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“O Conhecimento É Uma Afronta Ao Inimigo” | Entrevista

ENTREVISTAS | Música | Slider | Thais Polimeni 11/04/18 - 09h Thais Polimeni

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Em uma das minhas crises dos 30, estava voltando do Teatro com uma amiga médica e me questionei o que eu poderia fazer de útil pra humanidade. Tenho muitos amigos da área da saúde e são os que menos têm crises existenciais referentes à profissão. Acredito que seja porque eles têm um propósito que é confirmado diariamente, ao ajudar diretamente as pessoas, ao cuidar, dia após dia, de seus pacientes.

Como tenho variadas opções pra preencher o campo “Profissão” nos cadastros da vida – mas nenhuma delas associada à área da saúde -, uma das soluções que encontrei, enquanto jornalista (não diplomada, porém com DRT – os diplomados piram!), foi ajudar a humanidade compartilhando informação útil e verdadeira (em tempos de fake news, é importante avisar!). Foi a partir desse insight, também, que percebi a importância de me posicionar politicamente, saindo da minha zona de conforto de cima do muro e tentando mostrar minha opinião a partir do que vivo e da experiência de pessoas próximas a mim.

Por isso, pra mim, dá um orgulho poder ajudar na divulgação de trabalhos transformadores, como fizemos com o vídeo sobre ‘Patafísica, do nosso amigo Guilherme Trucco (assista aqui), e estamos fazendo agora com o novo trabalho do Andrézão GDS (já conhecido por aqui) e mais três rappers, que compartilham com a gente esse compromisso com a humanidade.

Foi uma das maiores (literalmente) entrevistas por escrito que já fiz. Leia de uma vez, leia em partes, demore uma hora ou uma semana, mas leia. Conversar com pessoas que nem sempre concordam com a gente, mas que mantém o respeito, assim como podemos ver nessa entrevista, é coisa rara. Espero que gostem, assim como eu amei fazer:

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: Kaneda, suas rimas são as que mais transmitem esperança de “conserto” do mundo: “Se tá em casa, arrume essa casa, se tá na estrada, construa uma ponte“. Você acredita, mesmo, que as ações locais podem gerar resultados globais?

KANEDA ASFIXIA: Acredito que a transformação real começa das sementes plantadas no microcosmo, quando há compreensão do indivíduo sobre a situação e quando ele decide tentar fazer algo, o pontapé inicial. Posso falar por mim e afirmar com quase toda certeza que esses 4 manos aqui são exemplos disso, de caras que deram o sangue pra passar por cima das dificuldades que surgiram ou foram impostas, pra seguir atrás dos sonhos, coletivos ou individuais, assim como milhões de jovens latino-americanos crescidos em lugares cheios de problemas sociais, conflitos e problemas familiares que se entrelaçam e são muito nocivos.

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: No feminismo, existem diversas “divisões”, incluindo, por exemplo, o feminismo negro x o feminismo branco, pois a mulher negra luta por direitos, infelizmente, ainda muito mais básicos que a mulher branca. Vocês todos são brancos (ou carregam traços brancos) e os rappers brancos às vezes são criticados por alguns grupos. Vocês acham justas essas críticas? Qual a importância de ter rappers brancos no cenário musical?

GDS: O rap também possui inúmeras vertentes, mas aí tem um porém, pois é justamente no que se diz, na mensagem que você passa e no que se mostra pro público é que a gente se apega na hora de fazer alguma crítica a determinado trabalho ou artista. Não cabe a nós, aqui, querer falar mal do trabalho de alguém, mas tem certas coisas que, entre nós, que amamos o rap, não podemos deixar de falar.

Esse é um trabalho apenas, entre vários que esses caras fazem em tantas quebradas. E digo, sinceramente, que eu não lanço esse clipe, esperando que as pessoas vejam simplesmente “4 caras brancos cantando rap”.  Definitivamente, eu não espero ter que me deparar com um público limitado dessa forma a todo instante.

Portanto, não vou me preocupar com isso. Se fosse assim, eu não teria nem saído de casa, muito menos sair de São Paulo pra Fortaleza e fazer a caminhada que eu fiz dentro do rap nordestino.

As críticas que eu vejo, no geral, são quase todas muito justas e muito válidas, sim, pois existe um novo público de rap que não tem qualquer relação com o movimento hip hop. Eu realmente não consigo enxergar isso de uma maneira positiva, ainda que eu seja incapaz de tentar impedir ou censurar alguém que o faça.

Eu acho que esses caras que fazem esse rap de branco, essa verdadeira apropriação de um estilo e de um movimento, vão olhar um dia pro que fizeram e pensar: “Nossa, que bosta é essa que eu fiz…“. Isso é um pouco de esperança que eu tenho ainda nas pessoas, mas também trabalho com a possibilidade de isso nunca acontecer
e a gente ter, um dia, que efetivamente combater isso.

No momento atual, a gente prefere fazer esse embate com mais rap original, com rap pesado nas ruas, mas, principalmente, com rap que honra a história do rap nacional. Um trabalho que faça jus àqueles que tramparam e abriram espaço pra essa cultura que sempre foi marginalizada por todos setores da nossa decadente sociedade. Ao contrário deles, o rap continua em ascensão, mesmo com tudo em volta desfavorável. O rap é aquela contradição, tipo o Corinthians, 23 anos na fila, você pode achar que a gente tá perdendo o jogo, porém, a nossa força só cresce. Mesmo nas derrotas mais amargas. E aí, quando a gente virar essa porra, ninguém mais nos segura.

35-nova-vanguarda-gds-2Pra concluir, então, eu acho que a importância de rappers brancos como nós, que não são babacas como muitos rappers que se vê hoje em dia, é justamente pra o rap não perder o seu caminho, pro rap nacional manter vivo seu legado, fiel às causas dos oprimidos e excluídos. Importante ressaltar e lembrar que segregação é uma das estratégias pra controlar e também um dos sonhos daqueles racistas que nós todos nos opomos. Não faz nenhum sentido, pro momento atual da história, dividir rap pela cor da pele. Essa é uma ideia completamente superada, o orgulho negro continuará sendo sempre uma das expressões mais legítimas do rap. E tenho pena de quem não souber respeitar isso, que a cobrança vem pesada nas ruas.

Nessa luta, não podemos nos dar o luxo de escolher os nossos parceiros, mas sim contar e fortalecer com todos aqueles que estão na mesma correria que a gente.

O declínio é evidente em toda a sociedade, e no rap não é diferente. Uma geração de rappers fakes vem com toda estrutura que os grupos originais da quebrada nunca nem sonharam em usufruir. E a gente tá chegando agora, no sapatinho, depois de anos de luta, não é justo a gente ser tirado pra louco.

Penso que, pra gente estar hoje enfrentando o sistema, arriscando nosso pescoço, inclusive, é também pra não deixar que apaguem a história daqueles que ousaram se levantar contra o genocídio e o fascismo.

Uma brincadeira que eu faço muitas vezes sobre essa questão, é que eu sou branco fazendo rap de preto. E isso é tão louco que eu já vi até preto fazendo rap de branco. Até porque racismo reverso não existe, mas o preconceito e a estupidez vem de todo lado. Nunca a esquerda produziu tanto lixo, como no Brasil de 2013 pra cá.

Se fosse pra resumir isso tudo, eu usaria uma rima do meu mano Juninho Brown lá de Natal que diz: “Cada caso é um caso, todo certo é o certo. Se tu faz pelo certo nada vai dar errado“. Diferente das castas do judiciário, o público do rap costuma ser muito justo.

Em especial as mulheres que são sempre as mais sensíveis às mensagens que passamos nas nossas letras.

DUZZÃO: Na verdade, eu sou pardo, filho de negro com branco, mas enfim, as críticas a rappers brancos existem, porém, são menos atenuadas que nos Estados Unidos por exemplo. De forma geral, isso nunca foi um grande problema no rap brasileiro, se as críticas são feitas unicamente por conta da cor do rapper, eu não acho válido e vai contra tudo que acredito. Usando eu mesmo de exemplo, falando como apreciador do rap, sempre me preocupei mais com a mensagem que está sendo passada do que com a cor de quem a canta.

Acredito que a maioria das pessoas se conectam com os rappers dessa mesma forma. Não vejo importância em rappers brancos no cenário musical, eu vejo a importância da população periférica se expressar por meio da música ou de qualquer outra expressão artística independente de sua etnia. Agora, se for para falar de representatividade, aí é outra fita.

35-nova-vanguarda-mema-fita-1MEMA FITA: Na verdade, sou peruano, meus traços são mais vermelhos do que brancos. Posso estar enganado, mas não me recordo de ver, no Brasil, grupos de Rap sendo criticados apenas por serem brancos. Muito pelo contrário, eu mesmo, quando decidi doar minha vida a essa cultura, fui muito bem acolhido.

O Rap é uma música de origem preta, periférica, isso é um fato. Mas acredito que o público se liga bem mais na mensagem que é passada, do que na cor da pele do mensageiro, manja?

E não, não vejo importância alguma em ter rappers brancos no cenário musical, vejo a importância de ver as pessoas do gueto produzindo e articulando, independente da sua etnia. Acompanhei recentemente um caso, de pessoas brancas, veteranas do rap nacional, com discurso extremamente racista.

Então, se existe alguma importância, é a de conhecer e respeitar o movimento que escolheu fazer parte.

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: Andrézão GDS, hoje em dia, a polarização política é muito criticada. Porém, sua música critica abertamente os partidos e políticos que se autodefinem como “centro” ou “direita”. Essa polarização é inevitável? Você acha possível uma mudança sem polarização política?

ANDRÉZÃO GDS: Uma Nova Vanguarda não pode ser descolada da Velha Vanguarda. No rap não é diferente da história e das revoluções populares. Convencer as pessoas a não encarar a luta de classes vem sendo uma das estratégias mais utilizadas pelo sistema, e assim continuar tendo no próprio trabalhador explorado, sua força pra manter o seu poder.

Se eu estivesse errado ou mentindo, as grandes empresas não estariam investindo tantos milhões em falsa ciência e propaganda desde muito antes da segunda guerra.

Eles realmente precisam da nossa contribuição pra manter as coisas girando. E é nesse sistema de escravidão voluntária que a direita e os liberais enquadram o povo. É toda uma campanha pra imprimir esse padrão de pensamento reacionário, que a própria esquerda hoje não escapa a essa lógica.

Pra esse tipo de pergunta, com essa complexidade e essa dimensão, não basta eu chegar aqui e falar da minha opinião sobre as coisas. É necessário recorrer à história. Justamente pra não sermos pegos toda hora de surpresa, com coisas que já são repetidas.

Uma geração de revolucionários, que despreza a própria história, é justamente a geração que assiste a um golpe e não faz nada além de reclamar nas redes sociais. E reclamam justamente das pessoas que fazem algo.

Então, analisando a história e os fatos, se você realmente for sério e estiver disposto a encontrar essa verdade, você vai perceber que não existe escolha pro povo.

Estar realmente livre desse controle, dessa dúvida, é justamente o momento em que se assume um compromisso com a luta e a mudança que o mundo precisa, e a partir desse momento já não há mais escolhas a serem feitas. Não há mais volta.

E eu acho que é engraçado como as pessoas entendem por liberdade, justamente o contrário. Elas acham que vão escolher todo dia uma coisa diferente, uma roupa diferente, um cabelo diferente, uma tatuagem nova, um novo restaurante. Aí, em um determinado momento, após ser explorado por um tempo, a pessoa chega e diz: “Pronto, agora eu tenho dinheiro e sou livre pra escolher tudo que eu quiser“. Quando, na verdade, a liberdade é justamente o oposto disso, liberdade é não ter escolhas a fazer. Afinal, se você já está livre, agora vai lá e vive essa porra. Você não escolhe mais entre isso ou aquilo, pois você já sabe o que é certo e o que precisa ser feito. Aí, sim, você tem atenção e um propósito, que são a razão de você existir. Se o dinheiro fosse a fonte da felicidade, da plenitude, as pessoas ricas não seriam tão vazias de mente, corpo e espírito.

Eu vejo que o rap trai a sua própria história quando mostra pras pessoas esse mundo, que é totalmente doente, como se fosse algo aceitável, ou até naturalizam essa nossa condição atual. Como se o que somos hoje fosse o mais alto patamar. Mas, pra enxergar que isso não passa de ilusão, basta olhar em volta a desigualdade que não para de aumentar em países controlados por liberais e fascistas.

35-nova-vanguarda-gds-1Portanto, é impossível uma solução pra o Brasil, enquanto o cara que pega busão, metrô, que fica sem décimo terceiro, férias… Esse mesmo cara tá no Facebook defendendo o Bolsonaro e o Dória. A gente precisa ir realmente fundo na origem disso. E poucos vão querer chegar na resposta certa pra essa questão. Porque, quase sempre, procurando essa resposta, irão encontrar o próprio rabo e a mudança logo esbarra em algum privilégio que eles não estão dispostos a perder. Ainda que estejam lá, jurando que são de esquerda, e postando no Facebook suas teses, pior, geralmente sobre a vida que eles não vivem.

Então, hoje, o cara que mandar a real, é censurado pela direita e pela esquerda, também. Essa ideia de fugir da polarização não é diferente do papo de administrador do Dória. É só mais uma mentirinha pra você acreditar e deixar eles controlando tudo no nosso lugar. Ao meu ver, pro povo só resta ter consciência de classe pra, a partir daí, realizar a luta organizada ou, caso contrário, sucumbir à destruição desumana do capitalismo e à elite global.

Assim como Che Guevara, eu sou um marxista convicto e também compreendo que a revolução toma sua forma e seu rumo de acordo com a história de cada povo. E isso parte sempre do indivíduo. O que seria a revolução senão a gente poder tirar o melhor de cada ser humano e colocar ele em prol da coletividade e, dessa forma, alcançar o equilíbrio onde todos possam estar protegidos e assegurados?

Até quando vamos aceitar uma mídia que enaltece o militarismo e uma indústria de guerras, todas forjadas em mentiras, guerras em nome do sonho americano, que é, na verdade, um pesadelo que matou 40.000 mulheres apenas na Líbia, só numa brincadeira da Hillary Clinton. E depois fingir que se comovem com a Síria? E aí não se fala mais nisso, e God Save America? Essa porra tem que acabar.

Querem que a gente acredite que eles estão querendo salvar a Síria? Sério, isso? Salvar como? Quando estão lá apenas tentando outra vez destruir um governo legítimo. Atacando um povo que se defende com heroísmo pra garantir que as garras imundas do império não estejam lá sugando cada gota de vida pra transformar tudo em lucro.

Vamos aceitar sempre uma mídia que, ao falar sobre Cuba, faz cara de nojo sem demonstrar qualquer consideração à realidade de Cuba, onde nenhuma criança morre de fome, muito menos se acabando em guerras pelo tráfico de drogas. De onde vem essa superioridade moral dos jornalistas brasileiros? O que eles fizeram pela humanidade, pelo Brasil pra falarem com essa autoridade sobre a história e a realidade de outros países?

Uma mídia arrogante e que promove a ideia de mais armas no mundo, quando o mundo inteiro se junta pra dizer justamente o contrário. O mundo grita: “Não queremos mais armas“. Então você liga a TV da sua casa ou o rádio e veja com que tipo de gente você se depara, olha quem está falando com a população.

Até quando vamos aceitar isso? Porque eles só estão lá, ainda, porque nós deixamos.

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: Hoje em dia, muito se tem falado em representatividade, porém, percebe-se a falta de diversidade feminina, LGBTQ e racial em frente às câmeras de “NOVA VANGUARDA #1: Da Rua Pra Rua”. Há essa representatividade na equipe técnica? Vocês chegaram a pensar nisso?

GDS: Sobre essa questão de representatividade, eu posso dizer que vejo isso com muita convicção. O rap representa tudo e todos. Não há um movimento, uma causa, uma luta que emane da alma do povo, do sofredor e do oprimido que o rap e o hip hop não abrace. Não tem como algumas feministas tentarem impedir as minas de curtirem determinado artista, principalmente quando o que se fala são coisas tão importantes pras mulheres, também. No contexto da Nova Vanguarda, estamos todos inseridos, homens, mulheres, brancos, pretos, índios e mestiços. A faixa nem chega a tratar a questão de gênero, pois, pra esse tema, essa questão não é a principal.

Portanto, nesse som, nós estamos falando em nome de todos que não se calam diante das injustiças, e não se deixam levar pelas mentiras que são contadas como verdades.

Talvez um dos erros que a nova esquerda esteja caindo nessa tsunami de (des)informação, é o de colocar acima da luta de classes, as lutas das minorias. Acredito, com plena convicção, que não existe feminismo sem um corte de classe, não existe luta antirracismo, sem tratar a questão do imperialismo. Todos aqueles que ainda tem virilidade na alma, que não se entregaram pra esse sistema brutal; as pessoas que têm como princípio e moral defender a vida como maior patrimônio ao invés da propriedade privada, certamente irão se identificar com essa música.

Nesse primeiro volume da série, o critério não era serem homens brancos, como pode parecer àqueles que tem a mente fechada. O único critério era simplesmente serem pessoas que realmente têm uma atuação séria nessa luta contra o golpe. Pesquisem aí sobre os raps que vêm rolando e até “bombando” na internet, se você vai encontrar brancos com essa qualidade que mostraram os manos em “Nova Vanguarda”. Vou te poupar disso, e te adianto que vocês não vão encontrar.

Então, eles não estão nessa por serem brancos, mas porque são aqueles manos que eu conheci justamente nessa trajetória como guerrilheiro, indo do Nordeste até SP e, ao chegar lá, ver que a caminhada deles e a nossa aqui no Nordeste é a mema fita.

Foi por enxergar neles essa qualidade de poder construir algo juntos em igualdade e num sistema de somatória, que eu senti que esse trampo seria importante pra todos nós e que a gente estava no caminho certo. Então não vai ter ninguém pra tirar nosso direito de estar aqui e representar os trabalhadores e até os marginais desse país, e isso inclui os negros, mulheres, lgbtqs e todos que estão encarando a vida dura na sociedade capitalista.

Acredito que não foi se apoiando em privilégios que realizamos esse trabalho. Muito pelo contrário. Foi, como sempre tem sido pra nós, na base de muita luta e superação.

Penso que na produção de um clipe como esse, feito por pessoas como nós que não contam com qualquer incentivo financeiro ou apoio de organizações políticas, não há muitas alternativas. Não há a possibilidade de eu fazer uma superprodução que possa representar todos. Nesse trabalho, especificamente, não havia nem orçamento, nem tempo hábil pra isso.

O que nós pensamos a todo momento é que nossa letra e nossas ideias não podem trair jamais as lutas do povo. E vejo que isso ficou muito claro, da parte dos 4 poetas que reunimos em “Nova Vanguarda #1”.

Na própria letra do Neto, eu vejo várias referências, entre elas, citando algumas das minas do rap. Então, artistas independentes que se juntam pra fazer um som como esse, só tem a opção de fazer aquilo que está ao nosso alcance, e trabalhar com uma equipe que esteja ali disponível pra dar conta dessa missão.

Tivemos pouco tempo entre o processo de criação das letras, depois a gravação no estúdio, pra em seguida a filmagem. Tudo isso foi em questão de 3, 4 dias. E olha o desempenho e compromisso desses caras. Você pode ter certeza que essa mesma humildade eles vão encontrar quando forem cantar no Nordeste. Pois nossa gratidão é eterna.

Daí filmamos e logo eu já tinha que voltar pra Fortaleza na mesma madrugada. Se você vir o clipe, entendendo essa nossa realidade, vai perceber que tem muito mais coisas que enaltecem o povo oprimido do que algo que esteja faltando pra representá-los. A gente sabe que, ali, fizemos o melhor que a gente podia.

Então é complicado a gente ser cobrado por algo que faltou nesse trabalho, pois, da nossa parte, há um grande compromisso e um cuidado em continuar abrindo espaços pra mais vozes e ainda mais diversidade na cena. É algo que o Coletivo Maloqueria Nordeste vem se comprometendo o tempo todo nesses 5 anos. Basta ver os trabalhos que
a gente vem fazendo nesses anos, tá tudo no nosso canal. Em meio a acertos e decepções, não existe nenhuma frustração que nos faça deixar de acreditar nessa ideia de fazer as coisas coletivamente. Estamos felizes de poder compartilhar com vocês outro projeto.

Antes do Rico Dalasam vir a primeira vez pra Fortaleza, já havia representatividade nos shows do Coletivo Maloqueria. Quando abrimos o show do Criolo no Carnaval de Fortaleza em 2015, uma das artistas convidadas, na ocasião, por mim, foi a Verônica Vallentino, que é uma das maiores representantes do movimento LGBT. Então, o primeiro show rap com representatividade LGBT no Ceará foi do Andrézão GDS em fevereiro de 2015.

Sobre diversidade racial, respeito, isso é algo que não vamos desapontar nosso público jamais. É a nossa própria história, ninguém cuida disso com tanto amor como nós mesmos, que dedicamos nossa vida totalmente nessa missão. A gente convive no underground, nas lutas, o rap, o punk. Habitamos os mesmos espaços, e, quando a gente decide se juntar num show importante, é justamente a nossa vontade de dizer pro mundo: “Foda-se os racistas de merda“.

E posso até adiantar que o que vem pela frente nos próximos volumes das séries Nordeste é o Topo, Gueto Heroes e também da Nova Vanguarda, responderão ainda melhor essa questão.

35-nova-vanguarda-duzzao-1DUZZÃO: Em frente às câmeras da Nova Vanguarda existe representatividade de minorias, primeiro somos todos periféricos, segundo tem um nordestino e um peruano, na parte técnica, por trás das câmeras tinha um negro e uma mulher. Para ser bem sincero não pensamos muito nisso, a junção da banca foi mais por afinidade e compromisso com a mensagem.

Obviamente, não pensamos em deixar negros e mulheres fora do clipe, simplesmente aconteceu, muito por conta de acreditarmos que o nosso discurso transcende tais questões. Isso não quer dizer que não achamos a questão da representatividade importante, pois ela é muito importante, mas acredito que não estamos tentando assumir um papel que não é nosso, muito menos tentar obter um protagonismo que não nos pertence.

Na Nova Vanguarda, a luta é pelo ser humano.

KANEDA ASFIXIA: Acho que falta representatividade e que nossas atividades muitas vezes revelam isso, por mais que sejam bandeiras que solidarizamos de corpo e alma. Por culturalmente estarmos envoltos em espaços e processos que não são nada inclusivos e, muitas vezes, são hostis com o que diverge do convencional, padronizados, dentro de um estilo musical, de uma roda de dança, de um palco, uma área técnica e outros espaços em que a cultura de massa muitas vezes amassa quem não se enquadra ou não é igual, temos que estar atentos pra isso a cada instante, inclusive pra não sermos engolidos artisticamente.

Acredito, portanto, que todas essas lutas citadas convergem numa só, apesar das diferenças, num processo muito longo de abrir caminhos uns aos outros, pouco a pouco, de respeitar e apoiar as falas de quem corre do mesmo lado e pensa no progresso coletivo. E as pautas são muitas. No caso, a Nova Vanguarda é a ponta de um iceberg de uma cena em que reunimos quatro caminhadas pra falar um pouco sobre uma pequena porcentagem do que é pertinente pra cada um.

Com certeza, daria pra ser maior, mas com certeza a cena, em geral, além de maior, pode ser ainda mais representativa, cabendo à nós o devido respeito e atenção.

MEMA FITA: Muito se tem falado, mas até que ponto essa representatividade é verdadeira ou é convencional? Não acho justo abordar temas que merecem muito respeito e atenção, somente pra se autopromover, sabe?

Sou homem, fui criado numa sociedade extremamente machista e homofóbica, e estou num processo diário de desconstrução. Penso que, nessa questão tenho muito mais a receber do que a passar, então prefiro deixar essa missão pra pessoas que realmente têm mais engajamento pra defender a causa como, Rap Plus Size, Liniker, Rico Dalasam, Luana Hansen, entre vários outros talentos do cenário.

A Cypher #NovaVanguarda é um projeto idealizado por um nordestino, filmado pela Coleta Filmes (produtora independente), no Jd. Maria Sampaio (bairro de exclusão em SP, também conhecido como “área de risco”), que aborda temas políticos e denúncias de um estado que não funciona. Acho que a nossa representação é exatamente essa.

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: Duzzão, o rap, de acordo com suas rimas do clipe “NOVA VANGUARDA #1: Da Rua Pra Rua”, é um instrumento de denúncia e protesto. Qual o impacto que você pretende causar com esse trabalho?

DUZZÃO: Rap, para mim, sempre foi mais do que um simples ritmo musical, é uma ferramenta de transformação, protesto, denúncia e muitos outros predicados. Eu fui influenciado pelo rap dos anos 90, que trazia consigo fortes marcas dessas características. Eu não anulo o caráter de entretenimento que o rap possui, eu também exploro outras vertentes, mas me identifico muito com o rap de mensagem, no cypher Nova Vanguarda eu tive a honra de poder explorar esse lado com meus irmãos de rima.

O meu intuito é influenciar as pessoas da mesma forma que fui influenciado, que se resume em tirar a venda dos olhos, eu mesmo aprendi muito mais sobre o funcionamento do aparelho do Estado, da desigualdade social, do controle de massas e da manipulação midiática por meio do rap, por meio de músicas que me deram muitas informações que eu não aprendi na escola.

Quando reafirmo isso com minhas rimas, apenas estou retribuindo o que o rap fez por mim, um dia, e ainda continua fazendo. Tem uma rima em uma música que fiz com meu mano Mema Fita que diz “Meu rap é salva-vidas, não permite que eu me afogue“. O impacto que quero causar com meu trabalho é exatamente esse, ser salva-vidas,
para que meus irmãos periféricos não se afoguem no dilúvio das mazelas sociais.

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: Mema Fita, os que se autodefinem “cidadãos de bem” geralmente dizem que “se manifestar, tudo bem, mas sem violência”. Porém, há a máxima do Malcolm X:Não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor“. O Brasil está a ponto de explodir, tamanha é a desigualdade e a falta de ética dos políticos. Você acredita que a reação dos oprimidos seja a única saída? Ou há alguma outra solução?

MEMA FITA: Eu quero muito acreditar que exista uma saída, mas, até o momento, não enxergo perspectiva pontual de mudança. O plano foi muito bem arquitetado, trabalharam certinho. Desde o desembarque da primeira caravela, somos todos “marionetes” de um sistema podre, e o que me preocupa é a grande maioria não enxergar as cordas, liga?

Falar sobre violência é complicado, a gente é atacado 24h por dia. A ação do inimigo é explícita na condição e valor abusivo do transporte, no esgoto a céu aberto, no hospital em condição desumana, entre vários outros atos que, pra nós, se tornaram comuns. Ser pobre no Brasil é conviver com a violência diariamente. Eles trabalharam tão bem, que hoje esse mesmo povo pobre elege um cara como o Dória.

Nessa condição, a única alternativa que temos é nos apegar aos livros. Só a educação pode virar esse jogo, o conhecimento é uma afronta ao inimigo.

Precisamos entender o quanto a nossa ignorância é lucrativa pra elite, o jogo deles é sujo, o povo desinformado é a base que sustenta esse pilar e só a educação pode mudar esse quadro. Acredito que essa é a chave.

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[CULT CULTURA | Thais Polimeni]: Por fim, vocês têm esperança no Brasil? Existe algum país/estado/cidade ou comunidade que vocês consideram, pelo menos estar no caminho da igualdade?

GDS: Eu tenho muita esperança, sim, não só no Brasil, como toda América Latina, e até mesmo nos EUA. E percebo que o nosso inimigo ataca justamente aí, na tentativa de destruir a esperança. Vou citar alguns amigos da Paraíba, chamado Menestréis MC’s: “Você acha certo, profissão repórter, só mostrar violência, miséria e morte?“. Então, eu vejo que o rap é, sim, uma das formas de manter e, muitas vezes, resgatar uma esperança que já foi arrancada ou perdida.

Em muitos lugares onde eu passei na minha trajetória pelo Nordeste, pude me deparar com muitas pessoas de imenso talento, mas que não conseguiam mais enxergar isso nelas mesmas. Muitos artistas com potencial desistindo dos seus sonhos. E percebi, muitas vezes, eu, ali, sem nenhuma pretensão, na correria como guerrilheiro, vendendo meu CD, sozinho na estrada, de mochila, deixando de lado família ou qualquer sonho individual, pra estar na ativa com disposição pra encarar a luta revolucionária, estava conseguindo passar esperança pra essas pessoas. E que a mudança que eu promovi na minha própria vida, seguindo nessa trajetória sem qualquer apego ao passado ou à minha vida antes de eu abraçar essa missão, foi deixando marcas em todos lugares por onde passei.

Então, eu aprendi que esperança é algo que a gente passa de um pro outro. Na política, eu vejo esperança em Lula e na retomada do poder pelo Partido dos Trabalhadores. Não tenho esperança e não me iludo com nada que essa nova esquerda (ao meu ver, muito mal preparada e também mal intencionada) vende e prega como sendo revolucionário.

Veja bem, estão agora mesmo dizendo “Foda-se o Lula”, apoiando a Lava a Jato, que é a maior farsa que esse país viveu na história recente. E aí fazendo campanha de boicote à Netflix, assinando o maior atestado de imbecilidade que se pode declarar no atual momento.

Estamos no país do golpe midiático, judiciário, imperialista, orquestrado por aqueles que detém o poder e que controlam todo o sistema monetário. Como podem se apresentar para o povo como revolucionários, os jovens que caçavam Pokémon enquanto o golpe corria solto? O cara que precisa do Lula pra ter uma escola digna pro filho, a mãe trabalhadora que precisa do PT pra não ser explorada por fascistas, tá preocupada com Netflix?

Ou, até mesmo, o que dizer pra aqueles aloprados que pregavam a cultura de sarrar e lacrar, enquanto Temer, Globo e sua quadrilha fascista praticavam a perseguição ao Lula? Não houve, por parte dessa juventude, qualquer defesa ao governo anterior ao golpe, governo que implantou tantas medidas que empoderaram a maior parte da nossa população.

Portanto, a forma irresponsável como essa nova esquerda, hoje, vende conceitos verdadeiramente revolucionários, mas de forma totalmente corrompida, tais como Empoderamento (emburrecimento e hipersexualização), Lugar de Fala (censura e autoritarismo), nos levam pra um vazio sem precedentes, uma inversão de valores, e é justamente por isso que eu sempre me manifesto, alertando que essas pessoas, na verdade, nem de esquerda são, pois nunca existirão liberais de esquerda. Os liberais não fazem nada pra impedir que a população apoie a sua própria escravidão. Não fazem nada pra quebrar as correntes que nos mantém presos.

E não falo nem de correntes amarradas nos pés, como fizeram no passado e hoje tentam colocá-las novamente, mas falo de correntes que trancam nosso pensamento e nos impedem de enxergar a verdade por trás de tudo isso e construir, dentro dessa diversidade, um consenso que vá na direção contrária do que propõem nossos inimigos.

Repare que são sempre eles que falam de autocrítica, quando atacam a esquerda tradicional, mas que em nenhum momento, de 2013 pra cá, eles botaram essa mesma autocrítica em prática. Como se não tivessem nada a ver com o golpe, só porque gritam “Socialismo”, mas estão lá vestidos de amarelo igual os coxinhas, né?

Por isso, a gente não vai nunca dar margem pra quem brinca com questões como a segregação dentro do rap. Isso é outra coisa que a história já ensinou e o azar é de quem não aprendeu.

Fala-se muito, sem qualquer reflexão que o comunismo não deu certo? O que seria não dar certo? Se o comunismo não tivesse dado certo, não teria tanto ódio ao comunismo financiado pelas elites capitalistas, que foram inclusive os maiores financiadores do nazismo e do fascismo junto com as igrejas. Bastava eles deixarem os países comunistas se quebrarem sozinhos, e logo o povo iria restaurar o tal sonho capitalista, não é verdade?

O fato é que os capitalistas sabem que o jogo deles é sujo. É um sistema que tem como lei a escassez artificial controlada por eles que detém os recursos. Eles sabem, também, que sem o povo pra eles explorarem, logo são eles que desaparecem.

Mas só que pra humanidade dar um passo, é justamente isso que precisa acontecer. Por enquanto, o esporte favorito do cidadão médio brasileiro é achar que é rico. Basta uma pesquisa séria pra constatar que, onde o comunismo se organizou, você pode ver também que ele já deu certo, e certamente onde havia revoluções não ocorriam tantas aberrações como nesse Brasil de hoje, uma colônia neoliberal fascista.

DUZZÃO: Podemos pegar de exemplo a Hungria e a Dinamarca, que segundo o Coeficiente de Gini (saiba mais aqui), que avalia a distribuição das riquezas de um determinado lugar, são os países com menos desigualdade social do mundo. Em contraponto, o Brasil recebe umas das piores pontuações do mundo, está entre os dez países mais desiguais do mundo. O levantamento corresponde ao ano de 2017, as informações podem apresentar distorções, de qualquer forma, podemos ter uma ideia de que “o bagulho ta loko por aqui”: 10% da população detêm as riquezas do país, enquanto os outros 90% se viram para não morrer de fome ou para atingir o status ilusório de consumo que a sociedade impõe.

A questão é simples: muita corrupção, má distribuição de renda, poucas oportunidades para a população pobre, ensino público de péssima qualidade, hospitais, cadeias e cemitérios lotados, e ainda por cima muitos pobres sendo massa de manobra e fechando com os boy, lambendo a mão do opressor.

Por isso, o rap e tantas outras manifestações que abordam essa questão são de extrema importância, somos controlados por meio do emburrecimento em massa, somos sabotados pela elite a todo o momento. A educação nos é negada porque, por meio dela, podemos nos libertar, Portanto, acredito que devemos nos informar de forma
clandestina, como muitos já o fazem, temos que ocupar os espaços, estar dentro das faculdades, ocupar cargos de liderança, exigir nossos direitos, reivindicar e ir pra cima, mesmo. Isso só será possível por meio da informação e da organização da população, por isso, a cultura do individualismo é imposta, para não nos entendermos como nação.

Tem que ser nós por nós, ou, como disse meu mano Kaneda, a parada é “Da Rua Pra Rua” ”. Porque, no Brasil, em manifestação de boy, ninguém bate panela contra a desigualdade social.

MEMA FITA: Vejo esperança nas crianças, a molecada de hoje tá muito avançada. Acho que o lance é muito mais humano, do que econômico ou geográfico.

Na Finlândia, por exemplo, que é um dos países mais igualitários do mundo, aconteceram casos de gangues que se organizavam para agredir negros e árabes. Aí eu me pergunto: “Até que ponto essa igualdade social existe, de fato?

35-nova-vanguarda-kaneda-1KANEDA ASFIXIA: Esperança, não. Boto fé demais, mas esperar já é algo me faria mal. Estamos tão distantes do ideal, então fico feliz em ver alguns de nós se libertando dos vícios, se dedicando com amor a algo ou alguém, plantando, regando, muitas vezes sem colher, e alguns, quando colhendo, sabendo dar valor ao pouco que tem e que isso faz uma diferença enorme.

Não quero citar um lugar do ponto comum de “primeiro mundo” porque muitos desses se ergueram indevidamente às custas de países como o nosso, do nosso povo. Não dá pra acreditar na história contada pelos conquistadores, seria como abraçar o diabo.

Posso dizer que o ódio é nocivo, que um bom lugar se constrói com humildade, e que isso não tem apenas a ver com a humilhação que nosso povo sofre, mas também com o respeito entre nós, o que pode, finalmente, nos levar a tratar uns aos outros como irmãos e nos ajudarmos nessa construção.

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