • 25 de Novembro

Com 2 noites incríveis de abertura, a sexta-feira prometia demais e, mesmo com grande expectativa, o público foi atendido e contemplado com uma das noites mais lindas do ano.

kalu e gdsA Procurando Kalu é uma banda de Sobral que está roubando a cena com seu show caliente e apimentado. Uma banda com uma presença de palco incrível e os músicos em total sintonia. Contagiaram o público que chegava ao Conecta e ainda teve a participação de Andrézão GDS – eu! – e no final claro, não podia faltar o Carimbó do Caralho.

Logo na sequência, o show do Astrounauta Marinho abriu pra uma sessão instrumental que levou o público a um estado de transe coletivo. Foi impressionante a conexão. Se estamos falando do Festival Conecta, talvez esse tenha sido o ato mais marcante nesse aspecto. A ausência de palavras foi compensada por essa trilha sonora que nos guia através do autoconhecimento.

Nayra Costa é a cantora cearense mais impressionante. Seus vocais poderosos junto com uma banda afiada nos trazem uma sonoridade bem diversa, passando pelo pop, o rock, o reggae e umas pitadas de R&B.

Após uma sequência matadora de artistas cearenses, a banda mais esperada da noite veio de São Paulo. A rapaziada do O Terno trouxe um rock inspirado, numa linha bem anos 70, com muita psicodelia. Botou pra girar as caixas, chamando, no último grau, um trio explosivo que levantou a multidão que lotava a praça da Bandeira. Foi um momento sublime e a plateia em êxtase. Nas horas seguintes passamos um tempo viajando nas alturas até pousar e digerir a quantidade de informação que foi disparada nas 5 horas de shows.

SÁBADO • 26 de Novembro

O sábado também prometia demais e abriu lindamente com o Máquinas, trazendo sua linguagem rica em paisagens sonoras. Sem muitas linhas melódicas, aqui é uma construção de ritmo e harmonias que vão variando, se misturando umas às outras em umas dinâmicas muito bem fluídas. É uma das bandas que merece uma atenção especial e que deve gerar muitos bons frutos nas próximas temporadas.

Erivan Produtos do Morro é um dos nomes mais marcantes da cena hip hop cearense. Além de ser um dos artistas mais completos da cena, (DJ, Produtor, Beat Box) aqui ele mostra o melhor do seu trabalho como MC, com vários anos de bagagem e um repertório que varia entre rocks pesadíssimos e algumas faixas com uma pegada regional. O resultado é fantástico. Um show que vem evoluindo a cada apresentação graças à tutoria de Tadeu Patolla na Escola Porto Iracema das Artes.

Murmurando é a escola de choro e jazz cearense, e mostrou sua categoria, ginga e alegria. Grupo liderado por Samuel Rocha, trouxeram alguns temas clássicos de grandes compositores e também lindas composições do grupo. Sem dúvida que esses caras são verdadeiras joias da música brasileira e podem nos representar em qualquer lugar do mundo.

nazirêNazirê mostrou mais uma vez a força das mulheres cearenses. Dessa vez inspiradas no reggae raiz, as meninas de Juazeiro do Norte já conquistaram o Brasil com seu som delicioso, carregado num sotaque contagiante, trazendo a vibração serena do nosso Cariri pra Fortaleza de concreto. O show das meninas foi um dos pontos altos de todo festival e, aos poucos, a ansiedade ia aumentando com a expectativa pro show de Tom Zé.

O público esperava calorosamente pelo músico que há 10 anos não vinha pra Fortaleza. E ele veio acompanhado de seus fiéis companheiros que foram, logo de cara, apresentados um por um. Um repertório que passou por várias fases de sua extensa discografia e que só foi interrompido por uma manifestação, à qual Tom Zé respondeu incisivamente: “Abaixa essa porra”. Parecia que o clima ia ficar tenso, mas apesar de alguns ainda insistirem em provocar nosso querido Tom Zé, ele tirou de letra e continuou fazendo seu show sem se importar com o burburinho. Pra nossa felicidade, pudemos assistir a um show com o mestre cheio de energia, convidando todos pra ir ao camarim onde ele iria autografar os discos que estavam à venda após o show.

DOMINGO • 27 de Novembro

Isso aqui é Fortaleza e a alegria parece não ter fim. Chegamos ao quinto dia de festival e mais 5 bandas locais pra encerrar a programação do primeiro Conecta.

Os Tripulantes da Sabiabarca representam a escola da vanguarda cearense, com um trabalho autoral altamente complexo e conceitual, lembrando a obra de Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, que na voz feminina poderosa de Ilya Borges vão nos levando entre devaneios e descarregos. Destaque pro trabalho instrumental da bateria e piano fazendo toda a cama sonora pros vocais de Ilya.

casa de velhoCasa de Velho foi a maior surpresa do festival pra esse que vos escreve. Fui convidado pelos rapazes da banda pra conhecer esse trabalho incrível. Já cheguei lá cheio de curiosidade pra vê-los e saí de lá mais do que satisfeito, afinal, o vocalista Mateus Mesmo é realmente uma personalidade inquietante. Ele nos tira do zona de conforto numa performance provocante, com músicos do mais alto escalão o acompanhando. Era possível ver um público fiel já acompanhando cada um das canções. Uma banda muito promissora, pra uma projeção nacional.

Marieta veio como sempre muito bem acompanhada, sua banda com o produtor Cláudio Mendes no baixo e teclado, Daniel Lima na guitarra e Junior Quintela na bateria. Nessa noite pudemos ver uma Marieta mais madura, explorando ainda mais o seus vocais certeiros. Não há como não mencionar o charme da gata, ela realmente é arrasadora no palco e deixa os marmanjos de queixo caído.

Felipe Cazaux é o nome a frente do Mad Monkees, a banda mais pesada da noite e uma das mais aguardadas do festival. Os caras são do Ceará e fazem um show no naipe comparável a bandas como Metallica, Motorhead, sem dever em nada pras maiores bandas de heavy metal do mundo. Com uma formação coesa, soltando uma pedrada atrás da outra, os vocais de Felipe furiosos levantaram a galera e geral batendo cabeça num domingaço, após 5 dias de festival, meu chapa, não é brincadeira!

riveraPra fechar a primeira edição do Conecta, a galera do Rivera, trouxe seu rock animado e feliz pra galera dar uma boa relaxada e curtir as faixas apresentadas do primeiro trabalho da banda. Além de ser uma das bandas com maior rodagem nessa última temporada, eles terminaram o show prometendo um novo repertório pra 2017 no qual eles vêm trabalhando nos últimos meses. Vale a pena conferir cada uma dessas feras, mostrando a potência monstra do Ceará e como esses artistas estão prontos pra representar o nosso estado e a nossa região em muitos outros festivais mundo afora.

Dessa forma, nós concluímos mais esse post, mostrando a vocês um pouco do que acontece na Fortaleza marginal. O Conecta veio pra somar – e muito – na cena cearense, e esperamos que ele esteja de volta em 2017 conectando ainda mais grupos e tribos.

O ponto alto foi a diversidade da programação, especialmente mostrando e contemplando as divas cearenses em vários estilos diferentes. Nossas mulheres estavam marcando presença como protagonistas em todas as noites de festival e ficou evidente o potencial gigante dos nossos artistas independentes. Parece que quanto maior a estrutura oferecida, mais essa galera tem pra mostrar. Então já deu certo, viva a cultura independente cearense! As comidinhas e a feirinha também eram um espaço cheio de vida e encontros e foi possível rever muitos amigos durante os 5 dias de programação.

O ponto baixo foi a questão de que algumas bandas que se apresentaram mais cedo tiveram que tocar com um som um pouco mais baixo, e isso incomodava um pouco o público que queria sentir mais pressão, afinal, o palco era realmente impressionante. E, pela perspectiva do artista, tocar e sentir que o som não está saindo com a potência máxima, também não é muito confortável. Isso se deve à localização da praça, por ser próxima ao principal hospital da capital cearense. De qualquer forma, todos os shows fluíram com uma qualidade sonora impecável!

Por Andrézão GDS, músico, compositor e intérprete paulista, radicado em Fortaleza desde 2012.

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