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O Templo dos Cães

Adriano Tardoque | Moda e Design | Música 09/07/13 - 12h Adriano Tardoque

Nirvana

Boa parte das bandas de rock remanescentes dos anos 60 e 70 se apresentavam na década de 80 como uma “colcha de retalhos” ou “heróis da resistência” daquilo que produziram em seu tempo. Procuravam empurrar com a barriga seu legado para um contexto em que a mídia misturava inúmeras vertentes musicais no mesmo balaio, chamando tudo de rock. A música pop, tão evidenciada nesta década, tomava espaço ao lado da new wave, hard rock, heavy metal, punk e rock progressivo, dentre outros estilos, sobretudo nas publicações periódicas especializadas, como é o caso da revista Bizz, no Brasil, e da MTV, que começava a se espalhar para o mundo como aglutinadora de estilos musicais. E nesta “salada” que a indústria do entretenimento colocava à mesa, surgiam personagens que ocuparam seus espaços no mercado, passando despercebidos por uns, ou gerando idolatrados em outros. A lacuna então se preenche com o que se apresenta de opção: Michael Jackson, recordista absoluto de venda de discos na década (e criador da fórmula de produção de videoclips e da estética que prevalece na maior parte das produções do gênero nas duas décadas posteriores), permanece no topo musical, dividindo a cena com a febre das boy bands (reconfigurada para substituir os exóticos meninos latinos do Menudo, por jovens caucasianos americanos do New Kids on The Block, sendo estes imitados por uma dúzia de grupos congêneres), que apresentam boa penetração no mercado europeu. E a década 90 é iniciada com ambos, Michael Jackson e New Kids, no topo das paradas de sucesso, em quase todo o mundo, seguidos pela megalomania do Guns’n Roses (que cometeu suicídio comercial ao lançar equivocadamente dois álbuns duplos Use your ilusion I e II) e as “new-glitters-farofa” Poison, Skid Row, Motley Crue, dentre outras.

O mapa da construção de uma cena musical
O mundo passava por mudanças significativas na década de 80, tendo na quebra da URSS, talvez, sua mais importante situação. A ideia de dualidade na configuração mundial, sobretudo a proposta de um ideário esquerdista, contaminava não somente os corações politizados, mas alimentava o que se pode chamar propensão outsider de indivíduos ou grupos. No Brasil, Cazuza sintetizou bem o vazio ideológico global, que se estabelecia com a “vitória” do capitalismo, quando cantou “o meu partido é um coração partido” ou “ideologia… eu quero uma pra viver”. Não havendo mais um “norte subversivo” concreto pairando sob os campos tradicionais sociais da estrutura capital, as mentes inquietas abraçaram a angústia e já não choravam mais, com a mesma intensidade, seus “heróis que morreram de overdose”. Parecia nada ter sobrado. Mas Jimi Hendrix não poderia ter se esgotado como lenda, sobretudo para a juventude da cidade onde nasceu: Seattle. A maior cidade do Estado de Washington está localizada geograficamente na costa do Oceano Pacífico, na divisa com o Canadá, e vive basicamente da indústria de tecnologia e do turismo em parques nacionais com suas cadeias montanhosas. Do ponto de vista cultural, viveu grande movimentação com a chamada “Exposição Mundial”, ocorrida no ano de 1962. Desde então, a escassez de eventos culturais de grande porte se arraigou, tendo, nas chuvas incidentes na média de 200 dias por ano, uma das responsáveis pela falta de interesse na região. A solução para jovens entediados descendentes das classes médias baixas e mais pobres da sociedade, com mínimas opções de diversão, era formar bandas de rock, tocar em suas garagens e, quando possível, nos clubes da cidade, para espremidos espectadores sedentos por alguma coisa. A situação exigia um estilo musical simples que pudesse expor toda a revolta contra si mesmo e contra a sociedade. Eis então a adoção do punk-rock, que atendia a esses “desinteresses”. Isso cheirava a espírito juvenil.

Grunge: um nome da moda e do “movimento”
Do momento em que o Nirvana entrou num estúdio para gravar seu segundo álbum, Nevermind, em 1991, nada mais foi igual por aquelas redondezas dos EUA e pelo mundo. Logo a indústria fonográfica direcionou suas atenções para Seattle, causando um grande movimento migratório de bandas que, nesta conjuntura, buscavam o estrelato. No entanto, os produtores desse estilo musical, como o lendário Jack Endino, estavam bem antenados com o contexto geral do nascimento das bandas de Seattle, sendo ele oriundo deste meio. Assim, notaram que a abertura de leque quanto às vertentes musicais era fundamental para a expansão do “movimento”, seguindo basicamente três linhas diferentes, aproveitando a configuração das bandas locais: o punk-rock, tendo como maior expoente o Nirvana; o hard rock, mais aproximado ao Pearl Jam; o Heavy Metal, encabeçado por Soundgardem e o Alice in Chains. Os hábitos e vestimentas que adornaram esta ebulição, além dos cabelos longos e largados, comportava camisão quadriculado de mangas compridas (usado por lenhadores da fronteira com o Canadá), os bermudões de surfista, (como os usados por Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam), a calça surrada e o tênis All Star detonado, foram aderidos pela indústria da moda que, ali, abriu seu nicho do que chamou “moda grunge”. Apoiada no lançamento de cada uma das bandas citadas acima, que a tiracolo trazia outras bandas em seu rastro, buscou legitimar o que se apresentou como “Movimento Grunge”, o que, de fato, passou longe de ser um movimento.

Um “antimovimento”
A proliferação desta ideia de “movimento” para a cena que surgia é uma invenção antiga, criada nos bastidores da indústria, que desde a década de 50 vê o rock como grande fonte de lucro, tendo na juventude seu consumidor nato. Embasou-se muito mais na “rebeldia” de se vestir do que propriamente numa proposta efetiva de qualquer ideia de transformação social. Não é por acaso que, no auge desta febre, (na primeira metade na década de 90), uma bermuda custava cerca de 300 dólares em qualquer loja da cidade. Se existe uma definição que caiba ao tema, certamente está em “antimovimento”. Longe de levantar bandeiras de destruição total do sistema capitalista ou mesmo cantar “paz e amor” com batas coloridas e flores, o rock de Seattle gritou nos microfones o “vazio existencial de uma geração” que não apontava direção alguma e decidia então expressar isso em letras recheadas de dúvidas e incertezas, drogas e álcool, paixões e decepções. As agonias de Kurt Cobain, mais do que qualquer outro personagem do seu tempo, eram presentes em suas canções, com uma violenta distância de qualquer perspectiva otimista. A heroína, que ocupava um lugar cada vez maior em sua vida, passou a ser a fuga do tudo aquilo que lhe atormentava: como mídia, pressão da gravadora por novos álbuns, escândalos com a esposa Courtney Love, agenda lotada de shows, desentendimento com os membros da banda por questões financeiras, etc. Em 5 de abril de 1994, um tiro não tirou somente a vida do maior ícone daquele tempo, como sepultou o grunge, condenado desde o seu nascimento.

Para saber mais:

Internet
Editora Abril – Boletim Revista Bizz sobre a morte de Kurt Kobain em 1994: http://www.abril.com.br/noticia/diversao/no_288563.shtml

Rock Online – Novo livro declara a “Morte do Grunge”: http://territorio.terra.com.br/canais/rockonline/noticias/ultimas.asp?noticiaID=18980

Filmes
HYPE!. Filme documentário de Doug Pray, sobre o grunge em Seattle, lançado em 1996. Página do produtor: http://www.dougpray.com/hype.html

Kurt & Courtney. Filme documentário de Nick Broomfield, sobre a morte de Kurt Cobain, lançado em 1998. Matéria: http://www.territoriodamusica.com/rockonline/artigos/?c=104

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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