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Desilusão Política No Brasil Faz Gabriel, O Pensador, Atualizar Própria Música

Leonardo Cássio | Música 22/02/18 - 10h Leonardo Cassio

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Desde 1889, quando o Brasil abandonou o regime imperial e optou por ser uma república presidencialista, a democracia vive em constante perigo. Governos autoritários, como o de Getúlio Vargas; o Golpe Militar, que ficou mais de duas décadas no poder torturando, reprimindo e sufocando (ou exterminando) direitos civis; o presidente eleito indiretamente, Tancredo Neves, que morreu antes mesmo da posse e deu lugar a José Sarney, advindo de um partido da ditadura… Só em 1989, depois de muitos anos com os militares no poder e uma eleição indireta, a população pode finalmente votar no seu representante.

Fernando Collor chega à Presidência para ser destituído em 1992, entre outros motivos por ter confiscado a poupança dos brasileiros. Pura desilusão. É neste ambiente instável e sofrível que aparece o então garoto Gabriel, O Pensador, que lança a música “Tô Feliz (Matei o Presidente)”. Em uma época sem Youtube e redes sociais, a força de divulgação eram as rádios. A música virou um hit, foi censurada e Gabriel, o Pensador lançou seu primeiro CD no ano seguinte.

A faixa apresenta um cenário anárquico, com o assassinato do ex-presidente (atualmente Senador), uma espécie de vingança popular após a traição dele contra o povo, que ficou bem feliz com o ato realizado pelo próprio Pensador, autor da letra: “Hoje eu tô feliz (minha gente!) / Hoje eu tô feliz matei o presidente“, entoa o rapper.

25 anos depois, outra geração quebra a cara com a política e mergulha em um oceano de desilusão. Depois da estabilidade econômica e bonança de 16 anos dos governos Fernando Henrique e Lula (se considerar o primeiro mandato de Dilma chegamos a duas décadas), o Brasil está mergulhado em uma crise aguda econômica, social e política, presidido por alguém que tem 3% de aprovação.

Com mais que o dobro da idade, desiludido novamente, Gabriel, O Pensador atualiza a emblemática música de 1992. “Tô Feliz (Matei o Presidente) 2” mostra a mesma desesperança que acomete a população brasileira, refém de uma classe política oligárquica, corrupta e merecedora dos piores adjetivos possíveis. A fase 2 da música apresenta um artista mais reflexivo, menos raivoso – “Que é isso? Eu sou da paz, detesto arma de fogo / Deve ter outro jeito de o Brasil virar o jogo” –, mas não menos indignado.

O conceito de matar o presidente apresentado na música é mais uma metáfora para o sentimento de mudança ampla que a maior parte da população sente. É o desejo da morte da casta política que deteriora o país há anos: “Eu não matei nem vou matar literalmente um presidente / Mas se todos os corruptos morressem de repente / Ia ser tudo diferente, ia sobrar tanto dinheiro / Que andaríamos nas ruas sem temer o tempo inteiro“.

Gabriel, O Pensador sofre certa rejeição de pessoas que não o consideram rapper, muito por conta de nunca ter sido pobre, o que eu considero uma bobagem. O que é inegável é que a obra do músico é totalmente focada em problemas sociais e temas polêmicos e complexos. Trabalhando com literatura infantil e ações sociais, o artista carioca poderia ficar em silêncio e prosseguir com os novos projetos, porém, repagina uma faixa que canta o desencanto de duas gerações com a classe política. O resultado são quase 9 milhões de views desde outubro de 2017 e a triste constatação de que estamos no caminho errado há anos. Veja o clipe abaixo:

Ouça a primeira versão da música:

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