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A Incrível História Do Conselheiro Zé Caxambó

Ficção | Leonardo Cássio 19/07/17 - 10h Leonardo Cassio

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Transitava entre o calmo e o desinteressante, aquela figura. Longe de ser bonito, o rosto magricela tinha certa graça devido ao olhar profundo e marejado. Além do olhar, havia uma marca que diferenciava Zé Caxambó das outras pessoas: os conselhos milagrosos que dava.

Nos idos tempos, quando ainda não era homem feito, é que o caso se deu: uma mulher, meio dos miolos remexidos, que tinha atraído para dentro de casa um saco de pulgas imprestável, veio em praça pública trovar seu ódio pela vida. Zé Caxambó, no sublime ato de ajudar o próximo, foi ter com ela: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher, sabem todas as gentes, mas que não posso fechar entendimento para injustiça, ah, não posso, pois ignorante é aquele que sabe e se faz de tonto”.

Esteve então com o beberrão em conversa demorada, a porta lacrada, a maluca e todos os outros lá, aguardando, na curiosidade toda; a violência era certa. Irrompeu, pois, na falação do povo, o inesperado: o beberrão saiu com os olhos lavando o rosto. Sumiu, na esquina, sem dar nem um pio sequer. Caxambó, na serenidade. O povo, sem o que saber. A maluca: mas o quê? “O que os olhos não veem, o coração não sente. Deixem; mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. A partir de então, virou o Conselheiro Zé Caxambó.

Aonde ia, era abordado. Eram problemas de toda ordem e Caxambó, na erudição do entendimento humano, tinha a resposta adequada para todos. Manda quem pode, obedece quem deve, sugestionava ao amigo; para o bom entendedor meia palavra basta, dizia ao vizinho; quando um não quer, dois não discutem, à jovem com problemas com o namorado. A verdade consistia em que o Conselheiro Caxambó entendia o sofrimento das gentes. Sabia que a vida se faz por um processo dolorido, desajuizado, que confunde o espírito. Que a vivência conjunta é um ato sofismável, um rio que deságua no deserto.

Por conta desse querer saber sobre o tudo, que Caxambó evoluía cada vez mais na direção do impossível. Quando se espia demais pela fechadura que leva ao espírito humano, a visão nem sempre é uma reposta. Não tinha idade avançada, gozava de certa tranquilidade, mas as angústias alheias lhe punham interrogações no coração. Não sofria como sofriam os aconselhados por ele, afinal, a serenidade era sua maior companheira. O incômodo vinha de sua ausência de dor. “Longe da vista, longe do coração”, pensava.

O concreto é que o girar dos ponteiros trazia a Caxambó novas significações: uns diziam ser ele um vidente. “Curandeiro!“, outros exclamavam. “Profeta!“, declarava o grupo da hipérbole. Entre a categorização de um e outro, o que não mudava era o fato de que Caxambó seguia sendo O Conselheiro.

Quando toda a população parecia ter sido aconselhada por Caxambó, eis que veio o fato inesperado: uma menininha, Zelita, clara como o polvilho, de cabelinho escorrido até à altura dos joelhos, bochechuda que só, dera entrada no hospital da cidade. Sua saúde era frágil, os pequeninos pulmões não foram lapidados direito, fazendo com que tivesse crises terríveis de falta de ar. No atabalhoamento do desespero, a Mãe, que criou aquele floquinho sozinha, não mediu passos para encontrar Caxambó.

Deu-se que estava em casa, absorto em pensamentos, separando as folhas secas da roseira. “Conselheiro Caxambó! Conselheiro!”, gritava a Mãe. Caxambó convidou a mulher para entrar em sua casa. Vivia sozinho desde a morte da mãe e mantinha tudo muito limpo e organizado. Grande era a casa e transmitia uma tranquilidade absoluta. Servidos de chá, a Mãe passou o relato a Caxambó: “Conselheiro, Zelita, minha Zelitinha boa não está! Sente dores, mal respira. Sofre, a tadinha! Os médicos preocupados estão!”.

Quem ama a rosa suporta os espinhos. Deixe estar, verei Zelita.

Saiu do hospital ainda no dormir dos galos. Presumiu que o olho no olho com uma criança só poderia ser sem plateia. Nem Mãe estava. Não houve testemunhas que afirmassem ser verdade a história, a incrível história.

Não havia quem duvidasse de Caxambó, o entendedor dos sofrimentos, que, na aptidão do domínio dos vocábulos, aliviava os corações confusos. Mas Zelitinha sofria por demais, precisava de reparos biológicos. A trama toda espanto causou.
Zelitinha disse à Mãe que lá esteve Caxambó a altas horas de se perder as contas. Não dormia; a dor a afastava dos sonhos. Com enorme sorriso e olhos luminosos, aproximou-se da pequena, pôs a mão em sua testa. Disse: “Deus dá o frio conforme o cobertor. Durma”.

A verdade parecia uma inverdade. Se poderia crer no dito de Zelitinha? Era fantasia de enferma? Mas como explicar? Os pequenos pulmões respiravam, respiravam como nunca, encontraram tanto ar que se engasgaram.

Zelita, apenas um conselho? Nada de remédio?”.

Um conselho, um olhar. Só, Mamãe.

A notícia voou. A cidade comemorava a melhora de Zelitinha, ao mesmo tempo em que alastrava a história sobre Caxambó. Imediatamente o alto comando da cidade decretou feriado. Fechem as portas! Fechem as portas!

Nunca se viu tal festança surgir tão rápido! Armaram fogueira à frente da igreja, botaram coro de violeiros ao lado; das comidas não se tinha controle: canjica, paçocas, pasteizinhos, mandioca e polenta frita; milho, tapioca doce e salgada, tortinhas de frango e palmito. Vinho, suco e cerveja. Parecia não haver bocas suficientes para tal banquete.
Organizou-se roda de dança! Zelitinha, tão frágil, jamais tinha dançado. Naquele fim de tarde rodou, girou, gritou, até pular corda pulou. Nenhum cronista seria capaz de transcrever a alegria do dia em que Zelitinha se curou.

Deram cadeira especial a Caxambó. Sentou-se, quieto, a obervar Zelitinha. A menina divertia-se. Correu na direção de Caxambó; deu-lhe um beijo no rosto. “Meu salvador!” Todas as gentes foram em sua direção. Ficaram em círculo, em silêncio, todos.

Caxambó.

Ergueu-se. Um ar leve e úmido soprou. Queria ficar só. O povo, que sempre desabafava angústia, se divertia numa alegria verdadeiramente irradiante. Ia-se para casa.

Conselheiro, conselheiro, volta pra festa, volta pra gente!

No poupar é que está o ganho.” Foi-se.

Muitos dias depois da festança, quando a normalidade já não pertencia mais àquela cidade, os causos não paravam de se multiplicar. Zé Caxambó não era apenas mais O Conselheiro. Era divindade.

A mãe de Zelitinha queria pedir assinatura de todos para colocar estátua de Caxambó na Praça Central. Os romancistas e poetas da cidade tinham farto material para trabalhar. Os incrédulos rezavam. O povo estava ouriçado.

Só havia uma estranheza no ar: desde a grande festa, O Conselheiro não mais saíra de casa. As gentes comentavam nas esquinas que Caxambó entrara em período de meditação, pois assim é que funcionam as divindades. Deveria de estar preparando novas curas para os males, preparando novos conselhos.

Passara-se um mês da grande festa. As gentes resolveram fazer nova comemoração para celebrar o dia do Conselheiro Caxambó. Feriado se tornaria? Provável. Mas precisavam que o Conselheiro de casa saísse para aceitar a honraria.
O roteiro da festança parecia ser o mesmo. A música, a comida, a alegria de todos! Mas muitas histórias simplesmente existem para contradizer a lógica das coisas todas. Logo agora, isso? Quem saberia o porquê?

Correram.

Zelitinha não respirava. Ninguém sabia ao certo de onde tinha vindo o cavalo assustado que pisou em seu frágil peito. Ficou estirada no chão; não tinha a tez de dor: parecia dormir durante um sonho bom. O cavalo foi-se como veio: relâmpago. Sua visita foi apenas para convidar Zelitinha para outra festa, a tantas distâncias jamais medidas. Um mensageiro? A Mãe da menina gritou: “Chame o Conselheiro! Chame o Conselheiro! Ele pode curá-la! Só ele pode curá-la!”.

Correram. Uns para o hospital. Outros para a casa de Caxambó.

Muitos gritaram e nada aconteceu. A decisão foi unânime: arrombaram a porta. O silêncio angustiante foi interrompido quando uma das gentes se direcionou à cadeira de balanço onde estava Caxambó. A julgar pelo cheiro, ele morrera havia dias. Na mesinha ao lado havia um bilhete, aberto a quem quiser ler:

O que é a vida? A verdade é que a vida é uma equação cuja resposta certa é incorreta”.

Mas o quê? Quem poderia entender o entendimento do Conselheiro? Seguia:

Paga o justo pelo pecador. Zelitinha: vou eu, vou, para lá, além, para onde… Levarei o cobertor…”.

Impossível descrever o abatimento coletivo. Luto. Nenhum cronista poderia descrever a dor daquelas gentes. O dito é a teoria que circulou: Caxambó, divindade que era, na capacidade de prever o imprevisto, viu. E, então, sofreu. Ele, que para tantas dores remédios tinha, não pôde se automedicar; nunca provara dos males que combatia. Não suportou. Ironia? A questão é que a existência é uma charada cuja resposta jamais será revelada.

Águas passadas não movem moinho seria uma possível frase do Conselheiro para o momento. E o cortejo contou com a totalidade da cidade. Iam Zelitinha e Caxambó, juntos, para o sempre.


Photo credit: Lapse of the Shutter via Visualhunt / CC BY-NC-SA

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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