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Reggae Reconhecido Pela UNESCO

Leonardo Cássio | Música | Patrimônio | Slider 15/01/19 - 09h Leonardo Cassio

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Sempre comento que comecei a ouvir música por um caminho torto: na periferia onde eu morava tocava muito pagode, depois chegamos aos hits da “7 Melhores da Pan” (isso, a listagem da Jovem Pan) e eis que cheguei ao rock’n’roll que tanto gosto. Lembro perfeitamente os dois primeiros CDs (isso, peguei o fim das fitas K7 e o ciclo de vida completo dos Compact Disc) que comprei: Acústico Legião Urbana e The Black Album do Metallica.

A loja onde comprei os primeiros CDs ficava na Avenida Cruzeiro do Sul, na Zona Norte de São Paulo. Não me recordo o nome, mas era imensa e dava para passar horas por lá sem se cansar. Na segunda ida à loja, mais dois CDs: Nine Lives, do Aerosmith, e a coletânea Legend, do Bob Marley.

Eu comprei o CD do Bob Marley porque vi duas pessoas na escola com a camiseta dele. Internet era algo restrito à época e eu nunca tinha ouvido reggae na vida. Ouvi ao menos 5 vezes por dia durante um mês o álbum, até emprestá-lo para um amigo e virar fumaça e nunca mais vê-lo [o CD, o amigo é cobrado sistematicamente ao logo de 20 anos].

Aquelas músicas dançantes e ao mesmo tempo reflexivas, as batidas sincopadas, os trabalhos vocais, as cores do encarte, o transe que aquilo te causa era inexplicável. Daí em diante passei a conhecer mais do Bob Marley, Peter Tosh, The Wailers, Lee “Scratch” Perry, Jimmy Cliff até chegar a bandas nacionais, como Cidade Negra, que começou reggae, Tribo de Jah, Planta e Raiz, Natiruts, e as muitas canções no estilo de Gilberto Gil etc.

O final de 2018 reservou uma grande alegria para quem gosta (ama) reggae: o ritmo jamaicano virou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Veja abaixo o vídeo que fizemos sobre Patrimônio Imaterial no canal da Cult Cultura no Youtube:

O reggae surgiu na década de 60, na Jamaica (nosso parceiro e amigo Victor Fao teve a honra de tocar por lá), sendo um derivado direto do ska, outro ritmo jamaicano, e o rocksteady. Em pouco tempo se popularizou, saindo da ilha caribenha e ganhando a Grã-Bretanha [a versão de Eric Clapton para a música I Shot the Sheriff, de Bob Marley, ajudou bastante na internacionalização do ritmo] e, depois, o mundo. Muito mais do que um ritmo rico de influências africanas, o reggae carrega, assim como o rock’n’roll, um estilo de vida, além de ser historicamente uma ferramenta de combate às injustiças sociais, da busca pela igualdade e, principalmente, por colocar no radar grupos subalternos e oprimidos do chamado [termo ridículo, diga-se de passagem] Terceiro Mundo.

Há uma história riquíssima por trás do reggae, incluindo polêmicas. Possui vertentes religiosas e carrega certos estigmas pelo olhar de preconceituosos de plantão. Felizmente, a UNESCO acerta em chancelar o ritmo como patrimônio e atestar a influência da música jamaicana no mundo tudo até hoje. A parte mais interessante do texto da UNESCO em menção ao reggae (aqui, em inglês) que cita a importância internacional do ritmo musical para discurso internacional sobre injustiça, resistência, amor e humanidade, é o destaque Reggae Sumfest e Reggae Salute, que ajudam a transmitir o conhecimento sobre a arte jamaicana, além do ritmo ser ensinado nas escolas do país.

Veja que diferença: no Brasil, estão tentando afastar ícones culturais das escolas por diferenças políticas-ideológicas, enquanto na Jamaica eles se orgulham da cultura e a mantém nas salas de aula. Que bela lição para quem é a favor do Escola Sem Partido. E vale lembrar que o Frevo, o Samba do Recôncavo Baiano e a Capoeira, entre outros, são Patrimônios Imateriais da UNESCO. A arte viverá por toda a eternidade, já ideias que querem esvaziar as pessoas de conhecimento serão esquecidas. Um reggae nelas :)

Assista ao vídeo que apresentou o pedido de transformar o reggae em Patrimônio Imaterial (inglês):

Photo credit: Studio Sarah Lou on VisualHunt.com / CC BY

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