Fechar Menu [x]
Se Mistura na Foto

Tom Zé Nunca dormiu…

Música | Victor Fão 28/06/13 - 01h Victor Fão

Tomze

Nas últimas semanas andam dizendo que “o povo acordou”. Mas quer saber? Tem gente que nunca dormiu. Os músicos, por exemplo. Muitos fizeram e ainda fazem verdadeiros hinos de “protesto” que nos faz refletir (e reagir) sobre os momentos que vivemos.

Em 1968, Tom Zé surgiu no cenário musical com seu primeiro álbum, “Grande Liquidação”, lançado pela Rozemblit (guardem esse nome, falarei sobre essa gravadora numa próxima coluna). Mas foi em 72, com o disco homônimo “Tom Zé” (que anos mais tarde seria relançado com o nome “Se o Caso é Chorar”), que veio o verdadeiro tapa na orelha da sociedade. Um país que vivia sob uma ditadura ferrenha, onde não se podia escrever, nem falar e era quase impossível sair às ruas sem tomar uma dura da repressão, o músico veio com letras do tipo:

Menina , amanhã de manhã
quando a gente acordar
quero te dizer que a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai

Na hora ninguém escapa
de baixo da cama ninguém se esconde
e a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
(trecho de “Menina, Amanhã de Manhã”)

A “felicidade” a qual Tom Zé se referia era como a mídia vendia o regime militar naquela época. E foi com essa, digamos, “doçura” peculiar que o músico conseguiu passar pela censura e escrever diversas músicas de protesto extremamente conscientes daquela situação. Ele foi e é um dos poucos artistas que nunca baixou a guarda em relação às mazelas do brasileiro.

Mas é em “Senhor Cidadão” que ele consegue colocar a dor de uma juventude que sofria. Sofria com o medo de sair na rua e não voltar, com o medo de viver num país comandado pelo exército e por não poder se expressar.

Como se estivesse fazendo um discurso, que era repetido de forma displicente pelos “cidadãos”, Tom Zé questiona:

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?

Ouça esse som e entenderá o que estou falando.

Recentemente, após ter gravado a narração de um comercial para a Coca-Cola em comemoração à Copa do Mundo (“Pô, Tom Zé, logo a Coca-Cola? Se fosse a Dolly, pelo menos…”), e de sofrer represálias de seus fãs por conta disso, o genial artista respondeu da melhor forma a todas as reclamações e acusações: com a gravação do sensacional “Tribunal do Feicibuqui”. Com participações de O Terno, Emicida, Filarmônica de Pasárgada e mais um monte de gente cheia de ideias boas e muito frescor, ele rebateu todas as críticas com letras de reflexão crítica e completamente atuais.

Defenda-se já
No tribunal do Feicebuqui
A súplica:
Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?
(trecho da música “Tribunal do Feicibuqui”)

Agora, com a onda de protestos nas ruas brasileiras, Tom Zé mostra mais uma vez que nunca dormiu, lançando a música “Povo Novo”, onde trata do fato de muita gente, mas muita gente mesmo, ignorar os reais motivos das manifestações e apenas repetir o que é dito pela mídia ou pelos amigos nas redes sociais.

A minha dor está na rua ainda crua
Em ato um tanto beato,
Mas calar a boca, nunca mais!
O povo novo quer muito mais
Do que desfile pela paz

E assim, sem calar a boca, Tom Zé mais uma vez dá uma tapa na orelha da sociedade. Enquanto grandes artistas ficam calados em meio a esse caos e não se pronunciam (talvez por medo da mídia ou de ficar sem ela), ele não para de alfinetar e de nos fazer pensar.

Cara, para mim, como músico, é bom demais escrever sobre Tom Zé. Ele é o cara mais genial de todos os tempos e com certeza o artista ativo mais inventivo da música brasileira. Na verdade, acho que o mais artista dos artistas, o mais cantor dos cantores, o mais músico dos músicos, o mais visceral dos viscerais, e tudo isso sem esforço, sem fazer autopropaganda. Ele simplesmente é. Viva Tom Zé, esse nunca dormiu…

E não é que quando eu já tinha enviado o texto para publicarmos aqui no blog da Cult, sou surpreendido com mais uma música do Mestre falando dos protestos, dessa vez uma música simples harmonicamente mas complexa pra caramba, no velho estilo Tom Zé. Assim é “Convite a Pirapora” quase uma modinha caipira chamando o Povo pra Rua. Como já disse anteriormente Tom Zé é o maior, e Fim de papo.

Agora, puxando a sardinha para o meu lado, esse final de semana, dia 29 de junho, tem show da minha banda o Ba-Boom, no Tupinikim, em Santo André. Ouça nosso disco em www.projetobaboom.com.br e perceberá que nós também não baixamos a guarda frente aos opressores.

Valeu, até semana que vem.

Tomze

Ilustração – Victor Fão
Lettering – Mônica Martins da Costa

Tags: , , , , ,

COMPARTILHE ESTE POST

COMPARTILHE

COMPARTILHE

Victor Fão

Victor Fão

Trombonista e Artista Gráfico, Victor Fão é formado em Publicidade pela Universidade Mackenzie e atualmente estuda música. Acha que a arte, principalmente a música, tem que ter cor, cheiro, sabor, toque, trazendo sensações e referências mundanas. Acredita nas relações humanas, no potencial da troca de ideias em um bar, de passar o dia em estúdio produzindo e em tomar um solzinho no quintal. Urbano convicto, faz tudo a pé ou de busão.

RELACIONADOS