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O Dia Em Que Decidi Nunca Mais Decidir

Ficção | Leonardo Cássio 02/08/17 - 10h Leonardo Cassio

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Começou uma coisa na adolescência de que era preciso tomar decisões. Assim, sem mais nem menos. Quando criança, ouvia diariamente que eu não cuidava do meu próprio nariz, que tinha de obedecer e blá-blá-blá e, da noite para o dia, como se houvesse uma chave que desligasse a memória e nos introduzisse novas orientações, fui obrigado a decidir.

Decida-se sobre o que quer prestar de vestibular. Decida-se sobre sua profissão. Decida-se sobre o que quer da vida. Decida-se. A primeira decisão que tomei, na transição entre a infantilidade bestial e a adolescência infernal, não foi lá muito bem aceita. Escolher o time de futebol arquirrival da família o torna praticamente um bastardo. É preciso ter força para decidir algo assim.

Com o pé na fase madura da adolescência, período no qual você ainda assiste aos desenhos que quase consumiram o seu cérebro, mas já tem por ímpeto o objetivo de ser um mestre vital em algo, chega o momento magistral de votar! Sim, decida-se sobre um candidato! Como você já sabe tudo sobre o comunismo e a evolução da esquerda-radical e da esquerda-moderada-centro-quase-direita e sabe também sobre a direita-centro-esquerda-moderada-neoliberal e a direita-ultraconservadora-fascista-nazista-mais-neoliberal-ainda você está apto a votar! E como no Brasil há dois partidos versus cinquenta outros, fica fácil a coisa. E certamente, como no caso do futebol, a decisão foi bem acatada pela família-classe-média-direita-esquerda-bifurcação-sem-rumo.

Aí você acredita (ou acreditam por você) que, com dezoito ou dezenove anos, você realmente decidirá corretamente sobre o que você quer estudar na faculdade. Claro, jogador de futebol você decidiu não virar (ou na verdade o destino decidiu por você, quando não te deu talento algum para). Ator você achou melhor não, pois, além de tímido, você sabe que é meio feinho e então sabe como é aqui no Brasil: beleza decide muito. Rock star é impossível, pois nem a flautinha do ensino fundamental rolou de aprender. Bombeiro e policial não são opções para decidir. Então vamos ser jornalistas-publicitários-contadores-administradores-advogados-engenheiros. Entre as opções possíveis, decidi fazer relações internacionais.

Nem bem formado, época que você acha que é gente, mas descobre que é um estagiário em processo de entendimento de uma vida que jamais será entendida, é o momento de decidir entre o namorico de faculdade semi feliz e o intercâmbio na África do Sul, que é mais barato que Londres e Sydney, e o lema de ter um futuro que você decidiu sempre em comunhão com a família-classe-média-agora-de-direita-centro-esquerda-moderada-neoliberal porque a esquerda-moderada-centro-quase-direita é pobre e não vai para a África do Sul.

Aí você volta do intercâmbio e a família-agora-de-direita-ultraconservadora-fascista-nazista-neoliberal quer te colocar numa multinacional que você aprendeu nas aulas de reforço meio que cursinho que o nome certo é transnacional e você tem de decidir que o que você quer fazer lá é administração porque você se formou em relações internacionais porque quis e então tem de decidir agora em qual empresa dessas entrar. Decidi ir para uma agência ser designer porque meu negócio é Photoshop.

Decidi então sair da casa da família-neoliberal-ultraconservadora-fascista-nazista porque decidi que lá já não era mais tão legal porque decidiram que quem faz design não tem futuro. Agora a decisão ficou em torno de ir morar sozinho ou com um amigo ou com a menina com quem estou saindo há alguns dias mas que claramente é de extrema-esquerda-contra-multinacional-ou-melhor-transnacional-e-que-endeusa-um-designer-como-eu. Aí, quando você decide morar com ela em um bairro periférico e faz sua primeira tatuagem, sua família-neoultraliberal-conservadora-fascista-nazista decide que você precisa decidir que precisa de ajuda médica.

Vem então o doctor, que receita remédios para sua disfunção psicológica, que se torna quase uma depressão devido à pressão que você sofre e só os designers formados em relações internacionais sabem como é e você decide que este não é o caminho. Só que você abandonou os exercícios quando decidiu que não tinha talento para ser jogador de futebol e abandonou seus hobbies quando você decidiu já ser um adulto e leu sobre o apartheid e decidiu que deveria ir estudar na África do Sul porque é cool e é destino para designers.

Decidi não aceitar os remédios e fui buscar uma alternativa lícita e prazerosa. Decidi pelos cigarros e pelo álcool, que é o que a lei determina serem prazeres legais e portanto não causam mal algum. A família-neonazista-ultrafascista achou um absurdo, apesar de todos fazerem usos dessas ferramentas do prazer e eu, não entendendo, decidi perguntar para os amigos e para a amiga que mora comigo o que eu poderia fazer. Me disseram que maconha era melhor para aliviar a dor e eu disse que era proibido e eles retrucaram que isso é jogo político daquele político-de-esquerda-em-quem-votei-quando-tinha-16-anos mas que é de direita-esquerda agora, dependendo das duas chapas versus cinquenta que o apoiarão.

Começo a ficar confuso e achar o ato de decidir difícil de entender. Para agradar a todos, eu decido fumar cigarros, vender maconha e fazer churrasco com álcool para a família-nazista-fascista-neoporrete-em-designer. Agora todos me amam: familiares, amigos, a amiga que mora comigo, as transnacionais das quais consumo os produtos saudáveis, o político em quem votei, o time que escolhi, que é patrocinado pelos produtos que compro, sendo que os jogadores do time usam o produto que vendo, o pessoal de relações internacionais que está virando designer porque não tem vaga na diplomacia brasileira, o pessoal da periferia que fila meus cigarros e os amigos da África do Sul que acham o maior barato a Vila do Fundão, onde moro com a minha amiga e também o produto que vendo ilegalmente, mas que é mais leve que os legais que uso mesmo que os nazistas da família-fascista-neoconservadora não concordem com isso e achem melhor tomar os medicamentos do doctor que eles usam no churrasco que ofereço.

Antes de decidir que nunca mais decidiria nada, decidi não ter filhos. Primeiro, porque a amiga que morava comigo parou de me endeusar e passou a me chamar de vagabundo-de-esquerda. Segundo, porque a família-nazista-fascista-de-direita-neoconservadora decidiu não legitimar um neto-bastardo-de-esquerda, ora essa, vejam o time que ele escolheu e a pobre criança seguirá o caminho por influência, pois o filho de um doente que não toma remédios do doctor não conseguirá decidir nada que preste. Por fim, quando meu filho tivesse dezesseis anos, não saberia me decidir sobre que droga oferecer a ele: a maconha, o álcool, o cigarro ou o voto.

Decidi então voltar para a África do Sul e ser designer e nas horas vagas fazer trabalho voluntário levando os remédios que o doctor indicava aos nazistas da minha ex-família para os pobres do apartheid cuja leitura que fiz quando estava doente nunca me esclareceu o que é nem me ajudou na minha faculdade de relações internacionais.

Decidi, a partir de então, apenas acatar a decisão dos outros e nunca mais decidir sobre nada. Resta saber se quem mandará é a esquerda ou a direita. Enquanto isso, preciso que alguém decida por mim sobre um time de rúgbi.

Photo credit: … marta … maduixaaaa via Visualhunt / CC BY-NC-ND

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