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Obra-Prima Do Radiohead Completa 20 Anos

Leonardo Cássio | Música 24/03/17 - 01h Leonardo Cassio

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1997. O grunge já havia se tornado um fenômeno com bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice Chains; e o britpop estava ganhando o mundo com o Oasis e o Blur. No meio disso tudo, havia os britânicos do Radiohead (Thom Yorke – vocal e guitarra; Jonny Greenwood – teclados; Phil Selway – bateria; Colin Greenwood – baixista e Ed O’Brien – guitarra).

“Pablo Honey” (1993) e “The Bends” (1995), os dois primeiros álbuns do Radiohead, conseguiram um ótimo patamar de sucesso na Europa, alcançando outros continentes com as faixas “Creep“,  provavelmente a música mais tocada do Radiohead em rádios e TV – lembrem-se que à época a MTV era uma potência – e “Fake Plastic Trees“, outro hit mundialmente tocado.

Com dois bons discos de sucesso no mercado, base de fãs aumentando, número de shows crescendo e apoio da crítica e de bandas como o REM, que promoviam em seus shows os discos do Radiohead, a banda tinha tudo para sentar com sua gravadora e produzir um terceiro disco de sucesso. E não foi bem assim que a coisa se deu.

Em 1996, o Radiohead contratou o produtor Nigel Godrich e resolveu produzir o próprio disco, controlando todo o processo criativo, montando-o não apenas para fazer sucesso, mas para quebrar paradigmas. Na verdade, Godrich foi chamando para avaliar parte do que a banda já tinha gravado e dar uns toques em possíveis melhoras, o que ajudaria também a minimizar os atritos entre os integrantes durante a produção – surgirá o dia em que uma produção não terá brigas.

Algumas das canções foram testadas durante a turnê que o Radiohead fez com Alanis Morissette (1995/1996), quando a banda abriu alguns shows da cantora canadense no Estados Unidos, o que os ajudou a ganhar mais espaço nas paradas estadunidenses. Com boa parte do material produzido e testado, com aprovação de Godrich, o Radiohead instalou-se no St. Catherine’s Court, uma mansão lendária na Inglaterra, para finalizar seu futuro álbum: “OK Computer“. O disco não possui nenhum overdub – técnica de inserção de novos sons ao material já gravado -, para manter o disco o mais “puro” possível. Parte dos arranjos foi gravado no estúdio Abbey Road, com todo o processo finalizado em janeiro de 1997, seguindo, então, para a mixagem final, a cargo de Godrich, que levou cerca de dois meses para finalizar OK Computer.

As 12 faixas de OK Computer explodiram no Reino Unido e Europa, com apelo positivo de crítica e público. No Estados Unidos, demorou um pouco mais para emplacar, mas em pouco tempo o disco tornou-se um referencial de produção independente mesclado a um marco de sucesso comercial. O álbum tem ares futuristas, uma carinha robótica, carregada da melancolia, marca do Radiohead. A capa do CD é de autoria de Thom Yorke, que realizou uma colagem de imagens em um fundo branco, tudo feito em um computador. A primeira faixa do álbum, Air Bag, é bem pessoal, pois rememora um acidente de carro sofrido pelo frontman da banda. Tem um instrumental que reforça o sentimento de sufocamento e agonia de um acidente.

Paranoid Android, segunda faixa de OK Computer, é, em minha opinião, a melhor música do Radiohead. O início com violão vai ganhando um ritmo mais rápido, até uma explosão de guitarras, que interpreta bem o senso de paranoia da letra, voltando a uma calmaria, similar a uma pausa após uma corrida frenética. Tive a oportunidade de vê-los tocar em São Paulo e esta música causou um frisson na galera (é galera, né?).

Subterranean Homesick Alien é uma baladinha que mergulha no terreno da ficção científica e de certo alienamento da realidade. Exit Music (For a Film) é carregada de morbidez e tristeza, e seu ritmo é lento e asfixiante, com uma progressão ao final. A música integrou a trilha sonora do filme Romeu + Julieta (1996), que tem como protagonistas Leonardo Dicaprio e Claire Danes. Let Down mantém o clima de pessimismo, falando sobre desapontamentos de um sujeito perdidão. Karma Police compõe o rol de hits de sucesso. É uma música reflexiva e ao mesmo tempo que exibe o sofrimento de alguém que está perdendo o rumo ou a sanidade.

Fitter Happier é uma provocação em forma de experimentalismo. Basicamente é a voz de um robô com ruídos narrando aspectos de uma possível vida perfeita, desconstruída de forma sutil. Electioneering tem uma pegada agitada, a faixa mais rock do álbum, com ritmo dançante e letra de protesto aos rumos da política mundial à época (que visão, hein?). Climbing Up The Walls é uma das canções mais bonitas do Radiohead. Arrastada e com clima soturno, a música parece transcrever alguém em estado de enlouquecimento. É tipo Black Mirror. No Surprises parece uma canção de natal que fala de alguém que, em algum momento da vida, entregou os pontos e quer ficar de boa. O clipe da música é bem conhecido, com a carinha do Yorke em uma redoma de vidro, que enche e esvazia de água. Para finalizar, Lucky, mais uma balada irônica e Tourist, sobre a efemeridade da vida.

OK Computer venceu o Grammy de 1998 como melhor álbum de música alternativa, além de prêmios da NME e Danish Music Awards. E isso é detalhe. O disco vendeu milhões e milhões de cópias pelo mundo, é um ícone do rock alternativo e vira e mexe está em lista dos melhores álbuns de rock e tal. OK Computer foi comercializado por gravadoras, mas é inspirador o fato da banda não ter se acomodado e ter imposto sua vontade artística, assumindo a produção do disco – trabalho hercúleo –, fato raro na época de domínio das gravadoras, o que culminou em uma obra-prima atemporal.

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