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Progresso

Ficção | Leonardo Cássio 10/05/17 - 10h Leonardo Cassio

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É uma terra de muitas securas, de uma quentura desonesta, de gastar a pele da gente e por bicho a cansar ainda em idade nova. Em Povoado, as chuvas fazem visitinhas rápidas, sem aviso, o suficiente para levantar poeira, mas sem vontade de se apresentar no volume do necessário. É um lugar de incertezas. Não se sabe origem de lá, no exato; não há nada em papéis que o diga. Nem mesmo em Distrito, localidade mais próxima, registros não se têm. Sabe-se, pelo falar dos antigos, que a cidade começou pela igrejinha, construção das mais modestas, erguida para se fincar a fé ali. Povoado é lugar calmo, sem muitas trairagens. Há certos destemperos, certos tipos de vaidades e obsessões comuns às almas vivas, mas nada que ponha em risco a convivência do lugar. A vida ali se faz no pouco, sem estripulias, nas miudezas, que é onde os grandes milagres acontecem.

Não se nasce em Povoado. Os moradores de lá abrem os olhos a primeira vez no Distrito, onde se encontra a única maternidade da região. Da mesma maneira, ganham nome completo por lá, no cartório, passando a ingressar a legalidade civil através de inúmeras letras e números, que muitas vezes não parecem representar nada.

Ao contrário do que se possa imaginar, o clima gasturento não põe o povo em convalescenças. Especialmente Lorival, sempre nas prestezas próprias ou de terceiros. Sujeito assim de visões e aplicações, sem esguelha, envolvendo a gente da localidade em projetos dos mais altos valores. Tinha inventividade para diversas matérias, com tino raro para inspirar quem quer que fosse, qualidade especial, visto que lidar com outros é das mais complicadas tarefas.

Lorival era responsável por organizar atividades tantas, de campeonatos de futebol a gincanas, festas de aniversário a celebrações, resolver problemas deste e daquele tipo. De tudo um pouco; um muito. Certo dia, enquanto perambulava pelo Povoado com um senhor de idade avançada, ocorreu a Lorival uma ideia simples, daquelas que estão a beijar nossos narizes e relutamos a aceitar. Sendo que Povoado não registrava seus nascidos e que a história do lugar não estava impressa em canto algum para as consultas, constando apenas na memória e nos relatos da gente de mais idade – que, em breve, como se pode raciocinar, logo não mais estarão em Povoado e nem em parte nenhuma -, pois que o povo imprimisse a própria história, que construísse seu próprio legado. Afinal, o que somos nós? Nós somos a nossa história vivida, contada e recontada.

Lorival pensou no seguinte: se, pela história oral, dizia-se o Povoado ter como ponto inaugural a igrejinha, pois então que se fizesse lá a empreitada. Juntou um pessoal que tinha intimidade com as tintas para compor, nas paredes externas da construção, um painel que fosse capaz de contar o que era o Povoado e a gente dali. Que se imprimisse com cores, das mais variadas existentes, a alegria daquelas pessoas, a simplicidade, a fé, as manias diversas, até mesmo as loucuras que nos acompanham; que se falasse das grandes figuras que lá viveram, das figuras grandes que lá vivem. Que de tudo um pouco houvesse na obra que imortalizasse Povoado, para o sempre e mais.

Reuniu toda a gente do Povoado. Pediu que todos contribuíssem com ideias para que os artistas pudessem retratar de forma criativa o espírito daquele lugar. Falavam? Muitos. Cada qual tinha uma visão de mundo, uma construção pessoal sobre a sua história e a de Povoado, sendo que se levou certo tempo para os artistas construírem os painéis que valorizassem aspectos tão numerosos e diversos daquele povo. Marcou-se cerimônia de celebração. Nunca fora produzido em tempo nenhum algo de tão bela feição em Povoado. É sabido ser a unanimidade coisa desconfiante, só que o fato era um único: o painel era uma dádiva de bonito. Não houve quem malograsse a obra. O povo festejou, agradeceu Lorival e parabenizou tão formidável ideia, que ninguém mais poderia ter. Ele discursou, agradeceu apoio, pediu longas palmas aos artistas e disse aos ouvintes que Povoado agora era terra de existências e que toda a gente tinha sua história ilustrada para se orgulhar. Soube que um pessoal do Distrito estava no cerimonial, inclusive um auxiliar do prefeito, um homem com uma cara sem graça, empacotado em um terninho cinzento monótono. Achou curiosa a presença dele, mas não o bastante para ir procurá-lo.

Passados alguns dias, Povoado foi surpreendido pela chegada repentina de uma comitiva vinda do Distrito. Estavam lá o prefeito, o auxiliar sem graça e mais uma dúzia de homens e mulheres vestidos de forma homogênea. Era uma situação atípica, para não se dizer inédita. Ninguém tinha lembranças de uma visita de tantas pessoas do poder público do Distrito em Povoado. A comitiva dirigiu-se para a igrejinha, provavelmente a fim de contemplar a agora conhecida obra de importância artística, histórica e social. As pessoas seguiram-na. O prefeito e o auxiliar postaram-se em frente à igrejinha e observaram as pinturas, cochichando coisas impossíveis de se ouvir. Lorival tentou se aproximar da dupla para perguntar o que haviam achado da obra de arte. Subitamente afastado por guardas que acompanhavam a comitiva, nem teve tempo de reclamar, pois um do grupo pegou um megafone e se pôs a berrar:

– Cidadãos do Povoado, meus amigos! É com muita alegria que estamos aqui. Povoado foi contemplado com um presente incrível e formidável! O excelentíssimo Prefeito falará sobre!

Falaria da obra? Decerto. Não havia outro acontecimento que pudesse chamar tamanha atenção. Prefeito encomendaria obra similar? Falaria da importância dos painéis da igrejinha? Condecoraria Lorival? Capaz. O povo aguardava ansiosamente o panegírico.

– Minha rica gente, parabéns! – começou o prefeito. Povoado foi presenteado pelo destino. Povoado agora terá uma nova história, viverá uma nova era, uma era de certezas, uma era de Progresso!

Lorival e todas as pessoas ficaram confusas. De que Progresso falava aquele homem? Prefeito discursou sobre a necessidade de mudanças em Povoado, impostas pelo Governo do alto escalão, que o colocaria em tempos de prosperidade, garantindo um futuro grandioso. Falou sobre pavimentação, construção de comércios, entrada de indústrias, cobrança de impostos e outras medidas fundamentais para o avanço do Progresso. E antes que houvesse qualquer questionamento, sentenciou:

– A primeira medida a ser tomada é apagar os painéis da igreja, visto representarem histórias antigas, coisa inventada, e que não pertence ao ciclo do Progresso!

Quê? Estão loucos? Apagar um projeto de apreço popular recém-criado, uma obra de arte que não tem outra finalidade a não ser mostrar traços da cultura e história local? Qual o motivo daquilo? Que autoridade tinha o prefeito do Distrito para exercer tal ordem?

Lorival tomou a frente de todos. Tentava se aproximar do Prefeito e do auxiliar cinzento. A comitiva adentrou a igrejinha. Os guardas fizeram um cordão de isolamento. Lorival começou a gritar que exigia ser ouvido, gostaria de entender o que se passava, o porquê de tantas mudanças repentinas e qual a validade de tudo aquilo. Nada não parecia acontecer. Lorival pediu que todos gritassem com ele. Abram as portas, abram as portas! Falem com as pessoas, falem com as pessoas! Abram as portas!

O auxiliar do prefeito saiu da igrejinha. Sussurrou para um dos guardas que reforçasse a segurança e que deixassem entrar o líder da gritaria. As pessoas se aquietaram. O guarda deu ordem para a entrada de Lorival. As portas da igrejinha se fecharam. As pessoas aguardavam em silêncio e o silêncio não é um aliado do povo. E o que se viu a seguir foi um horror. As portas da igrejinha se abriram e o cordão de guardas deu passagem a Lorival. Seu rosto estava inchado, quase irreconhecível. Escorria sangue de seu nariz e seus lábios estavam grandes, disformes. Os dedos mindinhos estavam quebrados, bem tortos. O povo permaneceu em silêncio.

Os guardas dispersaram as pessoas enquanto a comitiva do Distrito organizava-se para ir embora. O auxiliar de terno cinzento chamou um grupo composto por meia dúzia de pessoas e sinalizou positivamente com a mão. Eles abriram a caçamba de uma picape, retiraram galões de tinta cinza e começaram a passar por cima dos painéis da igrejinha. Começaram a apagar a história do povo.

Lorival sentou-se em um lugar próximo. Sentia dores fortes e uma confusão mental pela qual nunca havia passado. Sentiu um toque no ombro e, ao virar, se deparou com o guarda que deu passagem para sua entrada na igrejinha. Era um homem de meia idade, com aspecto de cansado, ainda que preservasse certo frescor na aparência:

– Homem, desista.

– De quê? – indagou Lorival.

– Você achou que isso passaria desapercebido?

– O que? – insistiu Lorival.

– Veja: neste nosso mundo, em todo o mundo, tudo o que existe, até mesmo a gente, pertence a alguém.

– Não entendo.

– A sua ideia, a obra de arte, virou um problema para o comando do Distrito. Perceba: apesar do Povoado parecer ser um lugar independente, autônomo, todos que nascem aqui são registrados no Distrito, entende? São cidadãos de lá e o Governo do alto escalão envia verbas para Distrito conforme o número de habitantes. O Prefeito deveria aplicar parte do dinheiro aqui no Povoado, mas há coisas urgentes, muito urgentes… Entenda: Povoado existe para certas finalidades e inexiste para tantas outras. No entanto, a obra da igrejinha chamou a atenção e colocou Povoado no mapa. Portanto, o Prefeito precisou vir e iniciar coisas que há muito ele deveria ter feito pelo rigor da Lei. Ademais, uma pessoa engenhosa e de ideias inteligentes como você sempre será um problema para quem governa.

Lorival não acreditou na distorção das coisas. Sempre haverá pessoas a encontrar brechas para abraçar o demônio? A história do Povoado foi destruída ao tentar ser construída. No final das contas será que o diabo é que se inspira na gente? Pela primeira vez sentiu o cansaço vindo do calor do Povoado. Pensou no guarda que contou a história para ele. Qual seria o seu interesse? Tudo não passará de um jogo de interesses? Sentiu vergonha ao perceber a sua ingenuidade, em achar que teve uma ideia boa. Na verdade, o que é uma ideia boa? “Não existem ideia boas ou ruins, apenas ideias que interessam ou não”, concluiu.

Lorival meditou pelo resto da tarde. Pensou no significado do Progresso. “Seria o progresso um processo de apagamento da história e da existência de gente simples?”. O muro cinza o encarou triste. Mirou o horizonte. O sol é muito maior quando está indo se deitar. Observou toda a vastidão de terra seca, a mesma terra seca de que as pessoas são feitas. “Dentro de nós, de todos nós, há uma terceira margem do rio”, sentenciou. Andou em linha reta oposta ao progresso e nunca mais foi visto.

Photo via VisualHunt

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