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Carona | Conto

Ficção | Leonardo Cássio 10/07/18 - 03h Leonardo Cassio

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O cavalo mecânico da carreta é prateado, com brilho invejável. A boleia é relativamente organizada, com um prendedor de cabelo ou lenço largado no banco e garrafas com água soltas no chão, no lado do passageiro. Pequenos apetrechos dão cor e humanidade ao monstro de metal. Dirige horas a fio com disposição invejável, por lugares que somente profissionais como ela conseguem passar. O hodômetro marca as distâncias, mas não registra as histórias. E são tantas.

O país que elegeu o transporte rodoviário como principal conta com poucas caminhoneiras, ainda mais como Elza, que escolheu a profissão por interesse e oportunidade. Cresceu em uma cidade pequena e sempre gostou de automóveis. Na adolescência, viu uma possibilidade de emprego em uma das duas grandes empresas da região, tirou a habilitação necessária, postulou a vaga e tornou-se caminhoneira. As poucas colegas que conhecia haviam ingressado na profissão para dar continuidade à carreira do pai, para ajudar o marido de mesma ocupação ou para largar uma vida que não mais as interessava. Em uma profissão em que tudo é urgente, menos a saúde mental e física do trabalhador, há de se aplaudir Elza. Enquanto sua idade galopava, a aparência fazia caminhadas leves: era jovial, com poucos problemas de saúde – uma dor nas costas, enxaqueca às vezes, nada grave – e na maioria das vezes sentia-se alegre e bem disposta. Tinha seus segredos.

Aprendeu cedo a se defender. Era preciso. A maior parte dos locais de descanso e restaurantes nas estradas são ambientes masculinos, que sequer possuem banheiros adequados às mulheres. Os estereótipos de “mulher macho” ou “lésbica do volante” nunca a incomodaram. A luta contra o machismo tem crescido, mas ainda é alimentada de colherinha. O que lhe rói a paz é a sempre possível possibilidade de sofrer roubos e agressões físicas. É tempo de medos; viver é muito perigoso…

Em certos territórios, à noite, o máximo de luz que há é o das próprias lanternas do caminhão, que corta o breu tal qual uma tesoura afiada corta um tecido escuro esticado, com precisão e leveza, sem a menor hesitação e sinal de erro.

Dirigia rumo à região Centro-Oeste do país. Tinha uma grande entrega. Gostava daquele pedaço. A carreta trafegava por lembranças de estradas. A madrugada era agradável e Elza passava com tranquilidade pelo perímetro de uma cidadela. Estava absorta em pensamentos quaisquer e notou, somente quando estava em cima, que uma mulher com uma criança acenava para ela na margem da estrada, à sua direita. Como não havia acostamento – sequer havia estrada -, parou o caminhão na via. Apeou-se em direção aos dois. O menino emanava calma. A mulher tinha algum machucado na cabeça e no meio da testa escorria um pouco de sangue. O menino não tinha mais do que dez anos e entregou à Elza o bilhete que segurava. Abriu a porta e o ajudou a subir na boleia. Olhou em volta e a mulher havia desaparecido. Entrou rapidamente no caminhão, encarou o garoto e leu bilhete amarrotado, que tinha apenas um endereço e a frase “estás no caminho correto”. Olhou novamente ao redor do lugar e só viu o que lá era: mato, escuridão e solidão. Deu partida na carreta.

 – Pegue esse cobertor. Certamente está com fome, _______?

– Gabriel.

– Tem biscoitos, bananas e água, Gabriel. Vamos, não tenha medo.

– Não é medo, só é estranho. Só que a barriga da gente não estranha, só sente fome, mesmo.

Pegou os biscoitos.

– Além de corajoso é inteligente.

– Nem um nem outro.

– Quanto tempo faz que sua mãe morreu?

Gabriel olhou com cara de surpresa para Elza.

– Você… Você… Você a viu?

– Sim e pela calma na hora em que te encontrei, suponho que você também.

– Na verdade, não. Falo com muita gente morta, mas não com a minha mãe, só sinto a sua presença. Ela morreu há três dias.

Elza também nunca tinha visto ninguém que conhecia.

– É a primeira vez que conheço alguém que tem essa coisa igual a mim.

– Não sei se há muitas pessoas como nós. Gabriel, quem mora neste endereço do bilhete?

– Não sei, tia.

– Pode me chamar de tia, mas também pelo meu nome: Elza.

– Não sei, tia Elza. Minha mãe não conseguiu me falar. Acho que deve ser algum parente dela.

– Por que ela não conseguiu te falar?

Pegou duas bananas e as comeu antes de prosseguir:

– Bom, sabe, meu pai batia na minha mãe. Ela dizia que não era ele que batia nela, era a pessoa em que ele se transformava depois de beber que fazia aquilo.

– Ele batia em você?

– Não, minha mãe nunca deixava. E sobrava para ela. Da última vez, meu pai entrou em casa quebrando as coisas, as poucas que tínhamos. Aí minha mãe me deu o bilhete, uns trocados, uma sacola com roupas, trancou a porta do meu quarto, me pôs para fora pela janela e me mandou correr até a estrada mais próxima para pegar uma carona até o lugar que está escrito no papel.

– Então ela estava viva a última vez que a viu?

– Sim, mas durante o caminho eu senti quando ela morreu.

– Isso te deixa triste?

– Sabe, tia Elza, acho que minha mãe não sente mais dor agora.

A conversa comoveu Elza, que indicou ao menino que tomasse um pouco de água e se deitasse para descansar, pois o caminho era longo, cerca de um dia e meio. Pensou um pouco no perigo de levar Gabriel sem documentação, de ser parada pela polícia e em como explicaria toda a história.

– Tia Elza?

– Pode falar, Gabriel.

– Quantos filhos você tem?

– Nenhum. Não quis ser mãe.

– Que diferente. Minha mãe sempre falou que toda mulher quer ser mãe.

– Muitas pessoas pensam assim, mesmo não sendo verdade. Você tem algum irmão?

– Não, eu tinha um gato que eu chamava de irmão, só que ele pegou uma doença e morreu.

– Durma um pouco.

Elza ajeitou a coberta em Gabriel. Pensou em como o mundo é cruel. Nunca quis ser mãe por não querer mesmo. Não havia traumas de infância, não achava que um filho pudesse lhe tirar a liberdade, que fosse trabalhoso demais, que o planeta não é um lugar bom para uma criança. De fato não é e, no entanto, a maior parte das pessoas se convence que a principal missão na Terra é proliferar seus genes, ainda que viver seja muito perigoso.

Desde que decidiu ser caminhoneira, o machismo e o preconceito não foram os únicos percalços que enfrentou. O principal foi justamente a questão da missão divina da maternidade. Parentes e amigos não se conformavam de Elza abdicar da “benção” que é ser mãe para dirigir um caminhão. As frases geralmente eram empostadas com desdém, buscando não dignificar sua escolha, sem contar aquele “parente” ou “amigo” que fica fazendo comentários supostamente engraçadinhos, mas que são crimes nominados de piadas. Algumas pessoas merecem apenas um holofote queimado.

Tinha arrependimentos que pesavam em seu coração. Desconfiava de quem dizia não ter arrependimento nenhum na vida. Como é possível? O ser humano não passa de matéria e dúvida. Quantas vezes miramos o cume do Everest e mal acertamos o meio de uma colina? Não ter arrependimento é o equivalente a não errar e isso é impossível.

Elza sentia remorso pela forma como um dos relacionamentos terminou, pensava se não deveria ter feito uma faculdade, se deveria ter comprado uma geladeira melhor ao invés de uma televisão à que mal assistia, etc. Sobre ser mãe pensou apenas uma vez, para agradar aos pais que tanto amava e que tanto queriam um neto, sendo que a ideia foi afastada simplesmente porque ela não tinha vocação para maternidade. Não se deve ser mãe por imposição. Não se deve ser coisa alguma por imposição. Ser mãe é uma possibilidade, não uma obrigação. Vira e mexe Elza pensava em como a sociedade tenta nos travestir com papeis sociais que não queremos. Da mesma forma, as pessoas tentam aniquilar escolhas que fazemos e que são importantes, pelo simples fato delas não combinarem com o que é dado como padrão. Viver é deveras custoso. Mergulhou em uma porção de coisas em sua cabeça que nem percebeu quando amanhecera. Gabriel dormia pesadamente, com a tez relaxada. Calculou mais algumas horas de direção e logo pararia para tomar café da manhã e descansar.

Quando o menino acordou, a carreta já estava estacionada. Elza estava dando uma geral nos pneus, no amarres e em detalhes que podem interromper uma viagem. Gabriel olhou pela janela, aberta a meia altura, e a viu agachada:

– Bom dia, tia Elza.

– Bom dia, Gabriel. Como foi sua soneca?

– Foi boa! Sonhei com pirulitos coloridos.

“Como são as crianças”, pensou.

 – Que coisa boa para se sonhar. Vamos, quem sabe este sonho não se concretiza? Venha tomar café da manhã.

Acomodaram-se um ao lado do outro, em uma mesa espaçosa. Uma pessoa ofereceu o cardápio para Elza e deu um sorriso para Gabriel, sentenciando:

– Você tem os olhos idênticos aos da sua mãe!

Entreolharam-se e nada disseram. Elza pediu pães de semolina na chapa, café puro sem açúcar para ela e chocolate batido para Gabriel.

É engraçado como as pessoas tendem a achar que uma criança com um adulto é sempre um filho. Elza poderia ser uma sequestradora. Aliás, qualquer um que ouvisse a verdadeira história concluiria que ali haveria algo errado. E a questão dos olhos, o que foi aquilo? A sentença repetia-se de forma sussurrada na cabeça de Elza, o que lhe causava uma sensação estranha. Não são poucos os casos em que filhos têm características físicas comparadas aos dos pais adotivos. Pois então será o amor mais predominante que o DNA? Quem sabe? O caso é que parir não determina a maternidade. Quando se adota – e adoção não é um ato de caridade, é a realização da vontade de ser ter uma criança – uma mãe ou um pai escolhe um filho, que por sua vez também escolhe o pai ou a mãe. Já a questão biológica opera por meio do acaso.

Você tem os olhos idênticos aos da sua mãe! A frase tinha uma doçura, um estranhamento, que pela primeira vez Elza sentiu vontade de ser mãe.

– Tia Elza?

– Oi, Gabriel – estava tão compenetrada que se assustou ao ouvir o menino.

– Sabe, eu acho que a gente se parece mesmo. Deve ser por causa da coisa que temos igual.

Elza sorriu.

– Sabe, Gabriel, você tem razão e eu acho que vou ser sua mãe até o fim da sua carona. O que acha?

– Acho que é tão bom quanto pirulitos coloridos, tia Elza.

– Você pode me chamar de tia Elza, ou de mãe.

No caixa havia muitos pirulitos coloridos. Elza pegou uma dezena deles e indicou que Gabriel fizesse o mesmo. O garoto pegou tantos que deixou dois dos doces caírem.

– Alguém está querendo seus pirulitos, disse o atendente do caixa.

Eele tinha razão. Saindo da loja, Gabriel deixou dois pirulitos próximos a vasos repletos de astromélias e crisântemos brancos.

Não tenham medo, venham, vocês foram ouvidos!

Estavam envergonhados e vieram de mão dadas. Pareciam irmãos. Pegaram os pirulitos e acenaram para Gabriel e Elza, sumindo tão repentinamente quanto surgiram. Mãe e filho estavam abraçados observando a cena que possivelmente ninguém mais estaria vendo.

Tiraram um cochilo antes de seguir viagem. Durante a manhã, divertiram-se ouvindo música, cantando e fazendo brincadeiras de adivinha. Logo após o almoço, Gabriel pegou no sono novamente e Elza começou a pensar sobre as horas inesperadas que acabaram tornando-a mãe. Na verdade, foi uma vida toda que a conduziu até ali. Lembrou-se da infância simples e tranquila que levou na pequena cidade, dos pais que tiveram tanto cuidado e carinho com ela, lembrou-se da tromba do pai quando ouviu que a filha iria dirigir caminhão, ainda que a tivesse apoiado; recordou vivamente dos cuidados da mãe e das jogadas de verde sobre um neto. Quantas saudades.

Buscou na memória lembranças de amigos afastados. Elas se misturavam com imagens de pessoas com quem pouco conviveu, mas que por algum motivo os fragmentos de suas existências teimavam em hibernar em seu cérebro. Pensou em como se tornou caminhoneira, deixando opiniões contrárias a reboque da própria vontade, e em como a profissão é complexa, perigosa, desgastante e, aos olhos da maioria, invisível. Refletia como a vida é a própria metáfora de um caminhão, novo, potente, que arranca com força, vontade, dando a sensação de que nunca perderá o ímpeto. O caminhão estabiliza a velocidade, parece devagar, gera certa monotonia. Quando para é que vemos o quão rápido estava, só que aí, tarde demais, o tempo se foi, houve desgaste, quebras e não há como voltar. A vida luta contra o tempo, o tempo do Padre Antônio Vieira, que afrouxa o arco, embota as setas, tira a novidade às coisas e descortina os defeitos.

A infância, adolescência, tudo tão distante, que em muitos momentos é possível achar nunca ter existido. Para onde foram todas as pessoas? Lembrou-se especialmente de uma amiga que tinha sonhos altos, buscava o cume do Everest. O que terá acertado? Elza não sabe. Não sabe sobre ela. Nem sobre si. Nem sobre o filho. Elza não quis ser mãe, virou por oferta do destino. Em que consiste a parábola toda?

A tarde começava a pairar no horizonte. Elza resolveu parar à beira do rio para descansar. Entrou com a supermáquina em uma pequena descida de terra – conhecia bem a região – que dava para um grande descampado, cujo rio à frente forma uma espécie de pequena praia. Abriu os compartimentos laterais da carreta onde havia um fogão, uma pequena geladeira e espaço para mantimentos. Estendeu duas cadeiras de praia e uma toalha no chão e preparou café e chá.

– Mãe Elza, posso ir n’água um pouco?

A tarde estava quente.

– Pode sim, mas água só até o joelho.

O amarelo do sol espalhava-se com guache ao fundo, não sendo possível distinguir o que era céu e o que era rio. Gabriel chupava um dos pirulitos do sonho e sentiu a água morna e açucarada cobrir seus pés. Fechou os olhos como se o mundo fosse apenas aquele descampado. Começou a pular descontroladamente, a chutar a água em todas as direções. Girava e ria e girava ainda mais. Ele não podia ver, mas sentia o gato irmão saltando ao seu lado. E giravam, riam e giravam ainda mais.

Elza chamou o filho. Anoitecera. Com pequenos gravetos, acendeu a fogueira. Tinha pequenos pedaços de carne e queijo. Colocou sua cadeira em frente à de Gabriel, deu um pequeno espeto para ele e deixaram o fogo cuidar do alimento. Conversavam. Riam. Ficavam em silêncio. Era uma felicidade tão fulgida quanto o fogo. Elza olhava com ternura para Gabriel e observou que ele olhava fixo para o lado dela. Como não viu nenhuma alma, procurou o que chamava atenção de Gabriel.

– Perdeu algo, filho?

Permaneceu imóvel e então Elza se deu conta.

– Eles estão aqui, mãe!

Elza gaguejou e começou chorar. Tinha tantas saudades.

– Diga a eles, diga a eles, meu filho, que eu os am…

– Eles sabem, mãe. Eles me disseram que estão felizes de terem conhecido o neto e que você está no caminho certo.

Elza pegou o filho no colo e deu um abraço apertado. Choravam, felizes. O mundo, o mundo que importava era o descampado, com todo aquele mato e escuridão. Foram dormir.

No dia seguinte, chegaram em pouco tempo ao destino de Gabriel. Quem apareceu foi uma tia do menino, que reconheceu o sobrinho que tinha visto a última vez ainda pequeno, e exclamou:

– Louvado seja, não sabíamos se você estava vivo!

Elza soltou um risinho e pensou que também não sabia se Gabriel estava vivo, ou se ela mesmo estava.

Resumiu a história para tia de Gabriel durante um rápido café, que também contou a Elza um pouco sobre a mãe morta do menino e do sofrimento daquela família.

– Tem os olhos da mãe, disse a tia.

Gabriel e Elza trocaram um olhar maternal e sorriram. Despediram-se com um abraço igual ao da noite anterior. Elza prometeu ligar e sempre que fosse por aquelas bandas iria visitá-lo. Assim que descarregasse a entrega, voltaria para a beira do rio para passar mais uma noite. Esperaria a outra mãe de Gabriel, pois tinha muitas perguntas a fazer sobre o filho delas.

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