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O Fim Do Hangar 110

Comportamento | LUGARCULT | Música 31/07/17 - 10h Cult Cultura

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Muitas pessoas foram pegas de surpresa quando, no dia 20 de outubro de 2016 (um dia antes do meu aniversário, por sinal, que péssimo presente), a página oficial do Hangar 110 no Facebook anunciou que 2017 seria sua última temporada. No comunicado, eles dizem que o comportamento do jovem mudou e que, hoje em dia, o Hangar já não era mais o ponto de encontro que costumava ser antes do boom das redes sociais e da abertura de outras muitas casas de shows por aí.

Eu entendi – ou pelo menos tentei entender – o ponto da casa, ao decidir assim encerrar suas atividades no ano que estava por vir. Digo que tentei entender porque é difícil. Claro, já não frequentava com tanta assiduidade como fiz na primeira década do século, mas, mesmo assim, é difícil dar tchau, não? Chega a ser um pouco de egoísmo, já que não estava mais fazendo minha parte para manter a casa aberta, mas quem pode me culpar? Foram tantas bandas, tantos shows, tantos amigos. Tantas noites (e tardes) aguardando aquela banda de fora de SP que você apenas conhecia por mp3 chegar pra tocar as músicas que você já tinha decorado meses antes.

Eu não lembro a primeira vez que fui ao Hangar 110. Gostaria muito, mas não consigo lembrar. O que eu lembro é que eu tive muitas primeiras vezes. Cada nova banda que eu via, a empolgação era a mesma. Lembro de um dia específico em que os suecos do Backyard Babies iam fazer a única apresentação em São Paulo em suporte do seu último álbum (até então) e isso simplesmente me deixou maluco. O quê? Os caras da Suécia que mal aparecem na MTV vão vir pro Brasil? E pra tocar no Hangar 110? Eu preciso ver. E fui. E foi maravilhoso. Eu não consigo pensar em um show que eu tenha ido assistir com muita expectativa no Hangar e tenha saído decepcionado. Tudo ali funcionava. Até o calor absurdo dos primeiros anos que frequentei lá deixavam de ser um problema depois de algumas cervejas e algumas risadas com todas aquelas pessoas que, ou eram meus melhores amigos, ou seriam meus melhores amigos, pelo menos até o último acorde da noite. Veja bem… O fator humano era muito importante pra tudo ali ser do jeito que era. Você (eu) contava os dias pra chegar a sexta-feira, ir pra Galeria do Rock encontrar seus amigos e, juntos, irem até o Hangar. Quantas vezes não fui, fiquei apenas na porta conversando com as pessoas e, mesmo sem assistir a um show, valia cada momento? A resposta é: muitas vezes.

No sábado, 22 de julho de 2017, eu fui pela (provável) última vez até o Hangar 110. Alguns dias antes, tinha ido até a casa assistir ao Sugar Kane, banda que fez parte da minha adolescência e foi incrível, como de costume. Mas essa vez era especial. Mais especial. Além de ser a última vez na meca do punk rock paulistano, eu assistiria ao Dance of Days tocando seus três primeiros álbuns na íntegra. Eu costumo levantar, em conversas com amigos, que o Dance of Days, as pessoas gostem ou não, teve uma importância muito maior do que imaginam para essa geração, como se fosse uma espécie de Legião Urbana dessa cena. Claro, talvez tenha um pouco de “clubismo” da minha parte, porque, obviamente, foi e ainda é uma das minhas bandas preferidas, mas eu realmente acredito em cada palavra desse suposto exagero que eu tenho em relação à imagem da banda relacionada com essa cena que eu vivi tão intensamente. Ruim de horário que sou, infelizmente não peguei as bandas de abertura e entrei quando o Dance já estava se preparando para iniciar seu show. Nesse momento, me foi revelado que não era apenas um show, e sim a gravação de um DVD para eternizar aquele momento. E então o show começou, com as músicas seguindo a ordem dos seus respectivos álbuns e acabou sendo a trilha sonora do filme que começou a passar na minha cabeça. A cada nova música, uma lembrança que voltava. Relacionamentos que começaram ali mesmo; relacionamentos que acabaram na calçada enquanto eu tomava o vinho mais barato que tinha por perto; sair naquele frio absurdo e comer o clássico “cachorro quente da porta do Hangar” e depois correr para não perder o último metrô, já que as horas passavam muito rápido quando estávamos lá; amigos que são amigos até hoje, os que já não são mais e os que já não estão mais entre nós; sair de lá já pensando no próximo show…

Eu não sei nem como explicar, mas eu tenho certeza que, se não fosse o Hangar, a minha vida e de muitos dos meus amigos não seria a mesma. Não adianta, devemos muito MESMO àquela casa e talvez deveríamos ter feito mais para que ela se mantivesse aberta por mais tempo, mas tudo acontece por algum motivo e tudo que acaba é porque chegou a hora. Não existe nada mais para ser escrito do que um muito obrigado ao Marco Badin, o Alemão, por tudo que ele proporcionou para mim, para a minha geração e tantas outras nesses 19 anos. E um muito obrigado a todos que lá trabalharam e ainda trabalham. O Hangar 110 não foi uma casa de shows, o Hangar 110 foi uma escola, e lá aprendemos muito, fizemos amizades, tivemos amores e, acima de tudo, fomos felizes de uma forma que apenas daqui uns anos, quando lembrarmos daquele lugar no Bom Retiro, vamos realmente entender.

Euclides

Por Clids Ursulino. 29 anos. Música, cinema, futebol e política. E o que mais aparecer entre um café e outro.

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