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O que é Patrimônio Cultural?

Adriano Tardoque | Patrimônio 19/06/13 - 09h Adriano Tardoque

Quarteirão construído na parte interna da muralha de Bayonne (França). O prédio central, arredondado, era uma torre romana de observação. Os demais prédios foram construídos entre a Idade Média e o Renascimento.

O quarteirão da foto foi construído na parte interna da muralha de Bayonne (França). O prédio central, arredondado, era uma torre romana de observação. Os demais prédios foram construídos entre a Idade Média e o Renascimento.

 

Patrimônio Cultural: ampla composição

Quero trazer aqui uma forma simples de tentar entender o que é patrimônio cultural. Sendo bem objetivo, toda a biodiversidade em que o homem está inserido, juntamente com a sua produção paralela a este meio, considerando assim a sua produção econômica, a urbanização, a engenharia, a arquitetura, a organização social e as diversas formas de manifestação das expressões dos indivíduos (teatro, música, artes plásticas, cinema, dentre outras), constitui a noção de patrimônio cultural.

Dentro desta concepção, uma gama infindável de manifestações representa a diversidade cultural de povos espalhados pelo planeta. Tão importante quanto entender o que é o patrimônio cultural é saber reconhecê-lo e, assim, conservá-lo e permitir que as próximas gerações possam dar prosseguimento neste processo. Por que isso deve acontecer? Pelo fato de que o a construção histórica de uma aldeia, assentamento, vilarejo, bairro, cidade ou país é determinante na formação das identidades dos povos. Por mais estruturadas que aparentemente sejam estas identidades, elas não estão isentas da influência de efeitos como a globalização e o neoliberalismo que, segundo Pierre Bourdieu, em artigo publicado no Le Monde Diplomatic, no mês de março de 1998, “tende globalmente a fazer a ruptura entre a economia e as realidades sociais”.

 

A experiência histórica dos Bascos

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 A vila construída dentro da muralha de San Jean-Pier-de-Port (França) é uma das passagens dos peregrinos do caminho de Santiago de Compostela.

Em recente viagem à Europa, tive a oportunidade de conhecer alguns dos territórios que compõem o País Basco, estando este localizado entre a Espanha (comunidades autônomas do País Basco , composto por Bilbau, San Sebastian e Vitoria-Gazteis); Navarra (províncias de Álava e Guipuzcoa) e a França (comunidade autônoma de Iparralde, composta de Basse-Navarre, Labourd e Soule). Conhecidos pela resistência histórica a celtas, romanos, francos, visigodos, muçulmanos, castelhanos e ingleses (não sem agregar aspectos culturais de alguns destes povos), mantiveram certa unidade territorial, além daquele que lhes é considerado o bem maior da sua cultura: seu idioma, o euskara que, embora não tenha parentesco com nenhuma das línguas indo-europeias e seja a língua mais antiga em uso na Europa atualmente, somente teve sua estruturação escrita em meados do século XVI, possibilitando o fortalecimento e a união de seu povo. Apesar dos brutais golpes que sofreu durante os anos do fascismo franquista na Espanha (entre as décadas de 30 e 70, quando se proibia não só sua articulação política como o uso de sua língua), os bascos têm um compromisso irrestrito com a manutenção do seu patrimônio cultural, mesmo sem ter uma unidade territorial física e politicamente autônoma reconhecida.

Em alguns lugares em que estive no território basco francês, as escolas alfabetizam as crianças e seguem sua formação em idioma local. A atividade rural permanece com o cultivo da cereja e da pimenta, além da criação da ovelha. Conservam-se desde sítios arqueológicos de 40 mil anos de idade (Les Grottes de Sare e Grottes de D’Isturitz), passando por torres e muralhas romanas (conservadas para ressaltar o orgulho de ter resistido a eles), muralhas medievais (San Jean-Pier-de-Port) e castelos (Château Abbadia e Château D’Urtubie), jardins renascentistas (La Villa Arnaga, local em que Edmond Rostand, autor de Cyrano de Bergerac construiu a casa dos seus sonhos), trinquets de pelota basca (quadras onde praticam um jogo parecido com o squash, mas que usam as mãos para bater na bola), sem contar uma infinidade de pequenos museus com temas desde a arqueologia local ao chocolate produzido na região.

Em algumas cidades (sobretudo as litorâneas como San Jean-de-Luz e Biarritz), no entanto, a influência do turismo, principalmente de franceses, levou à perda de algumas características bascas (o abandono do idioma é a principal delas) por reproduzirem padrões de atendimento ao visitante baseados nas exigências criadas por Paris. Recentemente, rumores dão conta de que o governo francês deseja construir uma nova linha ferroviária para ligar diretamente Paris a Biarritz. Os bascos reagiram de forma negativa e já se articulam para resistir a esta empreitada, por considerar que um número maior de turistas poderia acelerar os processos de desconfiguração de sua cultura. Em se tratando de resistir para não colocar sua realidade social e identidade em risco de ruptura (forçada pelo afã da economia via turismo ditada por Paris, cidade mais visitada do mundo), os bascos têm uma grande experiência. Torçamos por eles!

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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