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O Menino Da Copioba

Ficção | Leonardo Cássio 20/06/17 - 10h Leonardo Cassio

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Era de um pretume reluzente. Dentes alvos, baixinho como uma banqueta e, de perfil, assemelhava-se a uma tábua de passar roupas. Sorridente, Buri cumpria religiosamente seu ritual: postava-se cedo em frente ao Elevador Lacerda à procura de gringos que pudessem lhe dar os trocos necessários para comer.

Buri adorava comer. Algumas vezes comia até duas vezes por dia; era seu momento de glória. O garoto tinha uma lábia afiada, distante da idade de criança que tinha. Tinhoso, Buri mirava a gringaiada e se aproximava sorrateiramente, como uma sucuri faminta pronta para o bote, e desfiava seu feitiço em forma de sorrisos e palavras:

Dotô, deixa eu falá a história desse lugá procê, Meu Rei!?

E desatinava o falatório sobre a famosa estátua francesa no meio da praça, sobre a arquitetura histórica dos prédios, sobre o rico ouro dentro das igrejas — ouro este que mataria sua fome por longos anos! —, sobre as imagens barrocas preciosíssimas de que ouvira falar.

Ao anoitecer, Buri encaminhava os gringos para as festas do Pelourinho. Ah, as festas! Tal como um Capitão da Areia, Buri se divertia! Sempre descolava um camarãozinho, um pedacinho de pastel e um gole de Coca-Cola; era sua glória!

Tarde da madrugada, o menino se dirigia à Cidade Baixa para algumas horas de sono, sem direito a uma última refeição (já havia feito duas completas naquele dia!), concentrando as energias para o dia seguinte, quando teria a chance de comer novamente.

Serelepe, Buri chegava cedo à frente do Elevador com o sorriso cortando o Sol do dia. Trocava umas pebas com outros garotos e, em seguida, começava sua pequena oração agradecendo por mais um dia.

Ansiosamente procurando uma “vítima” naquele dia ensolarado, Buri foi surpreendido. Viu, assustado, um anjo descendo do elevador. Sim, um anjo, como aqueles pintados em uns livros que tivera a sorte de ver uma vez na vida. Era alto como o Elevador Lacerda, claro como o Céu de Salvador. Buri, em êxtase, não se avexou e foi ao encontro do anjo. Abriu o sorriso para o enviado de Deus e começou a tagarelar:

Meu Rei, diga aí, quer conhecer um pouco sobre o Pelourinho?

O gringo, que era viajado e já estivera em Salvador pelo menos umas três vezes, sorriu e com um sotaque carregado consentiu ao garoto a prosa histórica. Deleitou-se com a malemolência daquele moleque, divertindo-se com as histórias (não seriam estórias?) fantasiosas daquela cabecinha que, visivelmente, sofria diariamente.

E a cada passo que dava adentrando aquele lugar místico, o anjo gringo foi se impressionando com Buri, com sua esperteza, com seu sorriso alvo, com seu ânimo, apesar da clara pobreza em que vivia. E o gringo convidou o garoto para comer um pastel de camarão e, aproveitando o momento de glória de Buri, perguntou em tom enrolado:

Criança, onde estão seus pais?

— Xi, Meu Rei, sei, não. Desde pequeno só sou eu, meu Deus e meus santos baianos.

O anjo gringo se contorceu de remorso. Não era novidade para ele se confrontar com pessoas pobres, especialmente crianças. Porém, perceber em meio à miséria humana um sorriso tão verdadeiro, tão sincero e singular, fez com que seu coração apertasse, comprimindo-se em pensamentos sobre sua própria condição na Terra.

Para o gringo, a vida era uma dádiva. Carregava essa crença consigo, apesar de ter vivenciado, viajante que era, muitos fatos duros de serem encarados. E Buri era a prova concreta de que a vida valia à pena, de que a vida, apesar de sua crueza, era, sim, um presente (como alertariam os amantes de clichês) e que qualquer luta por ela era válida.

Convidou o garoto para um passeio longo. Pegaram um táxi e visitaram algumas praias. Buri estava em êxtase. Aquela Bahia não existia para ele. Farol da Barra, Lagoa do Abaeté, Farol de Itapuã… Eram lugares tão longínquos quanto sua própria consciência sobre o que era Salvador, o que era a Bahia, o que era o mundo. Buri conhecia o Pelourinho e o trapiche, conhecia sua fome e sua alegria. Nada mais.

Sabia, desde o momento em que batera os olhos no gringo, que se tratava de um anjo. E assim como todo anjo, como todos os santos do seu Pelourinho, ele estava lhe descortinando um novo Universo. Ah! Sim, quanta água, quanta areia, quanta gente bonita! Os negros se contorcendo em golpes aéreos de capoeira, as mulheres se besuntando com cremes e mais cremes; crianças felizes como ele nunca vira erguendo papagaios no mesmo Céu que lhe servia de cobertor. Buri tivera a certeza de que tudo aquilo que via chamava-se Vida.

Uma vida que ele não conhecera antes daquele passeio de táxi. O garoto abria os braços e emocionava cada vez mais o gringo. Até o taxista, pragmático, no entanto, mangador, sorriu e sarapiteou com Buri.

Quando o Sol estava pronto para clarear a outra face da Terra, o gringo tratou de pedir ao taxista que os levasse a um restaurante de frutos do mar que adorava. A barriga de Buri ganhou vida própria. Nunca havia comido em um restaurante. O mais próximo a que chegou foi quando uma mulher zambeta o convidou para comer uns camarõezinhos no Mercado Modelo. O coração de Buri doía mais do que a barriga e, sem cerimônias, foi adentrando o palacete com a crista batendo no teto do local.

E o gringo estava contente. Havia tido uma tarde incrível com aquela criança. Desde que vira aquele sorriso enorme, tinha a certeza de que se tratava de um anjo. Sim, um anjo. Não era um homem de fé, no sentido exato de frequentar de forma assídua uma religião. Era uma pessoa espirituosa, que tinha em seu coração uma fé plena, uma fé otimista na vida, no homem, no Destino. Iria alimentar a barriga daquele anjo como ele alimentou sua alma naquela tarde incrível.

Buri não sabia ler, mas era tinhoso, o menino. Bateu os olhos em uma foto e já foi escolhendo o prato. Era uma verdadeira moqueca, coisa grã-fina, que em suas palavras ganhou nova conotação semântica:

Dotô, na maior, traga um paraíso desse pra gente se encantá. E venha avexado!

O garçom e o gringo se esbaldaram de rir! Ah, que felicidade contagiante tinha Buri! Que leveza, que beleza, que encanto! E logo chegou sua Coca-Cola e uns camarões para beliscar. Buri orava em silêncio para agradecer ao seu Deus pelo anjo enviado. E o anjo agradecia outro Deus pelo anjo que encontrara. E o banquete celestial era pura magia.

Buri soluçava de alegria! Eram camarões magníficos, banhados no leite de coco, com peixes variados. O odor do pimentão misturado à cebola, o gosto leve do limão. Buri tinha a certeza de ter encontrado o significado da palavra Vida. Era, novamente, um Universo novo, perfeito. Os dentes alvos do menino se misturam ao colorido da moqueca, tornando-se um verdadeiro arco-íris. Queria morar dentro da panela de barro. Mergulhar fundo no caldo incrível que acabara de provar. Chorou. E junto com ele chorou o gringo. E entre garfadas e lágrimas, sorrisos, sorrisos de uma vida nova descortinada para ambos.

Era o momento máximo da glória de Buri. Preparavam-se para as últimas garfadas quando o dotô surgiu na maior com uma surpresa. Mostrou a Buri uma farinha e emborcou um pouco em seu prato, dizendo:

Essa é a farinha de copioba. Conhece, rapazinho? É feita de sonho e só dá em um lugar no mundo: na nossa Bahia! Em uma terra aqui perto, pra dentro, longe das Águas de Deus, no Recôncavo Baiano.

Buri ficou encantando com o nome. Copioba, copioba, copioba, repetia. E, no que experimentou com apetite voraz, chorou novamente. Não poderia haver algo tão maravilhoso como a farinha de copioba! As lágrimas espalhavam-se pelo rosto negro, os dentes pareciam querer saltar da boca de tanta felicidade. Buri estava em outro Universo. Pássaros e peixes moviam-se em seu corpo; seu coração misturava-se com a barriga em movimentos mais ágeis do que os dos negros capoeiristas; suas mãos tremiam, suas pernas saracoteavam sem controle; seu peito explodia de alegria.

O gringo não podia conter a emoção. O garçom estava certo de que era um milagre, a criança era um anjo; as pessoas nas mesas se iluminaram com a cena. Mas Buri não sentia mais o chão. Sua vida estava completa. Experimentara o paraíso, da forma mais prazerosa, comendo; era seu momento máximo de glória! Vivera até ali uma vida de pedidos e agora tinha recebido tudo de que uma pessoa precisava: camarões, moqueca e a farinha, a farinha de copioba, copioba, copioba.

Beijou a face do anjo e agradeceu com olhos marejados. Correu o máximo que pôde. Atravessou a avenida em direção ao mar. As pessoas nas mesas ficaram inquietas, menos o anjo gringo, que entendeu o sentimento de Buri. Chorou, emocionado, por ter libertado as asas dele. Buri correu em direção às Águas de Deus, águas estas que lhe escorriam pela face. Seu pretume fundiu-se com o da noite e de braçada em braçada avançou pelas águas. Sentia um prazer imenso, uma satisfação única. E, em certo ponto, o mar já não era mais de água, era na copioba milagrosa que Buri nadava. Sentia o gosto da farinha, do camarão e da moqueca e, quando pensou no gringo, seu anjo, alcançou o paraíso, a Terra da Copioba. Foi seu maior momento de glória.

Photo credit: Dmitry Kichenko via VisualHunt / CC BY

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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