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Enxúndia | Conto

Ficção | Leonardo Cássio 20/12/17 - 08h Leonardo Cassio

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Ciro era uma figura odiosa. Ganhou fortuna rápido com abatedouro e uma rede de açougues. O pecuarista comprava porcos e gados de pequenos criadores, abatia e processava o produto final, que seguia para os açougues onde era comercializado. Essa era a parte legal. Nos dois primeiros anos do negócio, metade da produção vinha da prática do abigeato, que nunca levantou muitas suspeitas graças ao que era feito legalmente. Uns poucos, porém, desconfiavam sobre a conduta.

Em uma década virou um dos homens mais ricos da região. Apesar de todo o poder que o dinheiro lhe provinha, tinha atitudes discretas e passava mais tempo em casa do que fora. A esposa de Ciro, Guadalupe, se obliterava no silêncio. Os olhos redondos, muitos abertos, pareciam maiores do que o próprio rosto. Gozava de poucas alegrias: ao filho Ciro Jr. nunca deixou faltar nada; na cozinha era uma virtuose, principalmente no preparo de carnes vermelhas. No mais, apresentava-se como uma figura apática e tristonha.

Sendo homem branco e rico, Ciro se portava como a maioria: de maneira machista, transbordando moralismos vazios, logrando-se como um grande trabalhador, o abigeatário. Certo dia trouxe uma porca enorme de um dos abatedouros. Expulsou os cachorros do espaço no fundo da casa e instalou o animal. Os olhos de Guadalupe ficaram efetivamente maiores do que seu rosto. Instrui filho e esposa que não dessem nenhum alimento à porca, nem mesmo que retirasse seus dejetos, pois ele cuidaria pessoalmente de tudo.

Era patético. Ciro jamais se preocupou com a esposa e filho e, de repente, para uma porca, ele deferia todos os cuidados, até mesmo os mais abjetos, recolhendo as fezes e demais rejeitos de mal-estares. Não a apresentava a ninguém. Nem falava sobre. Era apenas sua, a porca. Confinada no fundo da casa, ficava. Guadalupe a encarava. O marido deu mais atenção em uma semana à porca do que deu a ela a vida toda.

Isolou o fundo da casa com um tapume para que as visitas não vissem o suíno. Dizia tratar-se de uma reforma e, em seguida, tergiversava e mudava o tema da conversa. Com Guadalupe e Ciro Jr. combinou a história, sem muitos detalhes, para não se enrolarem e caírem em contradição. Manteve a restrição dos dois ao espaço.

Começou, então, uma coisa de pedir a Guadalupe que toda noite fizesse carne de porco. Toda noite um prato diferente: torresmo, bisteca, linguiças dos mais variados tipos, costela, bacon, panceta, feijoada com orelha, rabo, pé e guisado com os miúdos. Guadalupe adorava cozinhar, principalmente porque era a única maneira de tirar um elogio do marido.

Mas que obsessão era essa por carne de porco? Aliás, por porco! Tinha manias esquisitas como ficar passando álcool gel nas mãos após cumprimentar pessoas na rua ou jogar as roupas fora após visitar um dos abatedouros, mas trazer uma porca enorme para casa e só comer carne suína era um tanto estranho, até mesmo para quem fez fortuna vendendo carne vermelha. Assuntava estranhezas, que homens e animais deveriam estreitar suas relações, deveriam se aproximar mais, e outros raciocínios que não caminhavam na linha da normalidade.

Guadalupe se indagava. O que se passava com Ciro? O conheceu ainda adolescente, quando estava para entrar na escola de culinária. A família era simples, mas tinha recursos para custear os estudos. Decidiu casar-se com aquele homem que tinha sonhos, era ambicioso e lhe prometia coisas sem fim. Deste tempo vingou apenas a obsessão. Os sonhos e promessas consubstanciaram-se em dígitos bancários.

Não conhecia muito bem os negócios do marido. Suspeitava, apenas, que nem tudo fosse feito de maneira correta devido à velocidade com que enriquecera. Sabia, através de línguas alheias, que o marido acumulava desavenças, principalmente de outras famílias ricas da região que não compactuavam com sua postura política e o modo agressivo de fazer negócios. Ainda assim, nunca o questionou. Sempre se escondia no silêncio.

Em uma noite, quando terminara o jantar, entrou na sala e viu Ciro Jr. com os olhos saltando da cara. Fez um gesto com as mãos querendo saber o que havia acontecido. Abaixou-se e Ciro Jr. confessou ter ido espionar o pai, que estava com a porca. Pensou em repreendê-lo, mas resolveu juntar migalhas de coragem e ir ver o que deixou o filho tão perplexo.

O caminho até o chiqueiro não tinha luzes, propositalmente retiradas por Ciro para que ninguém se encorajasse a ir lá. Achava que o filho, medroso, e a mulher, submissa, jamais desobedeceriam. Aproximou-se da porta sorrateiramente. Estava um breu danado, mas a lua penetrava pelas frestas existentes entre o telhado e a parede. Abaixou-se um pouco, tremendo, para espiar. E viu.

Viu o marido de frente para porca, passando a língua no focinho e na boca do animal. Em seguida, colocou sua cabeça debaixo dela e começou a sugar suas tetas enormes com tamanha sagacidade que parecia um filhote. Sorvia com tanto afinco que a porca parecia diminuir de tamanho. Ciro alisava com vontade o animal, querendo que cada parte sua entrasse em contato com o corpo da porca. Os olhos de Guadalupe ficaram maiores que a lua.

Ao entrar casa sentiu o cheiro do assado de porco que havia terminado. Sentiu um nojo tremendo. Bebeu um pouco de água e ouviu Ciro batendo a porta da sala. Ela apenas serviria o jantar como se nada tivesse acontecido? Ficaria novamente em silêncio?

Ciro pediu a mulher que trouxesse o jantar. Calmamente ela levou. Além do assado, havia pedaços de bacon e torresmo. Ciro Jr. não conseguia olhar na direção do pai. Guadalupe serviu praticamente tudo em uma grande travessa para o marido. Ele devorava enormes nacos de carne, mergulhando a cara em toda aquela enxúndia, com o máximo de gula possível. Era um animal primitivamente devorando outro, transformando a matéria inerte em parte de um outro organismo pulsante, que a cada mordida sentia aumentar a vontade em consumir o mar de gordura disponível.

Guadalupe correu para o banheiro e vomitou. Pensou em como os nossos nojos nos mostram o quanto somos fracos. Se recompôs para não ser descoberta e, nervosa, encaminhou-se à cozinha para limpar as sobras do jantar. Não desejou boa noite ao marido.

No dia seguinte, resolveu ir à cidade. Estava decidida: mataria a porca; não poderia se sujeitar a tal situação. Havia pensado em maneiras de tirar a vida do animal sem que o marido descobrisse e chegou à conclusão de que envenenar seria a maneira mais “segura”. Dirigiu-se a uma loja de produtos químicos e comprou 2 pacotes de veneno em quantidade considerável para matar um animal de grande porte, justificando ao vendedor que havia uma grande praga em casa. Retirou as duas sacolas e pegou o caminho de volta.

Enquanto caminhava, bateu-lhe um remorso. Que culpa tinha o bicho? Qualquer pequeno lampejo de Ciro se esfregando com a porca lhe causava espasmos e raiva, só que a culpa é dele e não da porca. A função dela é ter a vida guiada, ficar sujeita a todo tipo de destinação, inclusive de ser morta para virar comida. Pensou o seguinte: se visse Ciro se esfregando com outra mulher, assim como ele estava com a porca, ela mataria esta pessoa? Neste caso, não apenas Ciro como também a hipotética mulher seriam responsáveis pela traição, havendo trato de corresponsabilidade. Conclui que não mataria a mulher, quanto menos a porca, isenta de escolhas. Não se sentia bem. Raciocínios são necessários e geralmente indigestos.

Destituiu o próprio plano e teve uma outra ideia. Dirigiu-se a um dos abatedouros de Ciro, no qual sempre ia para pegar carne. Um dos funcionários reconheceu Guadalupe. Ninguém tinha prazer em atender os donos, ainda mais aquele jovem que já tinha ouvido desaforos de Ciro, mas como estava próximo, dirigiu-se à Guadalupe. Cumprimentou-a e colocou-se à disposição para o que precisasse, ainda que a contragosto. Guadalupe pediu ao jovem um corte nobre do melhor porco disponível e avisou que iria ao toalete enquanto separavam a carne.

Com a precisão de um relógio suíço, estavam lá dois pacotes vistosos com o pedido de Guadalupe, que agradeceu ao jovem ao recolhê-los, enquanto caminhava apressadamente para a saída do local. O jovem reparou que Guadalupe não estava com uma das sacolas que carregava quando entrou no abatedouro. Pensou em avisá-la, mostrar serventia, só que ao lembrar quem era o marido, desintegrou-se o resquício de boa vontade.

Guadalupe resolveu fazer o melhor jantar por ela preparado! Empenharia todo conhecimento culinário, toda a calma e cuidados necessários para a execução de um grande prato. Não usaria nenhum tempero que não fosse o melhor disponível. Faria tudo com o perfeccionismo impossível de alcançar.

Ao chegar em casa, Ciro foi invadido por um odor magnífico. Não que o fato não ocorresse com frequência, no entanto, neste dia havia algo de especial. A visita à porca transcorreu de maneira mais rápida que o usual, pois Ciro estava curioso para ver o que a mulher havia preparado. Deparou-se com uma mesa perfeitamente arrumada, com toalha e panos de pratos retilíneos, duas travessas frondosas ocupadas com um suculento cozido, alguns acompanhamentos e vinho e suco em abundância.

De maneira egoísta, como de costume, serviu-se sem falar uma palavra. Guadalupe encheu uma taça de vinho para si e deu um pouco de arroz com batatas ao filho. Ciro parecia hipnotizado, tamanha a gula com que sorvia a comida, sem desviar o olhar. De repente, bateu a testa em cheio no prato, rachando-o. Começou a se debater, caindo da cadeira. A espuma na boca misturada à gordura da carne era um espetáculo pavoroso. Ciro Jr. arregalou os olhões. Guadalupe ligou para socorro que, em minutos, adentrava a casa.

O animal já havia pegado o caminho do além. A polícia retirou o corpo, conduzido ao IML para autópsia necessária. Na mesma velocidade com a qual a integridade de alguém se esfacela frente ao poder, a notícia da morte de Ciro espalhou-se pela cidade. Algumas pessoas teriam uma ótima noite de sono.

A conclusão da morte saiu em poucas horas: envenenamento. A carne do jantar estava contaminada. Como principal suspeita, a polícia retirou Guadalupe do hotel onde estava para interroga-la, levando Ciro Jr. junto. Ao investigador a viúva narrou minuciosamente as 12 horas anteriores ao crime, contando sobre a compra do veneno, a visita ao abatedouro e o jantar feito para o defunto. Guadalupe completou o depoimento dizendo que o pacote de veneno estava em um armário, junto a outros produtos químicos, e que havia perdido o outro pacote, mas não sabia nem onde e nem como.

Com os fatos em mãos, o investigador iniciou o processo de confirmação. A própria Guadalupe indicou a ele onde estava o pacote de veneno fechado. O comerciário confirmou que vendeu duas unidades do produto para Guadalupe e que entregou em duas sacolas distintas. Faltava passar no abatedouro. Encontraram o jovem que atendeu Guadalupe, que prontamente confirmou a entrega das carnes. Ao ser assuntado sobre um pacote esquecido por Guadalupe, declarou não saber do que se tratava.

Seguindo os ritos, a polícia iniciou varredura no abatedouro. Encontraram uma sacola com um pacote de veneno pela metade no banheiro masculino. O jovem que atendeu Guadalupe acabou detido. Com a urgência que só existe com a morte de uma pessoa poderosa, surgiu a tese de que o jovem aproveitou o descuido de Guadalupe com as sacolas, inseriu veneno na carne de porco e deu a ela, sabendo que Ciro deveria comer. Levando em conta que Ciro tinha desavenças e que um jovem simples como aquele poderia ser persuadido a tentar algo contra o chefe, concluiu-se que havia um plano para tentar assassinar o imperador, executado pelo jovem, a título de vingança.

Não fazia muito sentido a história. O óbvio é o que houve: Guadalupe deixou o veneno propositalmente no banheiro masculino do abatedouro, levando um punhado na outra sacola que carregava. Guardou o pacote fechado limpo, descartou a sacola com resto de veneno, envenenou a comida de Ciro e levou ao indiciamento do jovem. Jamais seria ela culpada pois não poria em risco a vida do filho fazendo comida envenenada, sem contar que não havia nenhum tipo de desavença conhecida entre ela e Ciro.

Mas quem é que se importa com a verdade? Para o investigador, que precisa esclarecer os fatos à sociedade, a primeira história é a mais aceita. Dá menos trabalho. No caso de Guadalupe, há a criança, todo o patrimônio, muita coisa envolvida… Enfim, há vidas que importam e há as outras invisíveis e descartáveis. Não se trata de justiça e sim da verdade que se torna necessária.

O conflito de Guadalupe era desproporcional. A culpa pelo jovem não se equiparava ao alívio de ter despachado o marido para outro plano. Para minimizar a injustiça, decidiu custear anonimamente tudo o que o rapaz precisasse para se defender, além de ajudar familiares. Não corria nenhum risco pois se o amparo financeiro viesse à tona, o caso seria tratado como um ato de perdão sem precedentes. Fora isso, o anonimato garantia a Guadalupe não precisar se encontrar com o inocente…

Em pouco tempo, o caso caiu no esquecimento. Era possível ouvir comentários de alívio pela cidade devido ao falecimento do abigeatário, apelidado de boca de enxúndia. Guadalupe, por sua vez, cozinhava mais feliz, até cantando em determinados momentos. Não fazia mais carne vermelha para ela e o filho. Duas vezes por dia levava uma suculenta refeição para a porca, quando lhe dava um afago na cabeça e um beijinho no focinho em agradecimento.

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