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15ª Edição da Feira da Música Renova o Espírito Musical da Cena Independente de Fortaleza

Música 19/10/16 - 02h Cult Cultura

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Em 2016, a Feira da Música de Fortaleza completou 15 anos. E, nessa edição especial, o evento aconteceu em 2 pontos de cultura da cidade onde a cena independente se movimenta durante o ano todo: o Centro Cultural Dragão do Mar e a Praça dos Leões. Já é reconhecido como o maior festival de música independente do Ceará e, sem dúvidas, é responsável direto pelo crescimento do setor no Estado. A Feira da Música vai além dos shows e tem um peso muito grande na formação e no desenvolvimento de uma economia que dê suporte pra a continuidade e o crescimento de tantos projetos.

Meu envolvimento com a Feira começou em 2013 e, para mim, que era um novo morador da cidade, recém chegado de São Paulo, aquela edição teve uma importância muito grande na minha trajetória como músico. Foi nela que eu comecei a me aprofundar no trabalho dos artistas autorais que fazem esse circuito pelo Nordeste e outras regiões do Brasil.

Nas edições de 2014 e 2015, tive a enorme felicidade de participar com o grupo de rap “Coletivo Maloqueria” no qual me apresento como Andrézão GDS, e dessa forma, dando uma contribuição para que o hip hop firmasse o seu espaço dentro desse festival tão marcado pela diversidade.

Finalmente, chegamos aos 15 anos de Feira da Música em 2016, então vamos ao que interessa.

Primeiro dia: 12 de outubro
Feira-da-Musica-Fortaleza-2016 (2)Como de costume, a Feira da Música se destaca por trazer grandes bandas do cenário independente nacional e internacional. Em 2016, foi um ano de várias novidades, algumas homenagens especiais e muitos reencontros.

Começando pela noite de abertura, dia 12 de outubro, para felicidade de todas as crianças malucas do Ceará, tivemos uma noite dedicada ao instrumental regional e ainda a presença do grande mestre Hermeto Pascoal, que dispensa apresentações. Trouxe com ele uma banda com músicos geniais, como já era de se esperar devido à sua grande influência, sendo considerado um dos maiores músicos de todos os tempos no mundo.

A noite havia começado com Fernando Catatau, Manásses de Sousa, Cristiano Pinho e Marcio Resende, Tarcísio Sardinha entre outros convidados que se misturaram em várias jam sessions com temas diversos que nos levaram por uma viagem entre vários ritmos do nordeste.

Segundo dia: 13 de outubro
Na segunda noite da Feira, a coisa começou a esquentar com a banda “Maldita” que veio do Rio de Janeiro quebrando tudo no Palco Rock Cordel, no Anfiteatro do Dragão do Mar. Um rock pesado que deixa todos presentes em estado de agitação e o bate cabeça comendo solto. As letras irreverentes e caóticas revelam como nossa sociedade atual é doente e hipócrita. A banda apresentou faixas dos seus 3 álbuns lançados e reuniu um público expressivo pra uma quinta feira na capital cearense.

Feira-da-Musica-Fortaleza-2016 (10)Depois, a festa seguiu com tudo na Praça dos Leões com o showzaço da banda “Capotes Pretos na Terra Marfim” abrindo o palco Brasil Independente. O Capotes também se apresentou na noite seguinte em Sobral e é um das bandas de maior destaque do cenário cearense, graças às belas composições de Zéis e seus fiéis companheiros. Um show cheio de amor e muitos sentimentos maravilhosos, marcado por arranjos tão lindos quanto as letras que nos fazem refletir sobre nossa relação com a cidade e o mundo.

A banda “Luneta Mágica” diretamente de Manaus, fez um show incrível com uma formação bem interessante que nos fez lembrar de grandes clássicos do rock mundial, como Beatles e Pink Floyd, tudo isso com toques sofisticados de MPB em composições bem trabalhadas com uma linha progressiva e viagens altamente psicodélicas. Um trabalho vocal impecável que nos garante uma trip pra muito além do rock convencional que se ouve nas rádios comerciais.

Outra banda que veio de fora e contagiou o público foi a brasiliense “Muntchako“, que encerrou a noite de quinta-feira com uma mistura louca de guitarrada, beats eletrônicos e muita diversidade com toques latinos, algumas brasilidades e uma pegada que botou geral pra dançar. Em alguns momentos, você poderia jurar que estava num festival em plena Cidade do México, pra em seguida ser transportado pra um baile funk carioca. O resultado disso, como diria Tim Maia “é música pra esquentar o suvaco“.

Terceiro dia: 14 de outubro
E assim nos preparamos pra sexta feira, um dos shows mais aguardados do Festival: banda que foi destaque na última edição do Festival Afônico, o “Máquinas” traz uma sonoridade experimental, por horas vanguardista. Criando diversas paisagens sonoras que vão ganhando formas aleatórias e realmente uma sonoridade bem complexa e abstrata, nos lembrando um pouco das obras de Brian Eno e Robert Fripp com uma pegada de post-rock. Conseguiram reunir um bom público, mesmo o show começando às 20h de uma sexta-feira.

Outro show que era muito aguardado foi do artista local “Coro MC“, que é um dos rappers de maior destaque da movimentada cena hip hop do Ceará. Com mais de 10 anos de trajetória à frente do grupo RDF, desde que se lançou como artista solo ele vem se destacando nacionalmente, tendo sido reconhecido também em projetos internacionais como o “Rubber Tracks”, chegando a gravar algumas faixas na Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, com o MV Bill. Um show impecável com participações de peso como Nego Gallo, Padêro MC e Frieza, mostram para o público da Feira da Música por quê a Costa Oeste é e continua sendo a escola mais influente do rap cearense.

Feira-da-Musica-Fortaleza-2016 (3)Das bandas locais, outra que merece um destaque é o “Sub Celebs“, liderada pelo casal Igor Miná e Alinne Rodrigues. Eles são conhecidos por abraçar diversos projetos musicais da cidade e dar um grande salto na produção cearense com o Mocker Studio. No palco, eles colocam muita energia em canções animadas pra levantar a galera que vinha chegando ao longo da noite e que logo eram surpreendidos por mais uma banda cearense autoral com muita originalidade e irreverência.

Como de praxe na Feira da Música, a Paraíba sempre mexe com o público cearense. Na edição de 2014, tivemos o “Cabruêra”; em 2015, foi a vez do “Macumbia” sacudir a Praça do Ferreira e, agora 2016, não foi diferente com o “PédeCoco” incendiando a Praça dos Leões. Foi um showzaço com alguns clássicos da banda que já tem uma longa estrada. Foi crescendo e, de repente, já estavam todos cantando e dançando ao ritmo contagiante que conquistou a pista. Destaque pra faixa “Manga Rosa”, que fez a cabeça da plateia presente e traduzia bem o clima de Feira.

Na noite de encerramento, uma super programação com o grupo “Conduta Moral”, do interior do Ceará, abrindo com um rap engajado e empoderando as mulheres. “Tagore”, de Pernambuco, foi outra grande atração, que deixou o público preparado pra o show da cantora e compositora potiguar Khrystal.

Feira-da-Musica-Fortaleza-2016 (9)Pra fechar o palco que foi aberto pelo Hermeto Pascoal, não poderia ser outra banda senão os malucos da “Procurando Kalu“. A banda que está se destacando pelos festivais da capital e interior do estado, mais uma vez atendeu as expectativas. Após se destacarem na “Maloca Dragão”, a banda vem gerando um verdadeiro enxame por onde passa e não seria diferente na Feira da Música. Agora a banda está em Fortaleza gravando o seu primeiro disco com ninguém menos que Yuri Kalil, renomado produtor por trás de artistas consagrados como “Cidadão Instigado”, Arnaldo Antunes entre outros trabalhos reconhecidos mundialmente. Portanto, guardem esse nome! O show contou ainda com a participação de Andrézão GDS – vulgo “eu”! – e levou o público ao delírio com a mistura de indie rock psicodélico misturado com Carimbó, Maracatu, Guitarrada e todo aquele brilho e energia que povo do Ceará ama e que essa banda tem de sobra.

Quarto dia: 15 de outubro
Sábado da ginga pra encerrar a Feira da Música de 2016, o “Mozangola” mistura a Cumbia, a Kizomba e é conhecido pelo Hit que tá se alastrando pelo mundo: a faixa “Tá fixe”. Muita dança na pista aproveitando as batidas frenéticas.

Feira-da-Musica-Fortaleza-2016 (1)De volta à Fortaleza, o trio alagoano “Tequilla Bomb” mostrou o peso das suas rimas com batidas eletrônicas. A produção disponibilizou capacetes pra tamanha vibração, num show que foi uma das atrações que mais levantaram a pista na Praça dos Leões. Com energia do começo ao fim, o Tequilla Bomb foi também um dos grupos mais experientes da região a se apresentar no festival e, com mais essa apresentação, eles mostraram por que seguem firmes na estrada e que ainda irão representar o Nordeste em muitos festivais pelo Brasil e pelo mundo.

Ainda tinha tempo pra mais: depois de se apresentarem também em Sobral, o “Africania“, que veio da Bahia, chegou para o último dia de Feira da Música em Fortaleza e mostrou todo o poder da música afro brasileira.

A festa terminou com uma banda clássica de Fortaleza, os “Descendentes da Índia Piaba“, que trouxeram o seu público fiel e, no palco, fizeram uma grande mistura com todos os elementos da música nordestina e trouxeram o que nossa terra tem de melhor, muita ginga pra dar e vender.

Legado da Feira da Música
Um dos pontos positivos dessa edição foi a transmissão ao vivo do Festival pela TVC, que engrandeceu e aumentou ainda mais o alcance do evento e que pode ser um grande diferencial em futuras edições. A limpeza é outro ponto alto, a Praça dos Leões estava simplesmente linda todos os dias. As oficinas e espaços alternativos também eram bem interessantes e sempre bem ocupados com jam session rolando, inclusive com a participação da lenda Lorão do Rap numa sessão de improviso. Outra grande melhoria foi a inclusão do after durante todos os dias de festa, que além de facilitar ainda mais a interação do público e os artistas, deixou o festival com uma pegada mais cosmopolita, acompanhando as mudanças comportamentais do público local e também inovando na cena.

Um ponto negativo foi uma notável queda no público, que podemos relacionar com vários fatores. Um deles é o contexto político, já que Fortaleza vive uma onda de repressão aos movimentos de arte e cultura na rua, e o medo de a polícia avacalhar com uma festa (nunca as da igreja) é constante na mente dos moradores de Fortaleza. Outra possibilidade é o fato de os 2 palcos principais serem um pouco distantes um do outro, o que acabou dispersando o público, de uma certa forma. Pela perspectiva do Hip Hop Cearense, sentimos falta de uma atração de peso nacional para atrair ainda mais o público do Rap pra festa, como aconteceu em edições anteriores, mas foi compensada pelo destaque dado a mais um artista local que merecia essa oportunidade.

Feira-da-Musica-Fortaleza-2016 (12)De uma forma geral, diante da realidade atual, o legado de mais uma edição da Feira da Música é muito positivo. A Feira da Música nos dá mais ânimo e renova todo o gás para um novo ciclo de lutas pela nossa cidade, que ainda carece de políticas públicas pra juventude e a cultura independente. Uma cidade que vem sucumbindo diante o bombardeio conservador e os vários ataques a diversidade cultural, a Feira da Música não poderia vir em hora mais apropriada. Esperamos que, em 2017, ela esteja ainda maior, dando a oportunidade pra mais artistas circularem e mostrarem seus trabalhos pra um público roxeda, que vem de todas as regiões do Ceará, Nordeste e Brasil.

Por Andrézão GDS, músico paulistano radicado em sua amada Fortaleza.

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